A “algor-ética” e o dom de Deus | Paulus Editora

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Tecnologia e Pastoral

05/02/2021

A “algor-ética” e o dom de Deus

Por Ednoel Amorim

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Você deve estar se perguntando o que significa essa expressão. Se não tiver nenhuma ideia do que possa ser, quer dizer que você precisa atualizar-se nos assuntos eclesiais e tecnológicos. A primeira parte da expressão nos remete às novas tecnologias digitais colocando em foco o termo Algoritmo, que nada mais é que um código, porém, um código de computador com um potencial altíssimo, sendo utilizado inclusive no desenvolvimento de sistemas inteligentes ou mais comumente em tecnologias que utilizam Inteligência Artificial. A outra parte, a Ética, nos remete para a filosofia, teologia, sociologia etc., que é parte dos conhecimentos humanos que se dedica a pensar a moralidade dos atos humanos, se nossos atos podem ser considerados moralmente certos ou errados. Desse modo, temos um ponto de encontro entre os dois termos, pois o algoritmo é um código criado a partir da inteligência humana e, portanto a algor-ética é um desejo por conferir a esses códigos um caráter eticamente seguro para todos.

Em novembro do ano passado Frei Darlei escreveu sobre isso e comentou sobre a intenção mensal do Papa e seu interesse em relação ao tema (cf. https://www.paulus.com.br/portal/por-uma-algor-etica/#.X9JhXGhKjIU). De fato, no final de 2019 e no início do ano passado, muitas foram as sinalizações do Papa demonstrando sua preocupação com o avanço tecnológico e a utilização dos algoritmos na construção de sistemas inteligentes.

Do pouco que sabemos sobre esses códigos, podemos dizer que eles podem funcionar de modo enviesado. O que seria isso? Seria um critério injusto colocado em sua lógica de programação, que provém do seu criador ou do banco de dados utilizado para alimentá-lo. Um exemplo: Se a sociedade é racista, o código também será. Fruto disso seria o famoso caso do aplicativo de embelezamento facial que na hora de aplicar o filtro sobre o rosto de pessoas negras no lugar de retirar as “imperfeições” da pele o que ele fazia era embranquecer a pele da pessoa, demonstrando que “branquitude” é sinônimo de beleza. Ainda não podemos afirmar categoricamente que o programador tenha feito isso, ou que o código inteligente tenha aprendido a partir das escolhas da população, mas estudos apontam nessa direção, pois alguns algoritmos processam informações precisamente do grande banco de dados (Big Data), que analisa todos os rastros que deixamos na internet. E nós sempre deixamos rastros. (cf. https://tarciziosilva.com.br/blog/algoritmos-de-opressao-como-mecanismos-de-busca-reforcam-o-racismo/).

Talvez o evento eclesial mais importante ocorrido recentemente tenha sido o congresso realizado no Vaticano, sobre Inteligência Artificial, que neste mês completa um ano. Naquela ocasião o Papa Francisco dirigindo-se aos participantes na plenária da pontifícia academia para a vida disse que diante do potencial dos algoritmos e da Inteligência Artificial a simples educação para o uso correto das novas tecnologias não é suficiente para combater os problemas decorrentes do uso dessas tecnologias, sendo urgente a criação de corpos sociais intermediários que garantam a representação da sensibilidade ética dos usuários e educadores, ou seja, o algoritmo não pode ser utilizado indiscriminadamente sem uma curadoria especializada. Além disso, o que podemos apreender da fala do Papa é que apelar para a consciência individual dos cidadãos não é suficiente, precisamos de uma ação coletiva e organizada, por isso o Papa refere-se a um corpo.

Precisamos então promover uma “algor-ética”, isto é, uma ética dos algoritmos onde se crie uma séria, elaborada e articulada ética para fortalecer o compromisso verdadeiro pela promoção da vida digna, da justiça e dos direitos humanos como um todo. Nessa direção nossa participação é fundamental e o Papa, apesar de tudo, lembra que podemos tirar bom proveito das novas tecnologias, pois estamos diante de um dom de Deus. Enquanto Dom é preciso cuidar, para que não se perca.

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