
A Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada em 15 de agosto, constitui um marco importante na história da doutrina mariana da Igreja Católica. Embora tenha sido definida como dogma apenas em 1950 pelo Papa Pio XII, por meio da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, a celebração da glorificação de Maria possui uma trajetória histórica que remonta aos primeiros séculos do cristianismo.
Os escritos do Novo Testamento não apresentam informações sobre os últimos momentos da vida de Maria. A última referência a Maria no Novo Testamento encontra-se em Atos 1,14, que a apresenta reunida em oração com a comunidade apostólica no cenáculo. O silêncio das Escrituras favoreceu o desenvolvimento de antigas tradições cristãs, conservadas especialmente em escritos apócrifos, como o Protoevangelho de Tiago e os relatos da Dormitio Mariae. Embora não possuam autoridade canônica, esses textos testemunham a existência de uma tradição antiga sobre o destino final da Mãe do Senhor e exerceram influência no desenvolvimento da liturgia e da reflexão cristã.
Essa memória encontrou expressão litúrgica inicialmente no Oriente, onde a celebração da Dormição foi estabelecida oficialmente no século VII durante o reinado do imperador bizantino Maurício. Pouco depois, o papa Sérgio I introduziu essa festa em Roma. Com o aprofundamento da reflexão teológica, a expressão Dormitio foi progressivamente substituída pelo termo “Assunção”, que passou a destacar não apenas a passagem de Maria desta vida, mas sua glorificação em corpo e alma. O desenvolvimento da linguagem litúrgica revela, assim, um processo gradual de compreensão do mistério celebrado pela Igreja.

Esse percurso histórico encontrou sua formulação definitiva no século XX. Na Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, promulgada em 1950, Pio XII definiu como verdade de fé que a Imaculada Mãe de Deus, terminado o curso de sua vida terrestre, foi elevada em corpo e alma à glória celeste. A definição dogmática não procurou determinar aspectos históricos ainda discutidos pela tradição cristã, como a maneira concreta dessa passagem, mas afirmar solenemente a glorificação corporal de Maria como pertencente ao depósito da fé.
A compreensão teológica da Assunção encontra seu fundamento na relação entre a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja e o mistério da redenção. O dogma não se apoia em um único texto bíblico, mas na leitura conjunta dos diversos elementos da revelação cristã. A visão da Mulher revestida de sol em Ap 12, embora possua inicialmente um significado relacionado ao povo de Deus, foi progressivamente reconhecida pela tradição cristã também como uma referência simbólica a Maria. A reflexão teológica compreendeu igualmente a Assunção à luz da relação singular entre a Mãe de Jesus e a missão redentora de seu Filho: associada a Cristo, Maria participa de modo único da vitória sobre o pecado e a morte.
A definição da Assunção representa, portanto, o resultado de um longo desenvolvimento histórico e doutrinal no qual Escritura, Tradição, liturgia e Magistério convergem para afirmar a glorificação de Maria. Mais do que recordar um acontecimento isolado de sua vida, o dogma manifesta a compreensão da Igreja sobre o lugar singular da Mãe de Deus na economia da salvação e sobre o destino último da humanidade redimida.