São Francisco de Assis: quem foi e o que sua vida ensina

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04/10/2026

São Francisco de Assis: quem foi e o que sua vida ensina

Por Jonathan Makila Nsenkey

Todos os anos, em 4 de outubro, a Igreja Católica celebra a memória de São Francisco de Assis, o Poverello, cuja figura continua a ser relida oito séculos depois de sua morte. O nome do santo evoca quase imediatamente a pobreza, a paz, a fraternidade e o cuidado com a criação. Mas, por trás dessas imagens familiares, há um itinerário de conversão marcado por rupturas, encontros e escolhas. Da juventude confortável ao despojamento, do encontro com o leproso ao chamado diante do Crucifixo, Francisco foi descobrindo progressivamente o que significava viver o Evangelho.

 A juventude em ruptura

Nascido por volta de 1181, em Assis, filho de Pedro Bernardone, Francisco cresceu no conforto de uma família de comerciantes. Sua juventude dourada, dividida entre festas e sonhos cavaleirescos, nada deixava pressagiar do asceta que viria a ser. A guerra contra a Perúgia, em 1202, interrompeu esse percurso. Feito prisioneiro, passou quase um ano no cativeiro e retornou a Assis com a saúde fragilizada. Essa provação, seguida de um período de reflexão interior, foi o afastando aos poucos das ambições que até então haviam guiado sua vida.

 Sua mudança, porém, seria gradual. Nesse período de inquietação interior aconteceu um encontro que marcaria profundamente sua conversão.

O abraço ao leproso

Francisco nutria, conta-se, uma profunda repulsa por esses doentes (os leprosos), relegados às margens da cidade. Certo dia, a cavalo e sozinho, deparou-se com um deles, e tomado de nojo, sua primeira reação foi de rejeição: recuou. Mas algo o deteve. Desceu do cavalo, aproximou-se do homem de quem fugia um instante antes, pôs uma esmola em sua mão deformada e o abraçou. O gesto não nasceu de nenhuma ternura espontânea: foi a vitória sobre uma aversão visceral.  

No Testamento, Francisco recordaria esse momento dizendo que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformou em doçura. O gesto tornou-se um sinal de sua conversão: não bastava abandonar uma vida confortável; era preciso aprender a aproximar-se daqueles que antes provocavam medo ou rejeição.

Essa transformação preparou o caminho para uma pergunta maior: o que Deus queria fazer de sua vida?

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A voz do Crucifixo

Na pequena igreja de São Damião, diante do Crucifixo, Francisco ouviu, segundo os relatos de seus primeiros biógrafos, uma voz que lhe dizia: “Francisco, vai e restaura a minha Igreja, que como vês, está em ruína”. Inicialmente, compreendeu a ordem literalmente e começou a restaurar igrejas em ruínas.

Essa compreensão o levou a uma ruptura sem retorno. Aos vinte e cinco anos, Francisco despojou-se de tudo o que herdara: a fortuna paterna, o prestígio de uma casa abastada, o futuro traçado de antemão. Em troca, escolheu por esposa aquela que chamaria Senhora Pobreza, não como privação suportada, mas como liberdade sem amarras, voltada por inteiro ao Evangelho. Peregrino pelas estradas, servidor dos mais pequenos, passou a viver sem nada reter. Assim, o apelo ouvido em São Damião deixava de ser eco distante para se fazer carne numa existência. 

Quer caminhar com Francisco além das imagens conhecidas? Nos Passos de São Francisco de Assis propõe trinta meditações para percorrer em um mês o itinerário de quem voltou ao Evangelho da pobreza, da fraternidade e da paz.

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O nascimento da fraternidade

Outros homens, tocados por seu modo de vida, começaram a se unir a Francisco. Em 1209, essa fraternidade nascente recebe a aprovação do papa Inocêncio III, dando início ao desenvolvimento da Ordem dos Frades Menores. Sua regra, na forma definitiva que lhe daria a bula de 1223, distingue-se por uma sobriedade radical: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade. Os frades não se concebem como uma elite separada do mundo: vão ao encontro das pessoas, pregam, servem os pobres e partilham a condição do povo. O próprio nome, «menores», exprime essa opção pela pequenez.

O Cântico das Criaturas

Por volta de 1225, já doente e quase cego, Francisco compôs o Cântico das Criaturas. Nele, louva a Deus através do «irmão Sol», da «irmã Lua», do «irmão Vento» e da «irmã nossa mãe Terra».

Não se trata de um naturalismo sentimental: as criaturas remetem à bondade de seu Autor, e o mundo é acolhido como dom, não tomado como propriedade. A fraternidade franciscana parte, assim, de Cristo e se alarga aos pobres, aos doentes, aos excluídos e, por fim, a toda a criação.

O encontro com o sultão

Durante a Quinta Cruzada, Francisco atravessou o campo adversário e encontrou o sultão do Egito, Al-Malik al-Kamil, nas proximidades de Damieta. Em plena guerra entre cristãos e muçulmanos, aproximou-se sem armas e disposto ao diálogo. Séculos depois, Bento XVI o recordaria como referência para o diálogo e a compreensão entre diferentes tradições religiosas.

Francisco mostrava, assim, que a fraternidade não se limitava aos que lhe eram próximos. O Evangelho o levava também ao encontro daquele que, em seu contexto histórico, poderia ser visto como adversário.

Uma herança viva

Falecido em 3 de outubro de 1226, Francisco foi canonizado já em 16 de julho de 1228, por Gregório IX. Mais de oito séculos depois, continua sendo uma referência maior da tradição cristã, e sua influência vai muito além da imagem do santo cercado de passarinhos. Sua herança toca questões que não perderam a atualidade: a pobreza, a fraternidade, a paz, a relação com os mais frágeis, o cuidado com a criação.

Ao escolher o nome Francisco em 2013, Jorge Mario Bergoglio colocou o Poverello no centro do seu pontificado. A referência encontra sua expressão maior na encíclica Laudato si’ (2015), que retoma o Cântico das Criaturas e apresenta Francisco como uma figura capaz de inspirar uma relação mais justa com a «casa comum». A atualidade do santo não se limita à ecologia: Bento XVI o considerava uma referência para quem busca a paz e o diálogo entre religiões e culturas, e o Encontro de Assis pela paz, iniciado por João Paulo II em 1986, se inscreve nessa mesma linhagem.

Francisco nunca elaborou uma teoria abstrata da fraternidade. Ele a experimentou na concretude dos gestos: aproximar-se do leproso, renunciar ao que aprisiona, acolher o irmão, servir os pobres, perdoar, cantar a bondade de Deus por meio de suas criaturas. Talvez esteja aí a força duradoura de seu testemunho: a transformação do mundo passa também por uma conversão do olhar, que aprende a ver de outro modo aquilo que se evita, aquilo que se possui e aquilo que se dá por certo. 

Francisco de Assis não pertence apenas ao passado: seu Evangelho vivido continua a interpelar cada coração. O Francisco que Está em Você convida a reconhecer, na vida cotidiana, o santo que cada um é chamado a ser.

 

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