28. Livro do Eclesiastes | Paulus Editora

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09/06/2021

28. Livro do Eclesiastes

Por Nilo Luza

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O livro do Eclesiastes em hebraico recebe o nome de Qohelet, aportuguesado Coélet, que significa assembleia ou reunião. Eclesiastes, por sua vez, deriva do grego ekklesia, passando para o latim ecclesia, que significa igreja ou assembleia.

O autor, provavelmente um judeu palestinense, se apresenta com o nome de “Coélet, filho de Davi, rei em Jerusalém” (1,1). O filho de Davi, rei em Jerusalém, foi Salomão. Portanto, ele se considera Salomão o mais sábio de todos os reis de Israel e o patrono da sabedoria. Por isso, Salomão foi visto como o autor do livro. Sabemos, porém, que a redação final do livro foi feita muitos anos depois de Salomão. O livro surgiu, por volta de 250 a.C.

Com frequência, o autor do livro foi visto como pessimista por causa de suas reflexões críticas e realistas. O livro surgiu no tempo da dominação grega, que cobrava altos tributos. O povo tinha de trabalhar muito para pagar impostos. O autor encara essa situação difícil em que o povo vivia, trabalhava bastante e não aproveitava o resultado do esforço. Ele não se conforma quando constata a presença da injustiça onde deveria haver a justiça.

Era tempo difícil, principalmente para o povo do campo, que não mais produzia apenas para sobreviver, mas tinha de produzir para vender e exportar para poder pagar os tributos, que eram cobrados em moedas. Com isso, aumenta a distância entre os pequenos proprietários e a elite. Muitos endividados vendiam-se como escravos.

Coélet é um sábio preocupado em levar o povo a refletir sobre a vida e questiona a situação de pobreza. Ele é um rebelde que não se utiliza da violência e contesta sem arrogância. Os reinos vão se sucedendo (persa, babilônio, grego), mas cadê a melhoria de vida do povo? Diante da incerteza do amanhã, o autor propõe viver os momentos felizes do presente: comer e beber com alegria.

O livro procura questionar o modo de vida dos gregos, que valorizavam o corpo, o prazer, a riqueza e o poder. Segundo Coélet, o verdadeiro sentido da vida e da felicidade não está nisso. Tudo isso é passageiro, vaidade e ilusão, palavra repetida muitas vezes.

O autor propõe resistir contra a cultura grega e procura desmascarar a opressão dos gregos.  Onde encontrar a felicidade se não está no prazer, na riqueza e no poder? A felicidade consiste em viver com simplicidade do fruto do próprio trabalho. Aí está a chave da felicidade. O livro pode ser dividido em duas partes.

Primeira parte (1-6): As ilusões da vida: Essa parte está organizada em torno da questão: “que lucro tem o ser humano em todo o duro trabalho com que se cansa debaixo do sol?” (1,3). Essa pergunta é como que o fio condutor do livro todo. Repete frequentemente como um refrão a expressão: “ilusão e corrida atrás do vento”. A partir daí pode surgir a seguinte questão: que lucro tem o trabalhador com seus cansaços? Para ele o sentido e a felicidade consistem em usufruir do próprio trabalho. Em poucas palavras, o livro é uma crítica ao helenismo que via a felicidade nos prazeres da vida. Tudo pode se tornar “vaidade” quando não se encontra um sentido para a vida ou quando é roubado o direito de ter uma vida digna e com sentido.

Segunda parte: A relatividade dos bens (7-12): A segunda parte continua as reflexões sobre o que é melhor para a vida da pessoa. Mesmo não compreendendo o futuro, o autor apresenta alguns aspectos que podem caracterizar a vida sábia: ser pessoa honrada, ter consciência do sofrimento, do fim que iguala a todos: a morte. Ela nivela a todos, tudo relativiza. Nesta parte, trata da sabedoria e suas relações com a justiça, a mulher, o poder, o destino humano. Continua afirmando que a saída para encontrar a felicidade é usufruir do próprio trabalho. Por outro lado, é necessário o próprio empenho enquanto jovem.

O autor encara a vida humana em seus diversos aspectos e vê que muita ambição e cobiça são ilusões. O ser humano precisa aceitar os próprios limites, sem querer se igualar a Deus.

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