O Domingo – Palavra
A VIDA É LAMPARINA

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A lamparina a querosene iluminava as noites escuras do sertão. Quando o aracati – vento forte de certas regiões do Nordeste – chegava e ameaçava apagá-la, mamãe dizia que, se colocássemos a mão no umbigo, o vento não a apagaria. Nós acreditávamos. Havia dias em que o aracati chegava com força, e a luz da lamparina não resistia, embora não nos esquecêssemos de concentrar a mão no umbigo.

A lamparina é a metáfora da vida. Somos tão frágeis. De vez em quando, precisamos ser lembrados de que nosso tempo por aqui é finito. O termo mais poético talvez seja aquele de Guimarães Rosa: “travessia”. Não se trata, porém, de algo para nos angustiar. É algo para nos ajudar a viver hoje, enquanto podemos remar, na esperança, ao encontro de outras margens.

As virgens do Evangelho, tanto as prudentes quanto as imprudentes, lembram-nos disto: a vigilância para viver o presente, sem perder de vista o horizonte da esperança. O grito no meio da noite, de que fala o Evangelho, tem que ver com as surpresas da vida. A vida sempre nos surpreende. Quando tudo está bem, de repente sobrevém um vendaval, uma doença (recentemente em forma de pandemia), um acidente, a morte.

Pode ser que a mania de grandeza nos distraia. As virgens que esqueceram o azeite talvez estivessem tão eufóricas com a festa de casamento, que esqueceram o item principal: a atenção às coisas simples.

Vigiar é a capacidade de nos encantarmos com as pequenas dádivas do cotidiano. A vida nos presenteia com tanta beleza. Mas a correria, por vezes, tira-nos a possibilidade de apreciar, por exemplo, o canto de um pássaro, de contemplar as estrelas, o nascer e o pôr do sol. Tudo pode parecer tão óbvio, que até esquecemos que respiramos. Como é bom sentir a respiração! Como é maravilhoso, depois de uma noite bem dormida, acordar, abrir os olhos, levantar e ter a chance de um novo dia. Que estupendo poder sentir o cheiro do café ou de outra bebida preferida. Poder saborear a comida. É maravilhoso olhar para os que estão próximos de nós, apreciar seus olhares, os traços dos rostos, o timbre das vozes. Como é bom estar vivo, sentir nosso peito palpitar e todos os nossos órgãos em movimento.

Sim, a vida é lamparina. Colocar a mão no umbigo, para que a luz não se apague, é sentirmo-nos todos irmanados. É também a expressão da confiança total naquele que tudo pode: Deus! Ele nunca nos abandona. Confiemos.

Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp


O Domingo – Palavra

O objetivo deste periódico é celebrar a presença de Deus na caminhada do povo e servir às comunidades eclesiais na preparação e realização da Liturgia da Palavra. Ele contém as leituras litúrgicas de cada domingo, proposta de reflexão, cantos do Hinário litúrgico da CNBB e um artigo que trata da liturgia do dia ou de algum acontecimento eclesial.

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