Magnifica Humanitas: primeira encíclica de Leão XIV debate IA, ética e dignidade humana

Notícias

25/05/2026

Magnifica Humanitas: primeira encíclica de Leão XIV debate IA, ética e dignidade humana

Por Jenniffer Silva

Em sua primeira encíclica, Leão XIV alerta para a responsabilidade ética quanto ao uso da Inteligência Artificial

Foi publicada na manhã desta segunda-feira, 25, a primeira encíclica do papa Papa Leão XIV, intitulada Magnifica Humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial”.

A data escolhida para a assinatura do texto remete ao 135º aniversário da promulgação da Rerum Novarum, publicada pelo papa Leão XIII em 15 de maio de 1891.

Dividida em cinco capítulos, a encíclica aborda os seguintes temas: Fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja; A grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA; Salvaguardar o humano na transformação: verdade, trabalho e liberdade; A cultura do poder e a civilização do amor; e Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho.

“Não tenho a intenção de apresentar aqui um tratado sobre a inteligência artificial, nem revisitar uma bibliografia já vastíssima, pois existem contributos autorizados, também no âmbito eclesial, aos quais é possível fazer referência. Limito-me a recordar alguns elementos essenciais para um discernimento moral e social que salvaguarde o primado da pessoa, para que seja sempre a inteligência humana, com a sua consciência e liberdade, a orientar as inovações técnicas e a estabelecer, com responsabilidade, o seu uso e os seus limites”, expressou o Santo Padre.

Como Leão XIV relaciona Inteligência Artificial e dignidade humana

Ao longo da encíclica, o papa Leão XIV recorda o mais recente Jubileu Ordinário, celebrado em 2025, reafirmando que, como “peregrinos da esperança”, fomos cumulados de graças. “Fortalecidos por estes dons, podemos avançar com ânimo confiante diante das árduas tarefas e dos exigentes desafios que se apresentam no nosso futuro.”

Nesse contexto, o Santo Padre afirma que, na era da Inteligência Artificial, a dignidade humana “corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização”.

“Temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir em seu esplendor. O verdadeiro progresso nasce sempre de um coração aberto ao outro, de uma inteligência disponível para ouvir, de uma vontade que procura mais o que une do que o que separa”, escreveu o papa.

Segundo Leão XIV, para que a Inteligência Artificial respeite a dignidade humana e promova o bem comum, “é essencial que as responsabilidades sejam claras em todas as etapas: desde quem concebe e treina os sistemas até quem os utiliza e decide confiar-lhes escolhas concretas”. O pontífice observa, ainda, que muitos processos internos das tecnologias de IA permanecem pouco transparentes, dificultando a atribuição de responsabilidades e a correção de erros.

O que a Doutrina Social da Igreja diz sobre Inteligência Artificial

Ao refletir sobre o uso da Inteligência Artificial à luz da Doutrina Social da Igreja (DSI), Leão XIV destaca que um dos princípios centrais desse conjunto de ensinamentos é, justamente, a promoção da justiça social.

Conforme escreve o papa, essa justiça deve garantir a todos um “acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público”.

“Magnífica e, ainda assim, ferida, a humanidade não deve ser substituída nem superada. A tecnologia pode aliviar seus sofrimentos e abrir novas possibilidades, mas não deve negar aquilo que lhe é próprio: a capacidade de relação e de amor. Diante da IA, a verdadeira alternativa não está entre o entusiasmo e o medo, mas entre duas formas de construir o progresso: a serviço da pessoa e dos povos ou das lógicas do poder.”

LEIA A MAGNIFICA HUMANITAS NA ÍNTEGRA

O que é uma encíclica papal?

A encíclica é um dos documentos mais importantes do magistério da Igreja Católica. Escrita pelo Papa, ela aborda temas doutrinais, sociais, pastorais ou disciplinares e é dirigida aos bispos de todo o mundo e, por meio deles, a todos os fiéis.

Historicamente, sua origem remonta às cartas trocadas entre os bispos para fortalecer a unidade da fé e da vida eclesial. Atualmente, as encíclicas também se tornaram referências importantes para debates sociais, éticos e culturais que impactam a sociedade contemporânea.

2 livros sobre evangelização e tecnologia para você se aprofundar

Por que Leão XIV relaciona a IA à encíclica Rerum Novarum

A escolha da data para o lançamento da encíclica também carrega forte simbolismo. O anúncio coincide com o aniversário da Rerum Novarum, publicada pelo papa Leão XIII no contexto da Revolução Industrial para refletir sobre as condições de trabalho dos operários.

A conexão entre os dois documentos evidencia como a Igreja procura responder, em diferentes épocas, às profundas transformações culturais, sociais e tecnológicas da humanidade.