
Todos os anos, em 15 de setembro, um dia depois da Exaltação da Santa Cruz, a Igreja Católica celebra a memória de Nossa Senhora das Dores. A liturgia volta seu olhar para Maria junto à Cruz, onde ela permanece ao lado do Filho durante a Paixão. Ela não pode impedir o sofrimento nem mudar o curso dos acontecimentos. Permanece, porém, até o fim.
A cena do Calvário revela uma presença que atravessa a própria experiência humana: estar ao lado de quem sofre quando já não é possível mudar aquilo que acontece. É nessa presença fiel, silenciosa e perseverante que a Igreja contempla Maria como Mãe das Dores.
A devoção a Nossa Senhora das Dores tem suas raízes no final do século XI, quando a espiritualidade cristã começa a voltar especial atenção para Maria junto ao Calvário e para sua participação na Paixão de Cristo. No século XIII, essa devoção ganha uma expressão mais organizada com a fundação, em 1233, da Ordem dos Servos de Maria. Os Servitas fazem das dores de Maria um dos eixos de sua espiritualidade e contribuem decisivamente para a difusão desse culto.
A contemplação das dores de Maria também encontra expressão na oração e na liturgia. O Stabat Mater, tradicionalmente atribuído a Jacopone da Todi, dá forma poética à cena de Maria aos pés da Cruz e contribui para fixar na devoção cristã a imagem da Mãe que permanece junto do Filho. No século XV surgem as primeiras celebrações litúrgicas dedicadas às suas dores. Em 1667, os Servitas recebem autorização para celebrar a Missa votiva das Sete Dores.
A devoção ganha, então, espaço no calendário litúrgico da Igreja universal. Em 1814, Pio VII estende a celebração a toda a Igreja Latina. Em 1911, São Pio X fixa sua celebração em 15 de setembro e substitui o título de «Sete Dores» por «Nossa Senhora das Dores». Ao longo desse percurso, uma devoção cultivada na oração e na espiritualidade dos fiéis passa a integrar de modo estável a vida litúrgica da Igreja.
A tradição cristã contempla as dores de Maria a partir de sete episódios da vida de Jesus, que vão da infância do Filho aos acontecimentos da Paixão.
A primeira dor é a profecia de Simeão. No Templo de Jerusalém, quando Jesus ainda é criança, Simeão anuncia a Maria: «uma espada traspassará a tua alma» (Lc 2,33-35). A segunda está na fuga para o Egito, quando José recebe em sonho a ordem de partir com Maria e o Menino para protegê-lo da perseguição de Herodes (Mt 2,13-15). A terceira é a perda de Jesus no Templo, quando Maria e José passam três dias à sua procura, até encontrá-lo entre os doutores (Lc 2,41-49).
As outras quatro dores estão diretamente ligadas à Paixão: o encontro de Maria com Jesus no caminho do Calvário(Lc 23, 26-27); a crucificação e a morte de Jesus (Jo 19, 25-27); Maria recebe nos braços o corpo do filho morto ( Mc 15,42-45 ); e, por fim, a sétima dor é quando Maria deposita Jesus no sepulcro( Jo, 40-42).
Esses sete episódios acompanham a vida de Maria junto ao Filho e revelam uma fidelidade que permanece mesmo quando a dor se torna cada vez mais profunda.
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Aos pés da Cruz, Maria não pode impedir a Paixão. Não pode deter o sofrimento do Filho nem alterar o que está acontecendo. E, no entanto, permanece. Sua presença silenciosa está no centro da devoção a Nossa Senhora das Dores: ela não explica o sofrimento nem procura justificá-lo; permanece junto daquele que sofre.
Essa presença encontra eco em tantas situações da vida. Há momentos em que não é possível eliminar a dor do outro, mas é possível permanecer ao seu lado. Acompanhar, escutar e não abandonar quem sofre são formas concretas de solidariedade. Maria, aos pés da Cruz, torna visível essa fidelidade. Sua presença mostra que, mesmo quando nada pode ser mudado, permanecer junto de quem sofre tem um valor próprio.
A devoção a Nossa Senhora das Dores continua atual porque Maria, Mãe das Dores, está próxima de experiências que atravessam a existência humana: o luto, a doença, os conflitos, a solidão, os fracassos e as dores interiores. Sua presença junto aos que sofrem encontra uma referência fundamental no Evangelho de João. Aos pés da Cruz, Jesus confia sua Mãe ao discípulo amado e o discípulo à sua Mãe (Jo 19,25-27). A Igreja reconhece nesse gesto a abertura da maternidade de Maria à comunidade dos fiéis e, na fé, a todos os que sofrem.
Nossa Senhora das Dores é, assim, um amparo para o cristão nos momentos de provação, quando a fé é colocada à prova e a esperança parece vacilar. Ao mesmo tempo, sua presença aos pés da Cruz recorda que a dor não deve condenar ninguém à solidão. Contemplar Maria é também aprender a permanecer junto daqueles que sofrem, com compaixão e fidelidade.
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