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Comunicação

09/02/2015

A atualidade não é à “aldeia global”

Por Jakson F. de Alencar

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Vinicius Pereira, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), autor do livro Estendendo McLuhan – da aldeia à teia global e considerado um dos principais estudiosos do autor no Brasil, em palestra de abertura do Seminário Internacional 100 anos de McLuhan, no Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade de Brasília em novembro de 2011, juntamente com outros autores que compuseram a mesa questionaram o uso do termo “aldeia global” para descrever a realidade atual.

Pereira discorda que a “aldeia global” “já tenha chegado graças à internet” e diz que esta não significa seu advento.

“Para entender o conceito de McLuhan é preciso imaginar uma cidadezinha pequena”, afirma ele. “Nela, a principal forma de comunicação é o boato”. O especialista lembrou como o boato monopoliza o conteúdo das conversas. “Ele só é compreendido se existe uma experiência comum entre os interlocutores”. Ou seja, se eles se conhecem bem. Por exemplo: numa cidadezinha do interior, quando alguém conta uma fofoca sobre o namoro de Mariazinha com Antônio, isso só faz sentido para a população local, que tem relações íntimas com a dupla. Ao contrário de McLuhan, Vinícius defende que a internet diminuiu o número de referências compartilhadas. “Ela criou grupos muito distintos, mas ligados entre si” (pela rede mundial de computadores). O jornalista Francisco Pereira, que também estava entre os espectadores do seminário, em uma intervenção relatou que a “aldeia global” de McLuhan é usada como argumento contra a reserva de 30% da programação televisiva para a produção regional. “O patronato diz que a proposta não faz sentido, visto que já vivemos nessa utopia” (a “aldeia global”), conta Francisco, que é sindicalista e defensor da regulamentação do artigo 221 da constituição – que prevê espaço para a programação local nas redes de televisão.

Também Manuel Castells, afirma sobre a internet, que “em que pese a sua importância, a Internet é tão recente que não sabemos muita coisa sobre ela”. E em situações semelhantes, quando acontecem fenômenos de grande relevância social, cultural, política, econômica, mas ainda se tem um parco nível de conhecimento a respeito, “gera-se todo tipo de mitologias, de atitudes exageradas” (Castells, Internet e sociedade em rede. In: Por uma outra comunicação, p. 256). Ele afirma que evita fazer previsões porque acabam não se realizando, como a que se fazia a respeito do teletrabalho, que segundo algumas previsões substituiria o fato de as pessoas terem de se deslocar para seus locais de trabalho. O que está acontecendo é a possibilidade de escritórios móveis, portáteis, a circulação do indivíduo conectado, mas não o teletrabalho exclusivo. E completa assegurando que prefere trabalhar com dados existentes, os quais costumam apontar para o outro lado “precisamente porque a sociedade se apropria das tecnologias, adaptando-as ao que a própria sociedade faz” (Idem, p 265).

Mesmo com todas as tecnologias de comunicação que surgiram, o mundo e sua complexidade e diversidade, suas distâncias, que não foram extintas, continua diferindo muito da simplicidade de uma aldeia local (Milton Santos. Por uma outra globalização, p. 19). A metáfora reduz o mundo à simplicidade de lugarejo do interior; deixando-se de lado toda a heterogeneidade da cultura, da geografia, dos conflitos e confrontos políticos e econômicos, dos processos comunicacionais que não são linerares, enfim um emaranhado inextricável, da desordem, da ambiguidade, da incerteza e o transforma em um pacato pequeno lugarejo do interior onde tudo possa ser determinado, previsto, controlado, onde todos se conheçam e convivam em comunhão, onde todas as diferenças sejam supressas. Isso de fato não aconteceu no mundo de hoje, não está perto de acontecer, se é que algum dia será possível.

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