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Comunicação

03/11/2013

Desglobalismo (II): A comunicação não se faz apenas de tecnologias

Por Jakson F. de Alencar

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Paradoxalmente, temos um fluxo de informação intenso e acelerado circulando no mundo, desencadeado sobretudo a partir dos países centrais da globalização, com destaque para os Estados Unidos, e uma explosão de diferenças culturais não supressas e de resistências às tendências homogeneizadoras e globalizantes; reações e anticorpos endógenos ou processos identificatórios que tratam de ressaltar o próprio, o diferente (Ruiz-Gimenéz. In: GARRETÓN. America Latina: un espacio cultural en el mundo globalizado. Bogotá: Convenio Andrés Bello, 2002, p. 37).

A abertura ao mundo, a relação e a comunicação com ele não significa apagar toda e qualquer forma de ancoragem territorial. Não é possível habitar no mundo sem corporeidade, o que acontece, na vida cotidiana, em alguma forma de territorialidade. O fato de as populações estarem inseridas em locais diferenciados marca profundamente seus processos comunicacionais. A corporeidade é a base da heterogeneidade humana e da reciprocidade, características fundadoras da comunicação humana, “pois, mesmo atravessado pelas redes do global, o lugar segue feito do tecido das proximidades e das solidariedades.” (Martín-Barbero. In: MORAES. Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 59).

A imersão do corpo em um determinado local, apesar de toda a tecnologia, não pode ser abolida, assim como não há tecnologia que apague as existências de locais e singularidades diferenciadas. Embora se conceba que essa presença em locais diferentes seja hoje facilmente superada pelas tecnologias de comunicação e de transporte, a realidade não confirma isso. Basta que se volte a atenção para as barreiras fronteiriças que se reforçam e as novas que surgem. Por exemplo, o enorme muro erguido para separar a América Latina dos EUA e, além do muro, todos os aparatos tecnológicos em torno dele: que incluem três barreiras de contenção, iluminação de muito alta intensidade, detectores antipessoais de movimento, sensores eletrônicos e equipamentos de visão noturna entrelaçados com radiocomunicações com a polícia de fronteira dos Estados Unidos, bem como vigilância permanente com veículos e helicópteros artilhados. Ou seja, ao invés de se dissolver as fronteiras estão mais sólidas do que nunca. Esse talvez seja o exemplo mais forte do paradoxo da globalização, mas não é isolado, são inúmeros os exemplos que se poderia citar nesse sentido. Como sabemos, não se passa com o corpo de um lado para outro dessas fronteiras de maneira fácil e sem implicações. Um gigantesco muro de fronteira é a negação mais peremptória possível de que não há diferença entre estar de um lado ou de outro. São muitas as implicações políticas, econômicas, culturais e comunicacionais.

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