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Religião e Comunicação

11/02/2026

Tempo de caridade!

Por Darlei Zanon

Estamos prestes a iniciar o Tempo da Quaresma, um período de quarenta dias em que a liturgia nos apresenta textos muito belos e ricos. Além da ênfase no jejum e na oração, este é um tempo privilegiado para o exame de consciência, para uma meditação profunda sobre nossa vida, nossas ações, nosso modo de ser cristão.

Já no século II havia um tríduo com jejum e orações antes da festa maior da fé cristã, a Paixão e Ressurreição de Cristo. Naquela época eram comuns a penitência pública, como gesto de verdadeiro arrependimento e conversão, e o catecumenato (preparação para o batismo). O Concílio Vaticano II resgatou a vivência do catecumenato, com um programa que envolve os cinco domingos da Quaresma. Assim, a eleição dos catecúmenos para a fase da “iluminação” é feita no primeiro domingo, entrando os “eleitos” em clima de retiro, marcado nas semanas seguintes pelos “escrutínios”, com as “tradições” (entregas) do Símbolo da Fé (Credo) e da Oração Dominical (Pai Nosso), que acabam por fazer seus. Na vigília pascal todos professam a fé cristã e recebem o batismo.

Segundo os Santos Padres, a Quaresma é um período de renovação espiritual, de vida cristã mais intensa e de destruição do pecado, para uma ressurreição espiritual que marca na Páscoa o reinício de uma vida nova em Cristo ressuscitado. É o momento em que todos os cristãos devem pensar no seu discipulado, na maneira como seguem o ensinamento de Cristo, sempre em vista de uma conversão constante.

O número 40 é bastante significativo e simbólico. O 4 representa na Bíblia o universo material, o mundo, e o 0 refere-se à vida terrena, com as suas provações e dificuldades. Quarenta dias foi o tempo que durou o dilúvio; quarenta anos o povo hebreu andou pelo deserto em busca da terra prometida; quarenta dias Elias e Moisés estiveram em preparação no deserto antes de realizarem a missão confiada a cada um por Deus; enfim, quarenta dias é o tempo que Jesus foi tentado no deserto.

Quarenta dias é o tempo que cada um de nós tem para enfrentar o seu próprio deserto, para fazer a sua caminhada de libertação e conversão, para encontrar Deus e ouvir a missão que Ele nos reserva. Quarenta dias é o tempo que temos para fazer jejum e penitência, é a oportunidade de refletirmos sobre a nossa caminhada cristã, de prepararmos o nosso coração para o mistério da fé, para acolhermos a ressurreição de Cristo e promovermos a nossa transformação interior. A Quaresma é exatamente a possibilidade de crescermos na fé, de nos aproximarmos de Deus e das pessoas, através da oração, da abstinência e da caridade.

Recebemos neste tempo um convite de Deus para acompanharmos o Seu Filho que sofre. É no tempo de sofrimento e de dor que se manifestam as principais virtudes e surgem os maiores gestos de solidariedade. Na tentação, mostramos a nossa força; no deserto, mostramos a nossa fé verdadeira. Não recusemos este convite que Deus nos faz. Procuremos viver bem o tempo da Quaresma, com um propósito, com um programa de jejum e de caridade.

As obras de misericórdia podem ser o nosso guia nesta caminhada pelo deserto. Por isso é sempre bom retomá-las ou intensifica-las, vivendo de modo particular em sintonia com o que nos propõe a Campanha da Fraternidade, este ano sobre o tema da Moradia, com o lema inspirado em João 1,14: “Ele veio morar entre nós”.

Boa Quaresma a todos!

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