Um upgrade de ilusões | Paulus Editora

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Tecnologia e Pastoral

09/06/2022

Um upgrade de ilusões

Por Ednoel Amorim

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Evoluir parece ser uma necessidade ou talvez se possa usar a palavra imperativo. Seja como for parece que o ser humano de um modo geral tem confundido um pouco o que seja o real conceito de evoluir. Na origem do sentido da palavra evoluir está o ato de desenrolar algo que está dobrado, fazer aparecer algo escondido. Nesse caso, podemos pensar que evoluir pode ser identificado com o ato de descobrir algo novo, que antes não sabíamos ou que não estava tão evidente, seja em relação a nós mesmos ou em relação aos demais. É como um olhar mais acurado que passa a perceber nuances antes não percebidas, um refinamento do olhar, que, propriamente, passa a perceber detalhes e reelaborar conclusões, o que deveria causar mudanças naturais de postura e comportamento decorrentes das descobertas feitas. Aquele que evolui como pessoa é como um arqueólogo de si mesmo e da realidade que o cerca, que de tempos em tempos descobre coisas novas e velhas no tesouro do seu coração (cf. Lc 6,45; Mt 13,52).

Quando, porém, se confundem as coisas e já não sabemos mais a essência do que seja evoluir, podemos pensar que a civilização começou com o lançamento do primeiro iphone, no dia 29 de junho de 2007, ou concluir que as tecnologias de combinação presentes nos smartphones existiam desde sempre como é o caso de quem nasceu depois de 1992, ano em que surgiram os aparelhos que eram capazes de utilizar internet, acessar e-mails, fazer chamadas e até correspondiam ao toque, esses podem pensar que o mundo sempre foi assim e não se pode viver de outra forma senão assim. Quem vive no mundo como se estivesse dentro de uma bolha pode pensar que a cada upgrade que é feito para atualizar seu aparelho é um passo que a humanidade dá no caminho do avanço e do progresso. Mas será que evoluir, no sentido de avançar, pode ser reduzido a apenas ao avanço e à atualização de recursos tecnológicos?

Os benefícios das novas tecnologias é evidente e não pode ser deixado de lado, pois eles encurtaram distâncias, mudaram a noção de tempo, melhoram a vida e os processos, fizeram o mundo parecer menor; no entanto, este mundo de tecnologias que nos faz sentir tão próximos virtualmente, não nos aproximou fisicamente, não nos ajudou a ser melhores que aqueles que produziram duas guerras mundiais no passado e continuam a vivenciar guerras e conflitos de diversas ordens no presente. Ainda são sentidas e marcantes as divisões, ainda existem gritantes diferenças entre ricos e pobres, ainda existe fome, violência, e esta, muitas vezes, se apresenta porque a cor da sua pele não me agrada, porque suas preferências sexuais não me representam, sua opinião é errada e a minha é sempre a certa. São com poucos exemplos como esses que ficamos a duvidar se o ser humano realmente tem evoluído na mesma velocidade que atualiza as prateleiras das revendedoras de aparelhos tecnológicos.

Apesar do cenário caótico que vemos, o Papa Francisco já nos lembrou inúmeras vezes da importância de uma cultura do encontro, pois não basta sermos vizinhos, precisamos ser capazes de dialogar com as diferenças, não excluí-las. Segundo o Papa o que nos ajudará a superar essas divisões ainda sentidas e marcantes é o desenvolvimento de uma boa comunicação auxiliada pelas inúmeras mídias modernas, que possuem, sim, uma força gigantesca, porém devemos ser capazes de priorizar o bem e isso não se faz só com boa vontade ou preces, precisamos de mobilização social, mudança de paradigmas, formação amorosa para o bem, ou seja, precisamos criar projetos concretos que atinjam os poderes públicos e as estruturas. Do contrário, continuaremos a falar sem ser ouvidos e produzir conteúdo unicamente para preencher espaços em ambientes digitais que de nada servirão.

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