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Liturgia

07/05/2020

O que a liturgia não é

Por Manoel Gomes

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Sempre que buscamos conhecer algo nos esforçamos para compreen­der em quê aquilo consiste, sua origem, seu objetivo etc. Mas se quisermos conhecer bem, devemos entender o que esse algo, definitivamente, não é. Assim, temos bem estabelecidos os limites dentro dos quais nos moveremos em nossa busca por conhecimento.

Ao falar de liturgia, não poderia ser diferente. Temos várias definições e certamente nos deteremos em algumas delas em outros textos. Mas nesse primeiro momento consideramos importante perceber aquilo que a liturgia não é. Pode parecer uma mera escolha da parte de quem escreve, mas só parece. A experiência em diversas comunidades, seja tomando parte nas atividades, seja auxiliando na formação, nos leva a afirmar que muitos dos fiéis que participam de nossas celebrações, como também muitos que dão a sua contribuição, têm uma ideia equivocada de liturgia.

Uma ideia que é preciso abandonar é a que reduz a liturgia a mero ritualismo. Para muitas pessoas, falar de liturgia é discutir aquilo que “pode ou não pode”; se algo deve ser feito “assim ou de outro modo”. Não negamos a relevância das rubricas e indicações que nos dizem como organizar as nossas celebrações. Elas são, sim, necessárias. Mas não são fim em si mesmas. A liturgia é, sem dúvidas, muito mais rica e abrangente do que qualquer conjunto de regras.

O papa Pio XII na sua famosa encíclica Mediator Dei (documento fundamental para se entender a liturgia em sua evolução) afirma categoricamente:

Não têm, pois, noção exata da sagrada liturgia aqueles que a consideram como parte somente externa e sensível do culto divino ou como cerimonial decorativo; nem se enganam menos aqueles que a consideram como mero conjunto de leis e preceitos com que a hierarquia eclesiástica ordena a realização dos ritos (n. 22).

Não podemos reduzir as nossas celebrações litúrgicas a mera aparência. Participar, por exemplo, da Missa não significa apenas realizar tudo o que está escrito no Missal. Além disso, é necessária a disposição interior de quem toma parte na celebração. Sem essa, será simples ritualismo. Quantas vezes, ao prepararmos uma celebração, nos perguntamos sobre o que podemos fazer para favorecer essa íntima participação dos fiéis? Para nós, infelizmente, a liturgia continua sendo um “cerimonial decorativo” ou “mero conjunto de leis e preceitos”.

Não se trata de relativizar os gestos e ritos em nossas liturgias, pelo contrário. Para celebrar bem devemos ter conhecimento daquilo que estamos fazendo. É importante a compreensão – no seu sentido mais profundo – dos ritos que realizamos durante as celebrações litúrgicas. Mas não pode ser do mesmo modo como utilizamos um manual de instruções de um aparelho eletrônico. O mistério celebrado é, para nós, sempre muito mais importante do que as mediações que nos servem para a sua celebração.

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