
O pontificado de São Pio X (1903-1914) situa-se em um período de profundas transformações na sociedade europeia e na vida da Igreja. O avanço da secularização, o desenvolvimento das ciências históricas e naturais, a renovação dos estudos bíblicos e as novas correntes filosóficas colocavam a fé cristã diante de questões que exigiam respostas teológicas e pastorais. Nesse contexto, o pontificado de Pio X foi orientado por uma convicção fundamental: a renovação da Igreja não deveria consistir simplesmente em sua adaptação às mudanças culturais, mas em um retorno ao centro da fé, que é Cristo, fonte e princípio de sua missão.
De Giuseppe Sarto a Pio X
Giuseppe Melchiorre Sarto nasceu em 2 de junho de 1835, em Riese, na província de Treviso, em uma família de origem modesta. Ordenado sacerdote em 1858, foi nomeado bispo de Mântua em 1884 e, em 1893, patriarca de Veneza e cardeal.
Após esse percurso no ministério pastoral, foi eleito papa em 4 de agosto de 1903, adotando o nome de Pio X. Seu pontificado durou onze anos. Pio X morreu em Roma em 20 de agosto de 1914, poucos dias após o início da Primeira Guerra Mundial. Foi beatificado por Pio XII em 1951 e canonizado pelo mesmo pontífice em 29 de maio de 1954.
“Instaurare omnia in Christo”: o eixo de seu pontificado
A expressão paulina Instaurare omnia in Christo — “recapitular todas as coisas em Cristo”, escolhida como lema de seu pontificado, resume bem seu projeto para a Igreja: a Igreja deveria reencontrar em Cristo o princípio de sua unidade, de sua renovação e de sua missão.
Essa orientação já se manifesta na primeira encíclica do pontificado de Pio X, “E supremi apostolatus”, publicada em 4 de outubro de 1903. O documento apresenta o afastamento de Deus e o enfraquecimento da verdade cristã como elementos centrais da crise de seu tempo, marcada pelo secularismo, pela perda das referências religiosas e por profundas transformações sociais. Diante desse cenário, o papa atribui à Igreja a missão de reconduzir a humanidade a Cristo e de contribuir para a renovação da vida cristã. Para isso, considera indispensável uma sólida instrução religiosa dos fiéis e uma resposta adequada aos erros que ameaçavam a fé. É nesse horizonte que Pio X publica, em 15 de abril de 1905, a encíclica Acerbo nimis, dedicada à importância do ensino da doutrina cristã. Nela, destaca o dever primordial dos sacerdotes de instruir os fiéis e estabelece orientações concretas para a catequese, entre as quais a realização regular do ensino do catecismo para crianças e jovens aos domingos e nos dias festivos.
Essa preocupação com a formação cristã dos fiéis encontrou continuidade no campo litúrgico, considerado por Pio X como outro espaço fundamental de renovação da vida da Igreja. Em 1903, o motu proprio Tra le sollecitudini procurou restabelecer a função própria da música sacra no culto, valorizando especialmente o canto gregoriano. A reforma buscava integrar a música à ação litúrgica e favorecer uma participação mais autêntica dos fiéis. Essa orientação estendeu-se também à vida eucarística: em 1905, o decreto Sacra Tridentina Synodus promoveu a comunhão frequente, enquanto, em 1910, Quam singulari facilitou o acesso das crianças à primeira comunhão, estabelecendo o uso da razão e uma formação cristã básica como critérios fundamentais.
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Fé, doutrina e os desafios intelectuais de seu tempo
A dimensão doutrinal do pontificado de Pio X esteve diretamente ligada às novas correntes intelectuais que, no início do século XX, buscavam reinterpretar a fé cristã à luz do pensamento moderno. Nesse contexto, ganhou força o chamado modernismo, que reunia diferentes tendências de interpretação do cristianismo influenciadas pela filosofia, pela crítica histórica e pelas novas ciências. Foi diante dessas correntes que Pio X intensificou sua defesa da doutrina católica e da autoridade do ensinamento da Igreja.
Foi nesse contexto que Pio X procurou estabelecer uma resposta doutrinal mais firme às correntes que considerava incompatíveis com a fé católica. Essa posição foi sistematizada na encíclica Pascendi dominici gregis, de 1907, na qual analisou criticamente o modernismo e denunciou, entre outros aspectos, a redução da fé à experiência religiosa subjetiva e o questionamento do caráter objetivo da revelação. No mesmo contexto, o decreto Lamentabili sane exitu condenou diversas proposições consideradas incompatíveis com a doutrina católica.
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