A Inteligência Artificial (IA) já não é mais coisa de filme ou ficção científica. Ela faz parte do dia a dia de trabalho de inúmeros profissionais, nas mais diversas áreas. Mas como essa tecnologia pode ser empregada em uma profissão cuja matéria-prima são histórias humanas?
No trabalho jornalístico, em toda a sua pluralidade, a IA também já integra as técnicas utilizadas. Seja para pesquisas, edição de textos, análise de dados ou monitoramento de tendências, a tecnologia vem sendo incorporada às rotinas das redações. A questão que se impõe, porém, não é apenas como usar a inteligência artificial, mas até que ponto ela deve ocupar espaço em uma atividade que lida com subjetividade, ética e responsabilidade social.
Grandes veículos de comunicação internacionais já utilizam sistemas automatizados para produzir conteúdos baseados em dados, como resultados financeiros, esportivos e relatórios estatísticos. Nesses casos, a IA se mostra eficiente, rápida e precisa. Ela organiza informações em segundos e libera o jornalista para tarefas mais analíticas e investigativas.
Mas o jornalismo não é apenas técnica. É escuta, sensibilidade e contexto. Nenhum algoritmo vivenciou o mundo como um ser humano. Nenhuma máquina compreende plenamente a complexidade moral envolvida em publicar ou não determinada informação.
Há ainda um desafio que ultrapassa a produtividade: a credibilidade. Em um cenário já marcado pela desinformação, a proliferação de conteúdos gerados automaticamente pode intensificar ruídos e enfraquecer a confiança do público. Se a IA pode auxiliar na apuração, também pode ser usada para criar conteúdos enganosos com aparência de legitimidade. O mesmo instrumento que ajuda a informar pode, se mal utilizado, contribuir para confundir.
Por isso, o debate não deve ser reduzido a uma disputa entre homem e máquina. A inteligência artificial não substitui o jornalista, mas pode transformar profundamente sua função. O profissional que ignora a tecnologia corre o risco de se tornar obsoleto; aquele que a utiliza sem senso crítico pode comprometer a essência da profissão.
O ponto central está na mediação humana. A IA deve ser ferramenta, não autora; apoio, não consciência. O jornalista continua sendo o responsável pela verificação, pela contextualização e pelas escolhas editoriais. É ele quem responde eticamente pelo que é publicado.
Na obra Modo de Existência Algorítmico – Da Verdade como Imagem à Imagem como Verdade, de Eli Borges Junior, os algoritmos são analisados sob uma perspectiva que ultrapassa o senso comum. Ao contrário do que muitos estudos sugerem ao descrevê-los como meros instrumentos políticos ou mídias de influência, cujos supostos poderes muitas vezes não são demonstrados de forma consistente, o autor os define como um “modo de existência”, uma condição do agir, do habitar e da vida contemporânea.
Nessa perspectiva, os algoritmos não são apenas ferramentas técnicas, mas uma forma de habitar o mundo. Eles alteram nossa maneira de ver, de sentir e de interpretar a realidade, moldando o agir e o ambiente simbólico.
Ao relacionar a verdade à imagem e a imagem à verdade, Borges Junior provoca uma reflexão essencial para o jornalismo: em um contexto mediado por sistemas algorítmicos, como preservar o compromisso com a verdade sem se deixar capturar pela lógica da visibilidade, da performance e do engajamento?
Essa é, talvez, uma das grandes questões deste tempo.