O Domingo – Palavra
10 de novembro: 32º domingo do Tempo Comum

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QUANDO RESSUSCITAMOS

Nossa vida é feita de passagens. Tudo é passageiro, sabemos disso. Como diria Heráclito, o filósofo pré-socrático: “Para os que entram nos mesmos rios, afluem sempre outras águas”. Ou de outra forma: “No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos”. Ou ainda: “Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio”. Essas frases são densas de sentido e apontam para a percepção de que todas as coisas estão em constante movimento. Tudo passa. Nós também passamos.

A palavra travessia se aplica melhor a essa condição de passagem. Não se trata, porém, de algo para nos angustiar. Ao contrário, a travessia tem a marca da esperança, uma vez que nos levaria àquela “terceira margem do rio”, como no conto de Guimarães Rosa.

Um texto que remonta ao primeiro século da era cristã, Carta a Diogneto, dá notícia desse sentimento de travessia muito presente já na mentalidade dos primeiros cristãos, que, em meio às perseguições, experimentavam situações de muito sofrimento, mas não desistiam da fé. Segundo o texto, os cristãos “vivem na sua pátria, mas como se fossem forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é sua pátria, e cada pátria é para eles estrangeira”. Isso aponta para o horizonte da esperança, a pátria definitiva: o céu.

A concepção de que tudo é passageiro não exime, no entanto, a responsabilidade cristã pelo presente. O céu é realidade que começa agora, nas contradições da história, e se plenifica quando da nossa passagem definitiva desta vida. Trata-se de mistério que nos envolve, e, para além dos discursos e palavras, o céu acontece quando nos sentimos felizes com a felicidade dos outros.

Por isso, ressuscitamos todos os dias quando acordamos para a vida e, cheios de gratidão, alimentamos em nosso coração sentimentos e atitudes de respeito, de tolerância e, sobretudo, de amor ao próximo. Se, contudo, por vezes a sensação de fracasso nos invadir, podemos fazer como aquele jovem em crise que, em plena madrugada de sábado de aleluia, tendo a lua cheia sobre seus olhos, colocou o rosto na vidraça gelada da janela. Por um instante, cara a cara com a lua cheia da Páscoa, parecia tocar o céu. Então, pediu a Deus: “Ressuscita-me também!”

Pe. Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp


O Domingo – Palavra

O objetivo deste periódico é celebrar a presença de Deus na caminhada do povo e servir às comunidades eclesiais na preparação e realização da Liturgia da Palavra. Ele contém as leituras litúrgicas de cada domingo, proposta de reflexão, cantos do Hinário litúrgico da CNBB e um artigo que trata da liturgia do dia ou de algum acontecimento eclesial.

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