Francisco de Assis e o Ano Jubilar Franciscano: Quando o passado interpela o presente | Paulus Editora

Notícias

23/04/2026

Francisco de Assis e o Ano Jubilar Franciscano: Quando o passado interpela o presente

Por Jonathan Makila Nsenkey

À medida que o mundo oscila entre conflitos persistentes, crise ecológica e uma busca quase obsessiva pelo sucesso material, uma figura do século XIII ressurge com uma força surpreendente: São Francisco de Assis. Oito séculos após a sua morte, a sua mensagem não parece ter envelhecido nem sido superada. Muito pelo contrário, apresenta-se ainda hoje como uma resposta urgente aos desequilíbrios do nosso tempo.

É nesse espírito que a Igreja, por meio da Penitenciaria Apostólica e com a aprovação do Papa Leão XIV, proclamou o Ano Jubilar Franciscano, por ocasião do oitavo centenário da morte de São Francisco de Assis (03 de outubro de 1226 – 04 de outubro de 2026). Prevista de 10 de janeiro de 2026 a 10 de janeiro de 2027, esta iniciativa assume uma ambição explícita: que “todo fiel cristão, à semelhança de São Francisco de Assis, se torne ele mesmo um modelo de santidade de vida e uma testemunha constante da paz”.

Da riqueza à pobreza radical: uma ruptura fundadora


Nascido em 1181, em uma família abastada, Francisco levou inicialmente uma vida confortável. Filho de um rico comerciante, tinha acesso a tudo o que, aos olhos humanos, parece essencial: dinheiro, festas, reconhecimento social, entre outros. No entanto, por trás dessa aparente plenitude, começa a surgir uma inquietação interior. Progressivamente, impõe-se nele um desejo mais profundo: louvar a Deus e servi-Lo entre os seus irmãos e irmãs, especialmente os mais pobres. Uma vocação que exige, como condição fundamental, o renunciamento (cf. Mateus 19,21; Lucas 14,33).

São Francisco de Assis aceita, então, renunciar aos seus bens (roupas luxuosas, entre outros) e abdicar de todos os privilégios sociais ligados à sua condição de filho de um rico comerciante, escolhendo viver em uma pobreza radical. Esse gesto, no seu tempo, provocou um verdadeiro choque social. Ainda hoje, assim como ontem, em uma sociedade onde o sucesso material se impõe como horizonte último da existência humana, tal atitude incomoda, questiona e até escandaliza. No entanto, é precisamente nessa radicalidade que reside a força do testemunho de Francisco de Assis. O seu renunciamento não constitui uma condenação da riqueza em si, mas um alerta contra os seus excessos. Ele revela que a dependência dos bens pode transformar-se numa forma de escravidão silenciosa, numa idolatria que altera a relação entre o homem e o seu Criador.

Descubra a profundeza da  biografia de São Francisco de Assis com o livro O Francisco que está em você.

O respeito pela criação: Francisco, um profeta para o nosso século
Embora o termo “ecologia” não fizesse parte do vocabulário de Francisco, ele já encarnou plenamente o seu espírito. Para ele, a natureza não era um simples reservatório de recursos, mas uma realidade viva, digna de respeito, assim como o ser humano. É por isso que chamava o sol de “irmão”, a lua de “irmã” e dirigia-se aos animais. Via em cada criatura uma manifestação da beleza divina.

Hoje, em um contexto em que o meio ambiente se degrada a um ritmo alarmante, essa visão adquire uma nova relevância. Não se trata apenas de proteger a natureza, mas de transformar o  olhar sobre ela. Na encíclica Laudato si, o Papa Francisco destaca a necessidade de uma “conversão ecológica” (Papa Francisco, Laudato si: sobre o cuidado da casa comum, PAULUS Editora, 2019, n. 216-221). Conversão porque a crise ecológica é, antes de tudo, uma crise interior: a de um ser humano que esqueceu que faz parte de um todo, de um sistema cujo equilíbrio condiciona a sua própria existência.

Assista ao PAULUSCast: Jubileu Franciscano

Torna-se imitador de São Francisco, lendo “Nos passos de São Francisco de Assis”

Paz universal: uma mensagem central relançada pelo Vaticano
Para São Francisco, a paz não se limitava à ausência de guerra. Tratava-se de um estado profundo: paz com Deus, com os outros e com a criação. Essa visão integral da paz constitui hoje um dos eixos centrais do Jubileu Franciscano.

Francisco não se limitou a pregar a paz: ele a viveu, inclusive nos contextos mais tensos. Teve a coragem de encontrar os seus adversários em tempos de guerra, privilegiando o diálogo em vez do confronto. Em um mundo marcado por divisões sociais, violências e incompreensões, esse testemunho adquire uma ressonância particular.

Diante do cenário preocupante do mundo atual, onde as tensões são constantes, divisões sociais, violências, incompreensões, a mensagem do Vaticano propõe uma outra lógica: a do encontro, do diálogo e do respeito. Um caminho que exige, antes de tudo, uma transformação interior, visto que a paz começa no coração do homem antes de se estender à sociedade. Nessa perspectiva, a paz não é uma utopia, mas uma responsabilidade.

A indulgência plenária: um caminho de conversão
O Ano Jubilar Franciscano ultrapassa amplamente o simples caráter comemorativo. Insere-se na tradição da Igreja como um tempo de graça, de perdão e de renovação espiritual.

Os fiéis são convidados a realizar gestos concretos: confissão sacramental, comunhão eucarística, oração pelas intenções do Santo Padre e peregrinação. Trata-se de práticas que expressam uma verdadeira vontade de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com Deus , bem como um compromisso real de mudança de vida.

A indulgência plenária, sinal do perdão total concedido àquele que se compromete sinceramente, estende-se também aos idosos, aos doentes e àqueles que os acompanham, assim como a todos os que, por motivos graves, não podem sair de casa. Contudo, isso exige o desapego de todo pecado e a união espiritual às celebrações jubilares do Ano de São Francisco, oferecendo a Deus misericordioso as suas orações, dores e sofrimentos.

Assim, por meio deste Ano Jubilar, a Igreja dirige um apelo universal: convida o ser humano a fazer uma pausa, a suspender o ritmo acelerado da vida, a questionar as suas escolhas e a reorientar o seu caminho. O jubileu torna-se, assim, um espaço de recomposição  interior e coletiva  no qual o legado de São Francisco de Assis não se limita a ser recordado, mas se apresenta como uma chave essencial para compreender e transformar o presente.