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Família

18/04/2017

A Família em Tempos de Pós-Verdade

Por Suzana Coutinho

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No final de 2016, o famoso Dicionário Oxford (da Universidade de mesmo nome) acrescentou mais um “verbete” à sua lista: pós-verdade. O termo já estava sendo usado desde o final da década de 1990, para descrever um fenômeno observado com o intenso uso das mídias digitais sociais. Esse fenômeno não seria novo, mas estaria alcançando uma dimensão muito maior, por conta da Internet.

Trata-se de opinar e julgar “acontecimentos” não pelos fatos reais, mas pelas “impressões subjetivas”. Cria-se “verdades” que podem ser facilmente derrubadas, mas que passam a ser aceitas por grupos de pessoas que as recebem e divulgam na rapidez e fluidez que são próprias da cultura pós-moderna. Essas mensagens ganham “valor” porque se aproximam de opiniões geralmente sem fundamentos, que são alimentadas por preconceitos, estereótipos e medo do diferente. Isso geraria situações perigosas, não só para a vida pessoal e comunitária, mas, inclusive, para o mundo todo.

A liberdade de opinião não pode vir desprovida de ética, que, por sua vez, pressupõe a responsabilidade. E estas não são qualidades que devem ser cobradas apenas de profissionais, como os jornalistas, mas devem ser qualidades da vida social, para todas as pessoas.

Olhando para o evangelho, podemos perceber como a verdade é uma das mais importantes características do cristianismo. O próprio Jesus revela-se como a verdade (Jo 14,6) e pede a seus seguidores a sinceridade em suas ações (“que seu sim seja sim…”, Mt 5,37). O cristão e a cristã são chamados a serem livres, inclusive no seu falar e no seu agir. Ou seja, fazer a vontade de Deus e não seguir os interesses próprios, ou de seus grupos quando estes vão contra essa vontade. Como ensina o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (n. 138), “’É […] uma liberdade dada, que deve ser acolhida como um gérmen e fazer-se amadurecer com responsabilidade’. Caso contrário, morre como liberdade, destrói o homem e a sociedade”.

Por isso, a família deve atentar-se para oferecer aos seus membros uma educação que leve ao exercício livre e responsável da opinião. Ao propagar uma informação, é preciso ter a responsabilidade de conferir sua veracidade, mesmo que a fonte, de início, possa parecer confiável. Expressar seus sentimentos, seus interesses e seus gostos não pode ser pretexto para “esconder” a verdade, distorcê-la ou manipulá-la. Muito menos, ofender pessoas, grupos ou culturas. É preciso ser mais ponte do que pedra.

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