{"id":44246,"date":"2019-02-02T08:00:56","date_gmt":"2019-02-02T10:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=44246"},"modified":"2019-01-30T08:22:21","modified_gmt":"2019-01-30T10:22:21","slug":"para-bento-xvi-o-que-e-a-teologia-uma-introducao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/para-bento-xvi-o-que-e-a-teologia-uma-introducao\/","title":{"rendered":"Para Bento XVI, o que \u00e9 a teologia? Uma Introdu\u00e7\u00e3o."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">O mundo contempor\u00e2neo est\u00e1 tomado pela discuss\u00e3o acerca do conhecimento v\u00e1lido, comprov\u00e1vel. Nele ainda h\u00e1 lugar para a Teologia?\u00a0 Quem l\u00ea com aten\u00e7\u00e3o a \u00faltima entrevista de Bento XVI ao jornalista alem\u00e3o Peter Seewald \u2013 <em>Letzte Gespr\u00e4che<\/em> \u2013 v\u00ea que, pela primeira vez na hist\u00f3ria um papa (em\u00e9rito) avalia o pr\u00f3prio pontificado. Repassando mais uma vez a hist\u00f3ria de sua vida, diante do leitor aparecem os nomes mais significativos da teologia europeia do s\u00e9culo XX: Guardini, De Lubac, Balthasar, Dani\u00e8lou, Schmaus, dentre muitos outros. O te\u00f3logo Ratzinger viveu sempre intensamente mergulhado no mundo da \u201cci\u00eancia de Deus\u201d, por assim dizer. Seus amigos, seus interlocutores, suas refer\u00eancias, al\u00e9m do n\u00facleo familiar, que ele recorda com afeto evidente, s\u00e3o sobretudo importantes te\u00f3logos. Ele mesmo diz a Seewald que, embora tenha sempre buscado ser um pastor, nunca deixou de ser um professor, o implica \u201cser um professante, um <em>confessor<\/em>. Os termos <em>professor <\/em>e <em>confessor<\/em>, filologicamente, significam mais ou menos o mesmo, sendo que a miss\u00e3o est\u00e1 naturalmente mais pr\u00f3xima da de <em>confessor<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Ou seja, Bento XVI sempre quis, enquanto professor, dar a centralidade ao ato de professar a f\u00e9. Por isso quando Seewald lhe pergunta qual a marca principal do seu pontificado, responde coerentemente que fora precisamente o <em>Ano da F\u00e9<\/em> (11 de outubro de 2012 \u2013 24 de novembro de 2013, encerrado, portanto, pelo Papa Francisco). Com ele Bento XVI desejava \u201creencontrar a centralidade da f\u00e9\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Seu pontificado estava, portanto, orientado pela \u201cinten\u00e7\u00e3o positiva de colocar no centro o tema \u2018Deus e F\u00e9\u2019\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, colocando igualmente em evid\u00eancia a Sagrada Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja.\u00a0 Suas viagens refletiram precisamente este tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na mesma entrevista \u2013 da qual partem estas nossas reflex\u00f5es \u2013 ele recorda o seu primeiro semestre como professor na Universidade de Bonn (1959-1963), no se dedicou tanto \u00e0 tem\u00e1tica da filosofia da religi\u00e3o quanto do <em>conceito de teologia<\/em>. As perguntas que lhe orientaram eram as seguintes: \u201ccomo justificar a teologia? O que \u00e9 que ela tem de fazer? O que \u00e9 por assim dizer o seu of\u00edcio, a sua justifica\u00e7\u00e3o interior? [\u2026] como se pode, afinal, justificar a teologia na universidade? Tem cabimento na nossa universidade moderna? Ou \u00e9 um corpo estranho que, pelas suas origens medievais, por acaso estagnou e, na realidade, n\u00e3o deveria estar presente na universidade?\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante notar que o tema da Revela\u00e7\u00e3o, da Escritura e da Tradi\u00e7\u00e3o \u2013 que est\u00e3o particularmente na Constitui\u00e7\u00e3o Conciliar <em>Dei Verbum<\/em>, sobre a qual Ratzinger trabalhou intensamente durante o Conc\u00edlio \u2013 e o da teologia enquanto ci\u00eancia figuram entre os temas que lhe s\u00e3o mais caros e aos quais quereria ter se dedicado mais<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Ora, o tema em tela est\u00e1, portanto, no centro das preocupa\u00e7\u00f5es intelectuais de Ratzinger.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num texto de 1979, Ratzinger se concentra em tr\u00eas teses que explicitam o seu conceito de teologia<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Tratar-se-\u00e1 de cada uma delas pormenorizadamente. A primeira tese \u00e9 que <em>a teologia se refere a Deus. <\/em>Ele \u00e9 o <em>objeto da teologia<\/em>. Aqui ele se distancia decididamente da concep\u00e7\u00e3o medieval baseada no <em>Liber Sententiarum <\/em>de Pedro Lombardo, que se apoia em Santo Agostinho, que defendia que a teologia tem como objetos <em>res et signa<\/em>, doutrina das coisas e dos signos\/sinais<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. Neste ponto espec\u00edfico Ratzinger parte de Tom\u00e1s de Aquino, mostrando assim um pouco de sua face tomista. Assim, Ratzinger se posiciona frente \u00e0 controv\u00e9rsia teol\u00f3gica do s\u00e9culo XIII entre duas escolas: a tomista, para a qual a teologia era <em>scientia speculativa <\/em>e a franciscana, para qual esta era <em>scientia practica. <\/em>Na vis\u00e3o de Ratzinger esta controv\u00e9rsia reemerge no debate p\u00f3s-Vaticano II entre ortodoxia e ortopr\u00e1xis. Onde esta concep\u00e7\u00e3o se radicalizou n\u00e3o se concebe mais uma verdade anterior \u00e0 pr\u00e1xis; a verdade seria produzida pela pr\u00e1xis correta. A teologia, para Ratzinger, seria reduzida a uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o; refletindo sobre a pr\u00e1xis a teologia abriria para ela novas possibilidades. A teologia reduzida \u00e0 <em>scientia practica <\/em>desemboca na perda de verdade<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Aqui Ratzinger se apoia no axioma de Romano Guardini, que defendia o <em>primado do logos sobre o ethos<\/em>, do <em>primado do logos sobre a pr\u00e1xis<\/em><a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><em><strong>[9]<\/strong><\/em><\/a>, ou seja, este \u00faltimo adotava tamb\u00e9m ele a vis\u00e3o tomista da teologia como <em>scientia speculativa<\/em><a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><em><strong>[10]<\/strong><\/em><\/a><em>.<\/em> O cristocentrismo deveria superar a si mesmo e fazer poss\u00edvel, por meio da hist\u00f3ria de Deus, o encontro entre o homem e Deus. Na linha tamb\u00e9m de Irineu de Li\u00e3o, o pai da teologia propriamente dito, Ratzinger defende que a cristologia \u00e9 falseada quando n\u00e3o chega a ser <em>teo\u00ad-logia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim \u00e9 que Ratzinger aponta para a segunda tese: <em>a teologia se ocupa de Deus, mas de acordo com o m\u00e9todo filos\u00f3fico<\/em><a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Para ser fiel a seu ponto de partida hist\u00f3rico \u2013 o evento salv\u00edfico que est\u00e1 em Cristo \u2013 deve superar a hist\u00f3ria e dedicar-se a Deus. A fidelidade \u00e0 pr\u00e1xis evang\u00e9lica depende de sua autocompreens\u00e3o como <em>scientia speculativa<\/em>. Aqui Ratzinger defende o <em>primado da verdade<\/em>, antes de qualquer pondera\u00e7\u00e3o sobre a sua utilidade pr\u00e1tica.\u00a0 Neste contexto fica clara a forte influ\u00eancia guardiniana e a tomista.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Ratzinger n\u00e3o deixaria Boaventura de fora, que compartilha a vis\u00e3o tomista do objeto da teologia ser Deus mesmo. Boaventura teria adotado em uma segunda \u00e9poca de seu pensamento uma concep\u00e7\u00e3o presente j\u00e1 em Arist\u00f3teles e, depois, no Pseudo-Dion\u00edsio: teologia \u00e9 o discurso divino em palavras humanas, enquanto teol\u00f3gica \u00e9 a reflex\u00e3o humana sobre as palavras divinas. Neste caso a verdadeira teologia seria a Sagrada Escritura. Nesse sentido Deus \u00e9 tamb\u00e9m o <em>sujeito <\/em>fundamental da teologia. Mas o falar de Deus n\u00e3o est\u00e1 desvinculado do falar dos homens. Assim os <em>theologoi <\/em>s\u00e3o aqueles pelos quais o falar de Deus entra na hist\u00f3ria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A terceira e \u00faltima tese ratzingeriana \u00e9 aquela que diz: <em>a teologia \u00e9 ci\u00eancia espiritual <\/em>(sobretudo pelo fato que os te\u00f3logos normativos s\u00e3o precisamente os autores da Sagrada Escritura)<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Mas o enfoque ratzingeriano com esta terceira tese \u00e9 de que a produ\u00e7\u00e3o da teologia exige determinado contexto vital. Para ele \u00e9 poss\u00edvel estudar teologia como qualquer outro conhecimento transmiss\u00edvel e ex\u00f3tico, dentro do ambiente universit\u00e1rio. Mas sem as realiza\u00e7\u00f5es espirituais nas quais vive a teologia ela se cairia logo em contradi\u00e7\u00e3o, em est\u00e9ril neutralismo acad\u00eamico.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> BENTO XVI; SEEWALD, Peter. <strong>Conversas finais com Peter Seewald.<\/strong> Alfragide (Portugal): Ed D. Quixote, 2016, p. 266.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 262.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 220.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 132.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cf. <em>Ibid.<\/em>, p. 265.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a>\u00a0 RATZINGER, Joseph. <strong>Teor\u00eda de los Principios Teol\u00f3gicos:<\/strong> Materiales para una teolog\u00eda fundamental. Barcelona: Herder, 1985.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 380-381.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 383-384.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 388.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 384.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Cf. <em>Ibid.<\/em>, p. 380.385.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Cf. <em>ibid<\/em>.<em>, <\/em>p. 385.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> <em>Ibid.<\/em>, p. 387.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mundo contempor\u00e2neo est\u00e1 tomado pela discuss\u00e3o acerca do conhecimento v\u00e1lido, comprov\u00e1vel. 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