A Solenidade de Todos os Santos: o mistério da comunhão dos santos

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30/10/2026

A Solenidade de Todos os Santos: o mistério da santidade e a comunhão dos santos

Por Jonathan Makila Nsenkey

Ao longo dos séculos, inúmeros homens e mulheres testemunharam a santidade de Deus por meio de sua vida e de sua fidelidade ao Evangelho. Alguns santos são conhecidos de todos e recebem veneração especial; uma multidão de outros, porém, permanece sem nome, conhecida apenas por Deus. É a todos eles que a Igreja presta homenagem na Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro. 

Essa celebração coletiva provoca algumas perguntas: como a festa de todos os santos se consolidou na tradição da Igreja? O que significa, afinal, a santidade na fé cristã, para além das imagens que normalmente lhe são associadas? Para compreender a profundidade dessa solenidade, convém, antes de tudo, conhecer as origens históricas de sua instituição.

Nas origens de Todos os Santos: história e significado

A história de Todos os Santos é a de um alargamento progressivo, do culto aos mártires à celebração de todos os santos. Suas raízes remontam ao século IV, quando comunidades cristãs do Oriente começaram a celebrar conjuntamente a memória dos mártires. O número crescente daqueles que haviam testemunhado a fé até o martírio tornava cada vez mais difícil reservar um dia específico para cada um. Em Antioquia, essa celebração acontecia no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, data que a Igreja bizantina conserva até hoje para comemorar todos os santos.

A celebração chegou posteriormente ao Ocidente. Em Roma, seus primeiros desdobramentos remontam ao início do século VII, quando o papa Bonifácio IV obteve do imperador Focas o antigo Panteão, templo dedicado às divindades pagãs, e o consagrou, por volta dos anos 609-610, à Virgem Maria e a todos os mártires. O edifício muda de significado: o templo de todos os deuses, onde se adoravam ídolos, passa a abrigar a memória dos que deram a vida por Cristo. Cerca de um século depois, o papa Gregório III (731-741) retomou e ampliou essa iniciativa, dedicando, na Basílica de São Pedro, um oratório a todos os santos e associando sua comemoração ao dia 1º de novembro. Posteriormente, o papa Gregório IV (827-844) estendeu essa celebração a toda a Igreja latina.

A passagem da comemoração dos mártires à celebração de todos os santos expressa uma convicção profunda da Igreja:  a santidade não depende de fama e não cabe na lista dos nomes oficiais. É a “multidão imensa, que ninguém podia contar”, vista pelo autor do Apocalipse (Ap 7,9). Nela estão os santos que a Igreja reconheceu e, em número muito maior, aqueles que viveram a fidelidade longe dos olhos do mundo. A bondade escondida de uma mãe, a perseverança de um doente, o perdão silencioso de quem foi ferido. Ninguém viu, mas Deus guardou tudo, e eles partilham agora da sua glória. Mas o que significa,exatamente, essa palavra que a Igreja aplica a uma multidão exatamente, essa palavra que a Igreja aplica a uma multidão?

A santidade na Bíblia e na tradição da Igreja 

O sentido bíblico do termo santo, se illuma a partir da palavra hebraica qādôsh, tradicionalmente associada à ideia de separação ou consagração: é santo o que foi posto à parte, consagrado a Deus. Na tradição de Israel, essa separação diz respeito, em primeiro lugar, ao que é reservado ao culto: o Templo, o sábado, as oferendas. Mas essas realidades só são santas por pertencerem àquele que é a fonte e  fundamento de toda santidade: Deus.

Essa santidade divina manifesta-se de maneira singular na visão do profeta Isaías. No Templo, ele contempla o Senhor sentado em seu trono, enquanto os serafins proclamam uns aos outros: Qāḏôš, Qāḏôš, Qāḏôš, YHWH ṣəḇāʾôṯ; məlōʾ ḵol-hāʾāreṣ kəḇōḏô: «Santo, Santo, Santo é javé dos Exércitos; A sua glória enche toda a terra » (Is 6,1-3). Na tradição hebraica, a repetição de um termo constitui um recurso de intensificação. Sua tripla proclamação (o Trisagion), exprime o superlativo absoluto e significa, aqui, a plenitude da santidade divina.

Diante de tamanha santidade, que resta ao homem senão medir a própria indignidade e a distância que o separa de Deus? O próprio Isaías, ofuscado por essa glória, desfalece e exclama: “Ai de mim, estou perdido!” (Is 6,5).

Entretanto, esse Deus três vezes santo não quer que o homem permaneça prostrado diante de sua santidade, nem que ela continue sendo um abismo. Do alto de sua glória, ele se inclina para o seu povo e lhe faz dom de sua santidade. Aquilo que pertencia plenamente e somente a Deus, se abre à toda humanidade. Essa abertura se realiza em Cristo: por ele, a santidade de Deus é dada à Igreja (Ef 5,25-26; Catecismo da Igreja Católica, n. 823), e cada fiel a recebe na água do Compreendida nessa perspectiva, a santidade não transforma os santos em seres alheios à condição humana. Eles são homens e mulheres batizados nos quais a graça divina encontrou acolhida e produziu frutos.

Para quem quer ir além dos nomes do calendário, Um santo para cada dia conta a história de quem a Igreja celebra ao longo do ano, disponível no catálogo da Paulus Editora.

A santidade: vocação de todos os batizados

Dignos de veneração, os santos não são propostos aos fiéis para suscitar uma admiração estéril, mas para despertar em cada cristão o desejo de de seguir a Cristo, na medida de suas possibilidades e onde quer que se encontre. O quinto capítulo da Lumen gentium afirma que a santidade não é privilégio exclusivo de nenhuma categoria de pessoas, seja uma elite espiritual, sejam os padres ou os religiosos: todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade, na diversidade dos estados de vida, das responsabilidades e das circunstâncias pessoais. Não existem duas santidades, uma para alguns e outra para os demais: há apenas uma, vivida de modos diferentes segundo cada vocação, na vida do bispo, do sacerdote, dos esposos, dos trabalhadores ou daqueles que enfrentam a enfermidade e o sofrimento.

A intercessão dos santos

Além de serem modelos para a vida cristã, os santos são invocados pela Igreja como intercessores. Essa prática, contudo, suscita uma questão recorrente, tanto entre os fiéis quanto entre aqueles que não professam a fé católica: se Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5-6), qual é, então, a importância da intercessão dos santos na oração cristã?

Em fidelidade às Sagradas Escrituras, a Igreja afirma constantemente que Jesus Cristo é o único Mediador. Essa mediação se apoia no mistério da Encarnação e na obra redentora com que o Filho de Deus reconcilia a humanidade com o Pai. Nenhuma criatura, nenhum santo pode ocupar o lugar dessa mediação ou correr em paralelo a ela, como lembra o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 62). Reconhecer a unicidade da mediação de Cristo, entretanto, não significa excluir a possibilidade da intercessão.

As sagradas Escrituras apresentam, de fato, a oração de uns pelos outros como parte essencial da vida cristã (cf. 1Tm 2,1-4; Tg 5,16). O próprio São Paulo, que proclama a mediação única de Cristo, solicita reiteradamente às comunidades cristãs que rezem por ele e por sua missão (Rm 15,30-32; 1Ts 5,25; 2Ts 3,1). Não há contradição. Que o Mediador seja um só não elimina a intercessão entre irmãos, e a oração de um cristão por outro não compete com a ação de Cristo. Pelo Batismo, os fiéis são incorporados a um único Corpo, no qual cada membro é chamado a apresentar a Deus as alegrias, as dificuldades e as esperanças de seus irmãos e irmãs.

Essa comunhão não se interrompe com a morte, pois todos os que pertencem a Cristo, vivos ou falecidos, vivem unidos a ele (Rm 14,8-9). A Igreja denomina comunhão dos santos essa profunda unidade que ultrapassa os limites da existência terrena. Aqueles que já alcançaram a plenitude da vida junto de Deus permanecem unidos à Igreja e intercedem por aqueles que ainda peregrinam neste mundo (Lumen gentium, n. 49; Catecismo da Igreja Católica, n. 956).

Essa comunhão não termina nas fronteiras da morte, pois os que pertencem a Cristo, mortos ou vivos, vivem nele (Rm 14,8-9). A Igreja chama de comunhão dos santos essa solidariedade que a morte não rompe.Os santos, que já alcançaram a plenitude da vida junto de Deus, continuam unidos à Igreja e intercedem por aqueles que ainda peregrinam sobre a terra (Lumen gentium, 49; CIC 956).

Assim, pedir a intercessão de um santo significa reconhecer e aprofundar os laços dessa comunhão que une todos os membros do Corpo de Cristo. É a mesma solidariedade espiritual que leva os cristãos, ainda peregrinos na terra, a confiar uns aos outros suas intenções de oração, agora vivida também com aqueles que já contemplam a glória de Deus.

 

Para viver essa comunhão no cotidiano, o kit Café com os Santos + Café com Nossa Senhora, da Paulus, reúne reflexões e orações para começar cada dia na companhia dos santos e da Mãe de Deus. Disponível na Paulus.