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Comunicação

14/10/2014

O apartheid à brasileira e o papel da mídia

Por Jakson F. de Alencar

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Apesar de ser um país rico e com um PIB (produto interno bruto) entre os seis maiores do mundo, o Brasil é extremamente injusto no que diz respeito à distribuição de renda:

1% da sua população possui um montante de renda superior à soma da renda dos 50% mais pobres.

Até um passado recente, as desigualdades se aprofundavam sistematicamente a cada ano. Embora, nos últimos anos, essa situação tenha experimentado uma melhora, produzida sobretudo pela diminuição do desemprego, por programas sociais e pela elevação do salário mínimo, o país ainda permanece um dos mais desiguais do mundo.

A elevada desigualdade econômica ativa processos de segregação social que se assemelham ao apartheid, com sinais muito perceptíveis por toda a sociedade: bairros e condomínios ricos separados ou isolados das cidades; bolsões de pobreza em situação de extrema precariedade; lugares onde só circulam ricos ou lugares exclusivos de pobres; escolas e universidades para as classes altas com uma diferença abissal de qualidade em relação à educação oferecida à maioria pobre etc.

Em todos os âmbitos sociais são construídos “mundos” separados.

Nas suas formas mais graves, tal apartheid ocasiona situações de expurgo do outro, nas quais o diferente é eliminado – seja simbólica, seja fisicamente – com muita facilidade. Isso é claramente constatado, por exemplo, na frequência com que se realizam remoções violentas de populações vulneráveis de suas casas e no grande número de pessoas (pobres da periferia, na quase totalidade) mortas pela polícia ou mesmo por civis, moradores de rua e índios queimados por jovens de classe média, entre outras situações.

O apartheid social e o expurgo do outro no Brasil vêm de longe, mas também vêm de perto, de opções políticas, econômicas e sociais da história recente.

Responsabilizar apenas o passado escravocrata e colonialista, como se faz às vezes, é uma maneira de declinar das responsabilidades atuais. Em que pese o fato de as raízes do apartheid e dos expurgos do outro serem profundas, e não criações da mídia, cabe reconhecer que esta se entrelaça com a história de injustiças e enormes desigualdades sociais no país. Como, no Brasil, as riquezas sempre estiveram em poucas mãos e o Estado patrimonialista criou mecanismos para reproduzir, fortalecer e perpetuar essa situação.

A mídia brasileira, ao longo da história, também ficou encerrada em poucas mãos e mantém-se assim, ao lado de leis que garantem a perpetuação da concentração e da posse de concessões públicas em benefício de algumas classes sociais.

Criou-se então um ciclo vicioso em que a mídia, por um lado, ajuda a reforçar a concentração de riqueza e poder, naturalizá-la e legitimá-la, enquanto, por outro, é mantida e controlada pelos detentores de riqueza e poder, evitando vozes divergentes e regulações democráticas para a comunicação.

            A mídia tem um papel significativo com relação a essa problemática social, empreendendo formas de construção de sentido para justificar a desigualdade, reforçá-la, estigmatizar as classes mais desprovidas economicamente ou excluídas. A linguagem não é somente um meio em que palavras designam objetos e estados de coisas no mundo por meio de representações, mas também tem força performativa – as palavras agem sobre a realidade e a moldam. Dizer é fazer. Quando determinado agente, reconhecido publicamente como autorizado para uma ação, efetivamente a realiza, são provocadas mudanças no mundo, ainda mais se esse agente é um meio de comunicação que chega a uma grande audiência.

A mídia não busca somente informar, mas também construir, por meio de várias estratégias comunicativas, mapas cognitivos para seus leitores, orientando-os para a ação e dirigindo suas formas de ler, de interpretar a realidade e se posicionar diante dela.

A cultura da mídia fornece o material com que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia e de raça, de nacionalidade, de sexualidade, de “nós” e “eles”/“outros”. A mídia participa de maneira intensa da construção da visão prevalecente e dos valores ou desvalores mais arraigados.

As múltiplas imagens construídas pela mídia tanto abastecem o imaginário quanto bebem dele, que funciona como catalisador, estimulador e estruturador das práticas sociais. O discurso segregador é construído a partir do lugar de fala das classes A e B, público mais visado, e exprime de maneira considerável aquilo com que a maior parte desse público concorda, em contraposição ao “outro” do qual se tenta diferenciar ou mesmo se afastar simbólica e fisicamente.

1 comentário

13/11/2014

Sergio

Tema palpitante. O partido que está no poder, sobretudo após a condenação de alguns políticos que o lideram, sempre postula o controle da mídia. No fundo, desejam é a censura sobre a imprensa.