25. Livro de Jó | Paulus Editora

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16/03/2021

25. Livro de Jó

Por Nilo Luza

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O livro de Jó é considerado a obra-prima da literatura sapiencial. É difícil determinar a data e a autoria desse livro. Provavelmente é fruto de diversos autores e escrito ao longo de vários séculos. A redação final se deu por volta do século 4º AC. O autor final se inspirou na narrativa de um conto antigo de um homem paciente e submisso, mas que se rebela contra os amigos, que o acusam de infidelidade.

Podemos distinguir três partes do livro de Jó: 1) O prólogo (1-2): Parte em prosa, apresenta Jó homem feliz, piedoso e rico, repentinamente é atingido por calamidades e perde a saúde, os bens e a família, mas permanece fiel a Deus. Essa introdução revela um “Jó paciente”. 2) O corpo do livro (3,1-42,6): Obra-prima da literatura sapiencial, apresenta um “Jó rebelde”, que não se conforma com suas desgraças. A maior parte descreve diversos discursos em forma de diálogo entre Jó e os “amigos”, que querem convencê-lo de que suas desgraças é castigo de Deus por causa de seus pecados. 3) Epílogo (42,7-17): Deus aparece dialogando com Jó, defendendo-o e censurando os três amigos. Jó recobre novamente a saúde, os bens e os novos filhos. O prólogo e o epílogo formam como que a moldura do livro e as duas partes são escritas em prosa.

O miolo do livro (3,1-42,6) reúne diversos monólogos e discursos de Jó e dos três amigos, Elifaz, Baldad e Sofar. Nesses monólogos, Jó aparece revoltado contra sua situação de desgraça (3) e descreve uma meditação sobre seu passado feliz e o sofrimento presente (29-31). Os capítulos (4-27) trazem os três amigos, tomando a palavra e acusando Jó. São três ciclos de discursos: os amigos condenando e Jó se defendendo. Por fim, intervém um quarto amigo, Eliú (32-37), que confirma as declarações e as acusações dos outros três amigos. No final dessa parte (38,1-42,6), Deus toma a palavra e força Jó ao silêncio. Por sua vez, Jó conclui com a bonita frase referindo-se a Deus: “Eu te conhecia só de ouvido. Mas agora meus olhos te veem”.

O livro de Jó é um questionamento sobre o sofrimento humano e uma contestação da teologia oficial do templo que compreendia Deus como um justiceiro. A tragédia na vida das pessoas e de muitas famílias não pode ser vista como castigo de Deus, pois ele não deseja a desgraça para ninguém. Por outro lado, o sofrimento permitiu a Jó passar da religiosidade tradicional, isto é, da teologia da prosperidade, defendida pelos “amigos”, para uma profunda experiência de fé. Os três amigos, que pretendem defender a Deus, acabam falando mal de Deus; Jó, que criticou Deus o tempo todo, por causa do seu sofrimento, falou corretamente de Deus. Isso significa que a rebeldia de Jó, por causa de sua situação de dor, foi aprovada por Deus, pois este não se alegra com o sofrimento das pessoas.

É comum ver Jó como um homem resignado, paciente. Foi visto como justo, que permaneceu fiel a Deus mesmo diante de provações e perdas. Seus “amigos” queriam convencê-lo de que seu sofrimento é fruto dos seus pecados, isso se chama “teologia da retribuição”, Deus retribui a cada um de acordo com sua conduta. Jó paciente é o assunto do prólogo (1-2), apresentado como homem ideal, moralmente perfeito. Ele perde suas posses; depois, os filhos; por fim, é ferido com chagas. Tudo isso não é consequência de suas infidelidades.

Baseados na mentalidade da época, os “amigos” de Jó procuram provar que saúde, vida longa, honra e descendência são sinais da bênção de Deus; e doença e pobreza são maldições divinas. Diante disso, o movimento dos pobres e doentes reage, mostrando que a situação deles não é desejo de Deus como pregava a religião oficial da época. O livro de Jó contesta essa religião e elabora nova teologia, a partir do pobre e da miséria. A “religião de Javé” nasceu em meio a lutas dos hebreus por liberdade contra a tirania do faraó e dos reis cananeus. Os “amigos” de Jó pensam conhecer a Deus, mas é Jó quem faz a experiência do Deus vivo.

O grito de Jó é o grito de todo ser humano diante da dor, da miséria e da injustiça. No grito de Jó está o grito do pobre que clama por justiça, do justo que procura ser fiel a Deus, do perseguido que procura pautar sua vida pela ética e pela fé.

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