
Ao longo dos séculos, inúmeros homens e mulheres testemunharam a santidade de Deus por meio de sua vida e de sua fidelidade ao Evangelho. Alguns santos são conhecidos de todos e recebem veneração especial; uma multidão de outros, porém, permanece sem nome, conhecida apenas por Deus. É a todos eles que a Igreja presta homenagem na Solenidade de Todos os Santos, celebrada em 1º de novembro.
Essa celebração coletiva provoca algumas perguntas: como a festa de todos os santos se consolidou na tradição da Igreja? O que significa, afinal, a santidade na fé cristã, para além das imagens que normalmente lhe são associadas? Para compreender a profundidade dessa solenidade, convém, antes de tudo, conhecer as origens históricas de sua instituição.
A história de Todos os Santos é a de um alargamento progressivo, do culto aos mártires à celebração de todos os santos. Suas raízes remontam ao século IV, quando comunidades cristãs do Oriente começaram a celebrar conjuntamente a memória dos mártires. O número crescente daqueles que haviam testemunhado a fé até o martírio tornava cada vez mais difícil reservar um dia específico para cada um. Em Antioquia, essa celebração acontecia no domingo seguinte à solenidade de Pentecostes, data que a Igreja bizantina conserva até hoje para comemorar todos os santos.
A celebração chegou posteriormente ao Ocidente. Em Roma, seus primeiros desdobramentos remontam ao início do século VII, quando o papa Bonifácio IV obteve do imperador Focas o antigo Panteão, templo dedicado às divindades pagãs, e o consagrou, por volta dos anos 609-610, à Virgem Maria e a todos os mártires. O edifício muda de significado: o templo de todos os deuses, onde se adoravam ídolos, passa a abrigar a memória dos que deram a vida por Cristo. Cerca de um século depois, o papa Gregório III (731-741) retomou e ampliou essa iniciativa, dedicando, na Basílica de São Pedro, um oratório a todos os santos e associando sua comemoração ao dia 1º de novembro. Posteriormente, o papa Gregório IV (827-844) estendeu essa celebração a toda a Igreja latina.
A passagem da comemoração dos mártires à celebração de todos os santos expressa uma convicção profunda da Igreja: a santidade não depende de fama e não cabe na lista dos nomes oficiais. É a “multidão imensa, que ninguém podia contar”, vista pelo autor do Apocalipse (Ap 7,9). Nela estão os santos que a Igreja reconheceu e, em número muito maior, aqueles que viveram a fidelidade longe dos olhos do mundo. A bondade escondida de uma mãe, a perseverança de um doente, o perdão silencioso de quem foi ferido. Ninguém viu, mas Deus guardou tudo, e eles partilham agora da sua glória. Mas o que significa,exatamente, essa palavra que a Igreja aplica a uma multidão exatamente, essa palavra que a Igreja aplica a uma multidão?
O sentido bíblico do termo santo, se illuma a partir da palavra hebraica qādôsh, tradicionalmente associada à ideia de separação ou consagração: é santo o que foi posto à parte, consagrado a Deus. Na tradição de Israel, essa separação diz respeito, em primeiro lugar, ao que é reservado ao culto: o Templo, o sábado, as oferendas. Mas essas realidades só são santas por pertencerem àquele que é a fonte e fundamento de toda santidade: Deus.
Essa santidade divina manifesta-se de maneira singular na visão do profeta Isaías. No Templo, ele contempla o Senhor sentado em seu trono, enquanto os serafins proclamam uns aos outros: Qāḏôš, Qāḏôš, Qāḏôš, YHWH ṣəḇāʾôṯ; məlōʾ ḵol-hāʾāreṣ kəḇōḏô: «Santo, Santo, Santo é javé dos Exércitos; A sua glória enche toda a terra » (Is 6,1-3). Na tradição hebraica, a repetição de um termo constitui um recurso de intensificação. Sua tripla proclamação (o Trisagion), exprime o superlativo absoluto e significa, aqui, a plenitude da santidade divina.
Diante de tamanha santidade, que resta ao homem senão medir a própria indignidade e a distância que o separa de Deus? O próprio Isaías, ofuscado por essa glória, desfalece e exclama: “Ai de mim, estou perdido!” (Is 6,5).
Entretanto, esse Deus três vezes santo não quer que o homem permaneça prostrado diante de sua santidade, nem que ela continue sendo um abismo. Do alto de sua glória, ele se inclina para o seu povo e lhe faz dom de sua santidade. Aquilo que pertencia plenamente e somente a Deus, se abre à toda humanidade. Essa abertura se realiza em Cristo: por ele, a santidade de Deus é dada à Igreja (Ef 5,25-26; Catecismo da Igreja Católica, n. 823), e cada fiel a recebe na água do Compreendida nessa perspectiva, a santidade não transforma os santos em seres alheios à condição humana. Eles são homens e mulheres batizados nos quais a graça divina encontrou acolhida e produziu frutos.
Para quem quer ir além dos nomes do calendário, Um santo para cada dia conta a história de quem a Igreja celebra ao longo do ano, disponível no catálogo da Paulus Editora.

Dignos de veneração, os santos não são propostos aos fiéis para suscitar uma admiração estéril, mas para despertar em cada cristão o desejo de de seguir a Cristo, na medida de suas possibilidades e onde quer que se encontre. O quinto capítulo da Lumen gentium afirma que a santidade não é privilégio exclusivo de nenhuma categoria de pessoas, seja uma elite espiritual, sejam os padres ou os religiosos: todos os batizados são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade, na diversidade dos estados de vida, das responsabilidades e das circunstâncias pessoais. Não existem duas santidades, uma para alguns e outra para os demais: há apenas uma, vivida de modos diferentes segundo cada vocação, na vida do bispo, do sacerdote, dos esposos, dos trabalhadores ou daqueles que enfrentam a enfermidade e o sofrimento.
Além de serem modelos para a vida cristã, os santos são invocados pela Igreja como intercessores. Essa prática, contudo, suscita uma questão recorrente, tanto entre os fiéis quanto entre aqueles que não professam a fé católica: se Cristo é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2,5-6), qual é, então, a importância da intercessão dos santos na oração cristã?
Em fidelidade às Sagradas Escrituras, a Igreja afirma constantemente que Jesus Cristo é o único Mediador. Essa mediação se apoia no mistério da Encarnação e na obra redentora com que o Filho de Deus reconcilia a humanidade com o Pai. Nenhuma criatura, nenhum santo pode ocupar o lugar dessa mediação ou correr em paralelo a ela, como lembra o Concílio Vaticano II (Lumen gentium, 62). Reconhecer a unicidade da mediação de Cristo, entretanto, não significa excluir a possibilidade da intercessão.
As sagradas Escrituras apresentam, de fato, a oração de uns pelos outros como parte essencial da vida cristã (cf. 1Tm 2,1-4; Tg 5,16). O próprio São Paulo, que proclama a mediação única de Cristo, solicita reiteradamente às comunidades cristãs que rezem por ele e por sua missão (Rm 15,30-32; 1Ts 5,25; 2Ts 3,1). Não há contradição. Que o Mediador seja um só não elimina a intercessão entre irmãos, e a oração de um cristão por outro não compete com a ação de Cristo. Pelo Batismo, os fiéis são incorporados a um único Corpo, no qual cada membro é chamado a apresentar a Deus as alegrias, as dificuldades e as esperanças de seus irmãos e irmãs.
Essa comunhão não se interrompe com a morte, pois todos os que pertencem a Cristo, vivos ou falecidos, vivem unidos a ele (Rm 14,8-9). A Igreja denomina comunhão dos santos essa profunda unidade que ultrapassa os limites da existência terrena. Aqueles que já alcançaram a plenitude da vida junto de Deus permanecem unidos à Igreja e intercedem por aqueles que ainda peregrinam neste mundo (Lumen gentium, n. 49; Catecismo da Igreja Católica, n. 956).
Essa comunhão não termina nas fronteiras da morte, pois os que pertencem a Cristo, mortos ou vivos, vivem nele (Rm 14,8-9). A Igreja chama de comunhão dos santos essa solidariedade que a morte não rompe.Os santos, que já alcançaram a plenitude da vida junto de Deus, continuam unidos à Igreja e intercedem por aqueles que ainda peregrinam sobre a terra (Lumen gentium, 49; CIC 956).
Assim, pedir a intercessão de um santo significa reconhecer e aprofundar os laços dessa comunhão que une todos os membros do Corpo de Cristo. É a mesma solidariedade espiritual que leva os cristãos, ainda peregrinos na terra, a confiar uns aos outros suas intenções de oração, agora vivida também com aqueles que já contemplam a glória de Deus.
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