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Comunicação

09/10/2013

Desglobalismo (I): Desconfiar das “certezas” e lugares comuns

Por Jakson F. de Alencar

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A despeito do discurso sobre o fim da história e seu destino inexorável rumo à globalização, com a dissolução das fronteiras, dos estados-nações, o fim da geografia, o triunfo da informação e da comunicação e, em decorrência, a uniformização cultural em uma aldeia global, assistimos atualmente a uma espécie de “efeito bumerangue”. A globalização, conforme concebida desde há alguns anos, e mais ainda o globalismo (ufanismo e exageros em torno da questão), vem experimentando reversões evidentes. Existem diversos indicativos teóricos e empíricos nesse sentido. A globalização fundou-se, desde o início, no aumento das possibilidades de comunicação. Entretanto, a maneira como a comunicação foi imaginada e desenvolvida nesse processo é o que desencadeia as reversões identificadas.

A enorme quantidade de tecnologias de comunicação satisfaz, aparentemente, todas as demandas. Mas, a comunicação não se reduz às tecnologias. Por detrás desta aparente concordância, surge a heterogeneidade das relações geopolítica-cultura-comunicação. Ainda que o mundo pareça resumir-se ao triunfo da comunicação, se olharmos bem – diz-nos Dominique Wolton (É preciso salvar a comunicação. São Paulo: Paulus, 2006) –, perceberemos a fragilidade desta nos dias de hoje. As facilidades de transmissão de informações e de acesso a elas favorecem o conhecimento, mas não criam forçosamente comunicação, coabitação, intercompreensão, pontos de vista comuns sobre o mundo. A realidade está demonstrando uma complexidade bem maior que os prognósticos em torno do globalismo anunciavam.

Muitos discursos e mesmo teorias sérias em torno da globalização a têm concebido como certeza inabalável. A partir da década de 1990 produziu-se uma “onda” em torno do tema e desde então são muitos os clichês e lugares comuns a respeito. É muito frequente ouvirmos nos mais diferentes ambientes a expressão “no mundo globalizado em que vivemos”. Entretanto há espaço para desconfiar dessas “certezas” e clichês tão propalados que eram quase unânimes. A confrontação com dados concretos atuais nos proporcionam enfáticos questionamentos: 90% dos habitantes do planeta jamais deixaram o país em que nasceram; apenas 2% das ligações telefônicas são internacionais; somente 2% dos estudantes universitários estão em universidades fora de seu país; 95% das pessoas se informam pela mídia do próprio país; apenas 3% da população mundial vive fora das fronteiras de origem; menos de 1% das empresas norte-americanas têm operações fora dos EUA e as exportações mundiais correspondem a apenas 20% do PIB do planeta (cf.: GHEMAWAT. Mundo 3.0. Porto Alegre: Bookman, 2012).

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