{"id":43201,"date":"2018-12-04T04:28:42","date_gmt":"2018-12-04T06:28:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=43201"},"modified":"2018-10-04T04:35:34","modified_gmt":"2018-10-04T07:35:34","slug":"a-leitura-e-a-interpretacao-eclesial-da-sagrada-escritura-de-bento-xvi-parte-iii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/a-leitura-e-a-interpretacao-eclesial-da-sagrada-escritura-de-bento-xvi-parte-iii\/","title":{"rendered":"A Leitura e a Interpreta\u00e7\u00e3o Eclesial da Sagrada Escritura de Bento XVI (parte III)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Somente com a aproxima\u00e7\u00e3o da Escritura que foi explorada na parte II \u2013que vai muito al\u00e9m de um interesse puramente hist\u00f3rico e quase arqueol\u00f3gico \u2013 \u00e9 que se capta o verdadeiro sentido da \u201cPalavra de Deus, que \u00e9 Cristo em pessoa\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Para compreender tal \u201ccristologia da Palavra\u201d se pode recorrer \u00e0 riqu\u00edssima Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica P\u00f3s-Sinodal <em>Verbum Domini<\/em><a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><em>O casamento entre m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico e o m\u00e9todo teol\u00f3gico<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Recordando o S\u00ednodo, do qual nasceu a Exorta\u00e7\u00e3o, Bento XVI oferece uma \u201cf\u00f3rmula\u201d, por assim dizer, referente ao modo correto de se apropriar da Palavra de Deus: \u201cUm aspecto sobre o qual muito se refletiu foi a rela\u00e7\u00e3o entre a Palavra e as palavras, ou seja, entre o Verbo divino e as escrituras que o exprimem. Como ensina o Conc\u00edlio Vaticano II na Constitui\u00e7\u00e3o\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html\"><em>Dei Verbum<\/em><\/a>\u00a0(n. 12), uma boa exegese b\u00edblica exige quer o m\u00e9todo hist\u00f3rico-cr\u00edtico quer o teol\u00f3gico, porque a Sagrada Escritura \u00e9 Palavra de Deus em palavras humanas. Isto exige que cada texto deva ser lido e interpretado tendo presentes a unidade de toda a Escritura, a tradi\u00e7\u00e3o viva da Igreja e a luz da f\u00e9. Se \u00e9 verdade que a B\u00edblia \u00e9 tamb\u00e9m uma obra liter\u00e1ria, ali\u00e1s, o grande c\u00f3digo da cultura universal, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que ela n\u00e3o deve ser despojada do elemento divino, mas deve ser lida com o mesmo esp\u00edrito no qual foi composta. Exegese cient\u00edfica e\u00a0<em>lectio divina<\/em>\u00a0s\u00e3o portanto ambas necess\u00e1rias e complementares para receber, atrav\u00e9s do significado literal, o espiritual, que Deus nos quer comunicar hoje\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Em outras palavras, ler de forma realmente cat\u00f3lica a B\u00edblia exige ci\u00eancia e ora\u00e7\u00e3o; m\u00e9todo cient\u00edfico de um lado e <em>lectio<\/em>, a <em>meditatio<\/em>, <em>a oratio <\/em>e a <em>contemplativo <\/em>de outro<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. O cientista n\u00e3o deve dispensar o genuflex\u00f3rio, do mesmo modo que o orante n\u00e3o deve rejeitar a escrivaninha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim \u00e9 que Bento XVI pede uma verdadeira exegese teol\u00f3gica:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA nossa exegese fez grandes progressos; sabemos deveras mui\u00adto sobre o desenvolvimento dos textos, sobre a subdivis\u00e3o das fontes, etc., sabemos qual o significado que pode ter tido a palavra naquela \u00e9poca&#8230; Mas vemos tamb\u00e9m cada vez mais que a exegese hist\u00f3rico-cr\u00edtica, se permanecer apenas hist\u00f3rico-cr\u00edtica, remete a palavra para o passado, torna-a uma palavra daquele tempo, uma palavra que, no fundo, n\u00e3o nos diz nada; e vemos que a palavra se reduz a fragmentos porque, precisamente, se desfaz em tantas fontes diversas. O Conc\u00edlio, a <em>Dei Verbum, <\/em>disse-nos que o m\u00e9todo hist\u00f3rico\u00ad-cr\u00edtico \u00e9 uma dimens\u00e3o essencial da exegese, porque pertence \u00e0 natureza da f\u00e9 a partir do momento que ela \u00e9 <em>factum historicum.\u00a0<\/em>N\u00e3o cremos simplesmente numa ideia; o cristia\u00adnismo n\u00e3o \u00e9 uma filosofia, mas um acontecimento que Deus colocou neste mundo, \u00e9 uma hist\u00f3ria que Ele formou de modo real e forma como hist\u00f3ria juntamente conosco. Por isso, na nossa leitura da B\u00edblia o aspecto hist\u00f3rico deve verdadeiramente estar presente na sua seriedade e exig\u00eancia: devemos efetivamente reconhecer o acontecimento e, precisamente, \u2018fazer hist\u00f3ria\u2019 por Deus no seu agir. Mas a <em>Dei Verbum <\/em>acrescenta que a Escritura que, por conseguinte, deve ser lida segundo os m\u00e9todos hist\u00f3ricos, deve ser lida tamb\u00e9m como unidade e deve ser lida na comunidade vivente da Igreja. Faltam estas duas dimens\u00f5es em grandes setores da exegese. A unidade da Escritura n\u00e3o \u00e9 um fato meramente hist\u00f3rico\u00ad-cr\u00edtico, mesmo se o conjunto, tamb\u00e9m sob o ponto de vista hist\u00f3rico, \u00e9 um processo interior da Palavra que, lida e compreendida sempre de novo durante sucessivas <em>releituras<\/em>, continua a maturar. Mas esta unidade \u00e9, em definitiva, precisamente, um fato teol\u00f3gico: estes escritos s\u00e3o uma \u00fanica Escritura, s\u00f3 compreens\u00edveis profundamente se forem lidos na <em>analogia fidei <\/em>como unidade na qual h\u00e1 um progresso para Cristo e, inversamente, Cristo atrai para si toda a hist\u00f3ria; e se, por outro lado, isto tiver a sua vitalidade na f\u00e9 da Igreja. Por outras palavras, \u00e9 meu grande desejo que os te\u00f3logos aprendam a ler e a amar a Escri\u00adtura do modo como, segundo a <em>Dei Verbum<\/em>, o Conc\u00edlio quis: que vejam a unidade interior da Escritura uma coisa hoje ajudada pela \u2018exegese can\u00f4nica\u2019 (que sem d\u00favida ainda se encontra num t\u00edmido est\u00e1gio inicial) e que depois fa\u00e7amos dela uma leitura espiritual, que n\u00e3o \u00e9 algo exterior, de car\u00e1cter edificante, mas ao contr\u00e1rio, um imergir-se interiormente na presen\u00e7a da Palavra\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. \u00c9 assim que nasce igualmente uma homilia digna, adequada.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se os pregadores tiverem no\u00e7\u00e3o dessa unidade dos Testamentos ser\u00e1 mais f\u00e1cil introduzir os fi\u00e9is nas liga\u00e7\u00f5es que existem as leituras de ambos os testamentos colocadas \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o na liturgia. Ver\u00e3o que os Profetas (Primeira Leitura) e o Ap\u00f3stolo (Segunda Leitura) falam de Cristo (Evangelho) e conduzem a Ele, conforme a compreens\u00e3o da Igreja antiga. E ver\u00e3o ainda que esta Palavra \u00e9 verdadeiramente atual, pois fala n\u00e3o uma hist\u00f3ria passada, mas antes de uma <em>hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o<\/em>, na qual estamos inseridos.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Id., <em>Angelus<\/em>, 25 de outubro de 2008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Cf. nn. 11-13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Id., <em>Angelus<\/em>, 25 de outubro de 2008.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> A <em>Verbum Domini <\/em>se refere muitas vezes \u00e0 <em>lectio divina<\/em>, sobretudo nos nn. 86-87.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Id., Discurso no encontro com os bispos da Su\u00ed\u00e7a, 7 de novembro de 2006. Cf., na mesma linha o Discurso \u00e0 Comunidade do Pontif\u00edcio Instituto B\u00edblico no centen\u00e1rio da Funda\u00e7\u00e3o, 26 de outubro de 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Somente com a aproxima\u00e7\u00e3o da Escritura que foi explorada na parte II \u2013que vai muito al\u00e9m de um interesse puramente hist\u00f3rico e quase arqueol\u00f3gico \u2013 \u00e9 que se capta o verdadeiro sentido da \u201cPalavra de Deus, que \u00e9 Cristo em pessoa\u201d[1]. 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