
Celebrada em 6 de agosto, a festa da Transfiguração do Senhor ocupa um lugar singular na narrativa dos Evangelhos Sinópticos (cf. Mt 17,1-9; Mc 9,2-10; Lc 9,28-36). Mais do que a revelação de sua identidade, o episódio foi um momento para preparar os discípulos para compreender que a paixão não contradiz sua identidade messiânica, mas constitui o caminho pelo qual sua glória será plenamente manifestada.
Essa perspectiva torna-se evidente pela posição do episódio na narrativa. Nos três Evangelhos Sinópticos, a Transfiguração ocorre imediatamente após a profissão de fé de Pedro e o primeiro anúncio da paixão. A sequência não é acidental. Embora Pedro reconheça Jesus como o Messias, rejeita, porém, a ideia de um Messias sofredor.(cf. Mt 16,21-23). O problema não diz respeito à identidade de Jesus, mas ao modo como sua missão será realizada. É precisamente nesse contexto que Jesus conduz Pedro, Tiago e João ao alto da montanha.
Marcos afirma que Jesus foi metemorphōthē (“transfigurado”) e que suas vestes se tornaram resplandecentes (cf. Mc 9,2-3). A linguagem retoma as grandes teofanias do Antigo Testamento, especialmente as tradições do Sinai e a visão do Filho do Homem em Daniel 7. O esplendor de seu rosto e de suas vestes revela, de modo antecipado, a glória própria do Filho e que permanecerá velada durante a paixão.

A cena torna-se ainda mais significativa com a presença de Moisés e Elias. Neles, a Lei e os Profetas reconhecem em Cristo o seu cumprimento. Lucas acrescenta um detalhe particular sobre o conteúdo do diálogo ao afirmar que falavam com Jesus sobre o seu «êxodo», que se realizaria em Jerusalém (cf. Lc 9,31). A escolha desse termo dificilmente é casual. Ao evocar a libertação do povo de Israel do Egito, o evangelista interpreta a paixão, morte e ressurreição de Jesus como o novo Êxodo, mediante o qual Deus realiza a libertação definitiva da humanidade.
O relato culmina com a voz do Pai que procede da nuvem: «Este é o meu Filho amado, em quem encontro o meu agrado. Ouçam-no.» (cf. Mt 17, 5). Esse imperativo constitui a chave hermenêutica de toda a cena. Diante da dificuldade dos discípulos em aceitar o anúncio da Cruz, o Pai não explica o sofrimento, mas confirma a autoridade daquele que o anuncia.
Assim compreendida, mais do que recordar um acontecimento extraordinário da vida de Jesus, a festa da Transfiguração convida a Igreja a redescobrir o centro da fé cristã: em Cristo, a glória de Deus manifesta-se plenamente no amor que se entrega. A Transfiguração não anuncia uma fuga da Cruz, mas ilumina seu sentido. Ao revelar por um instante a glória do Filho, Deus permite que os discípulos atravessem a prova da paixão sem perder de vista quem é verdadeiramente Jesus.
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