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Comunicação

03/12/2013

Desglobalismo (III): As diferenças não foram e não serão apagadas

Por Jakson F. de Alencar

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Embora muito se tenha imaginado e projetado sobre o fim das diferenças ocasionado pela globalização, as diferentes terriotiralidades e culturas, as imbricações da corporeidade com a cultura, com os ambientes locais e com a comunicação continuam importando. Harry Pross, um importante teórico da mídia alemão, diz que o corpo é a mídia primária, primordial. Segundo ele, toda comunicação humana começa no corpo e termina no corpo. Mesmo que tenhamos um enorme aparato tecnológico de redes que interligam boa parte do mundo e que se possa comunicar por meios de avatares e fluxos eletrônicos que circulam por toda parte, o corpo está presente nos pontos e nós da rede e essa presença marca a comunicação de qualquer maneira em todos as suas dimensões: o emissor, as audiências, as interações, os canais, as mensagens, as decodificações e as resistências e apropriações diferenciadas.

Não somos abstrações vagando no espaço aleatoriamente indiferentes aos locais onde estamos imersos. O dualismo cartesiano entre rex cogintans (realidade psíquica/pensamento) e rex extensa (realidade física/corpo, natureza, ambiente) está implícito nas compreensões de globalização e da comunicação que consideram indiferenciado o corpo ter origem e estar imerso em um determinado local ou em outro, como se isso não marcasse cada célula corporal e seus processos cognitivos e comunicativos.

Mesmo empresas transnacionais muito fortes no processo de expansão mundial dos mercados já perceberam que as diferenças continuam implicando. O McDonald’s serve sanduíches vegetarianos na Índia e sanduíches apimentados no México e há uma enorme variedade em seus cardápios, conforme o país. A única coisa igual é a batata frita e o suco de laranja.

O processo de comunicação mundial que se dá atualmente é ao mesmo tempo processo de potencialização das semelhanças e das diferenças, exposição constante de cada cultura, de cada ancoragem territorial às outras, o que implica um constante exercício de reconhecimento daquilo que constitui a diferença dos outros como enriquecimento potencial da própria cultura, e uma “exigência de respeito àquilo que no outro, em sua diferença, há de instransferível, não transigível e inclusive incomunicável” (Martín-Barbero. In: MORAES. Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 60-61). Comunicar não significa anular o outro, sua concretude diferenciada, sua singularidade, como explícita ou implicitamente se pensava no projeto globalista.

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