São Joaquim e Sant’Ana: os avós que prepararam a vinda do Salvador | Paulus Editora

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24/07/2026

São Joaquim e Sant’Ana: os avós que prepararam a vinda do Salvador

Por Jonathan Makila Nsenkey

A cada 26 de julho, a Igreja volta o olhar para duas figuras cujos nomes são familiares aos cristãos, mas cuja história permanece envolta em profundo silêncio : São Joaquim e Sant’Ana. Os Evangelhos nada dizem a seu respeito. Ainda assim, a tradição cristã jamais deixou que sua memória se perdesse.

Esse aparente paradoxo conduz naturalmente a duas perguntas: quem eram São Joaquim e Sant’Ana? Como explicar que duas figuras praticamente ausentes dos relatos bíblicos puderam adquirir tamanha importância na tradição cristã?

São Joaquim e Sant’Ana: uma santidade discreta a serviço do plano de Deus 

Entre as figuras mais cativantes da tradição cristã encontram-se São Joaquim e Sant’Ana, venerados como pais da Bem-aventurada Virgem Maria e avós de Jesus. Há, contudo, um aspecto que sempre chama a atenção: os Evangelhos canônicos  nada dizem a respeito deles.

Esse silêncio das Escrituras, porém, jamais levou a Igreja a esquecer aqueles que, na simplicidade e discrição de sua vida, prepararam, no silêncio, a chegada do Salvador. Desde os primeiros séculos, a memória desse casal foi cuidadosamente preservada, sobretudo por meio dos escritos apócrifos, em especial o Protoevangelho de Tiago, do século II, e o Evangelho do Pseudo-Mateus. Embora esses textos não possuam a autoridade das Escrituras inspiradas, forneceram elementos que exerceram profunda influência sobre a liturgia, a piedade popular, a arte sacra e a iconografia cristã.

Segundo essa tradição, Joaquim descendia da linhagem do rei Davi. Era reconhecido como um homem justo, íntegro e generoso, que repartia seus bens entre os pobres e as ofertas destinadas ao Templo. Ao lado de Ana, sua esposa, levava uma vida marcada pela fé  e  pela oração. Entretanto, ambos conviviam com uma das maiores provações para um casal judeu daquela época: a esterilidade. 

Na cultura judaica daquele tempo, ter filhos era considerado um sinal evidente da bênção divina. Por isso, a ausência de descendência era frequentemente interpretada, de maneira injusta, como uma demonstração de que Deus havia retirado seu favor.  Essa mentalidade fazia com que muitos casais experimentassem, além da dor da infertilidade, o peso da humilhação pública.

É justamente nesse contexto que a tradição situa um dos episódios mais conhecidos da vida de Joaquim. Um dia, ao levar suas ofertas ao Templo, Joaquim foi publicamente humilhado, sob a alegação de que um homem sem descendência não era considerado digno de oferecer um sacrifício agradável a Deus. Profundamente abalado, retirou-se para o deserto, onde permaneceu durante quarenta dias em jejum e oração, enquanto Ana também suplicava ao Senhor com inabalável confiança.

Ainda segundo os relatos transmitidos pela tradição,  Deus respondeu às orações do casal de maneira extraordinária.  Um anjo apareceu separadamente a Joaquim e a Ana para anunciar que ambos se tornaram pais de uma escolhida para uma missão única na história da salvação. Pouco tempo depois nasceu Maria, aquela que viria a ser a Mãe do Verbo Encarnado.

Assim, sem ocupar o centro da história da salvação, Joaquim e Ana desempenharam uma missão decisiva no desígnio divino. Ao acolherem Maria, educá-la e acompanharem o seu amadurecimento humano e espiritual, Joaquim e Ana prepararam discretamente a chegada daquele que mudaria a história da humanidade. 

A devoção a São Joaquim e Sant’Ana consolidou-se gradualmente na vida da Igreja. Seu culto surgiu inicialmente no Oriente, por volta do século VI, chegando ao Ocidente alguns séculos mais tarde. Ao longo da história, suas festas litúrgicas passaram por diferentes datas e reformas. Em 1481, o Papa Sisto IV introduziu a celebração de Sant’Ana no Breviário Romano. Em 1584, o Papa Gregório XIII estendeu essa memória a toda a Igreja. A festa de São Joaquim, por sua vez, foi inserida no Calendário Romano pelo Papa Júlio II, em 1520, para ser celebrada no dia 20 de março.  Sofrendo posteriormente diversas alterações, até que a reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II em 1969, reuniu ambos em uma única celebração, fixada definitivamente em 26 de julho.

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Joaquim e Ana: um testemunho para as famílias de hoje

A história de São Joaquim e Sant’Ana não pertence apenas ao passado. Seu testemunho continua surpreendentemente atual e revela-se particularmente significativo diante de alguns dos desafios mais profundos da sociedade contemporânea: a dificuldade de transmitir valores, preservar a memória familiar e fortalecer os vínculos entre as gerações. 

A atualidade desse testemunho torna-se ainda mais evidente diante de um dos paradoxos mais marcantes da sociedade contemporânea. Em uma época caracterizada pela comunicação instantânea, pela conectividade permanente e pelo acesso praticamente ilimitado à informação, aproximar pessoas nunca pareceu tão fácil. Entretanto, esse extraordinário progresso tecnológico não foi suficiente para fortalecer o diálogo entre as gerações nem para garantir a transmissão da memória, da experiência e dos valores que sustentam a vida familiar. Em muitas famílias, o diálogo entre jovens e idosos parece, muitas vezes, mais frágil do que nunca.

Nesse contexto, os idosos frequentemente experimentam uma realidade difícil: a solidão. Sua experiência é pouco solicitada, seus conselhos nem sempre são valorizados. Sua voz, por vezes, é considerada ultrapassada. No entanto, uma sociedade que deixa de ouvir seus idosos corre o risco de romper com a própria história. É como uma árvore que, ao desprezar suas raízes, compromete a própria capacidade de permanecer de pé.

É justamente aqui que o testemunho de Joaquim e Ana revela toda a sua atualidade. Os avós não transmitem apenas recordações do passado. Transmitem uma forma de compreender a existência. Em sua trajetória acumulam-se alegrias e sofrimentos, vitórias e fracassos, esperanças e recomeços. Trata-se de uma sabedoria construída ao longo da vida, que nenhuma tecnologia é capaz de gerar e que nenhuma inteligência artificial poderá substituir.

Por isso, a missão dos avós vai muito além do cuidado cotidiano com os netos. Eles são guardiões da memória familiar e testemunhas vivas da história que deu origem às novas gerações. Recordam aos mais jovens que o futuro não se constrói apagando o passado, mas compreendendo-o, valorizando-o e integrando-o à construção do futuro.

Talvez seja esse o maior legado deixado pelos avós de Jesus. Eles mostram que as raízes nunca impedem o crescimento; ao contrário, são elas que sustentam toda árvore capaz de produzir bons frutos. Da mesma forma, uma família que preserva sua memória, cultiva o diálogo entre as gerações e transmite seus valores constrói bases sólidas para o futuro.

Hoje, como ontem, a memória dos avós de Jesus continua convidando famílias do mundo inteiro a redescobrir o valor da convivência, da transmissão da fé e da responsabilidade compartilhada entre as gerações. Em tempos de mudanças rápidas e de relações cada vez mais frágeis, Joaquim e Ana recordam uma verdade que permanece atual: o futuro de uma sociedade depende, em grande parte, da capacidade de honrar sua história e cuidar de suas raízes.

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