Colunistas

Liturgia

05/06/2020

Liturgia e piedade popular

Por Manoel Gomes

Indicar a um amigo:





O mês de junho, em nosso país, é marcado pelas chamadas festas juninas (embora esse ano, devido às circunstâncias, não tenhamos os tradicionais festejos). Como fundamento dessas festas, temos a celebração litúrgica de quatro santos: santo Antônio de Pádua (ou de Lisboa), são João Batista, são Pedro e são Paulo. Em torno a essas celebrações existem muitas práticas (novenas, trezenas, promessas etc.) que não são litúrgicas, mas fazem parte da vida de fé das comunidades. Essas práticas fazem parte de algo que chamamos de piedade popular e é sobre isso que queremos refletir.

Primeiramente, diferenciemos os dois conceitos sobre os quais buscamos refletir. Assim poderemos entender melhor a relação entre ambos.

A liturgia, em uma de suas definições clássicas, é o culto que a Igreja, como corpo de Cristo, presta a Deus. Isso significa dizer que não se trata de algo particular, mas eminentemente eclesial. Se o culto é da Igreja, é evidente que seja ela a definir a maneira como este deve ser executado.

A piedade popular, por sua vez, é algo que surge a partir da experiência de fé de algumas pessoas ou grupos e torna-se um meio totalmente válido para o encontro com Deus e com as realidades divinas. Por se tratar de práticas enraizadas na experiência que o povo de Deus faz no dia a dia de sua história é chamada de piedade popular.

Temos uma bela definição dessa realidade no Documento de Aparecida: “A piedade popular é uma maneira legítima de viver a fé, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser missionários, onde se recolhem as mais profundas vibrações da América Latina” (DA 264).

Como práticas de piedade popular, que dão origem a uma espiritualidade popular, podemos citar diversas: rosário, via-sacra, angelus, promessas, peregrinações etc. Como vemos, são formas de oração muito presentes na nossa vida de cristãos. Podemos, então, nos perguntar: qual a relação entre a liturgia e a piedade popular? Existe uma oposição ou superioridade de uma sobre a outra?

Devemos dizer que a piedade popular e a liturgia não se excluem mutuamente, antes podem ser vivenciadas de modo que, juntas, nos façam crescer na nossa relação com Deus. Como se percebe são realidades que estão em âmbitos diferentes, não estão disputando o mesmo espaço. A liturgia será sempre fonte e cume de toda ação da Igreja, isso não é passível de discussão. Mas a piedade popular é, como disse o papa Bento XVI, “o precioso tesouro da Igreja na América Latina” e não deve ser diminuída no seu valor, mas, pelo contrário, deve ser protegida e promovida.

Isso não significa dizer que tudo o que é feito no âmbito da piedade popular seja um dogma que não deve ser questionado. Esse tipo de piedade deve ser sempre purificado para que expresse melhor as verdades sobre Deus e não apresente uma imagem distorcida ou falsa da religião. Um exemplo apenas: rezando o rosário, as pessoas devem entender que o mais importante não são as palavras que se repetem, mas os mistérios que são contemplados. Assim, o rosário se torna uma oração profundamente bíblica e centrada na pessoa de Jesus Cristo.

Devemos, portanto, valorizar e incentivar as práticas de devoção, sempre com o cuidado de que não exista nada que seja contrário àquilo que a Igreja nos ensina. A liturgia pode iluminar e alimentar a piedade popular ao mesmo tempo que, unida a essa, encontra formas de incorporar a vida concreta das pessoas no mistério de Cristo e da Igreja.

nenhum comentário