{"id":37117,"date":"2017-09-14T00:05:47","date_gmt":"2017-09-14T03:05:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=37117"},"modified":"2017-09-14T14:22:32","modified_gmt":"2017-09-14T17:22:32","slug":"transmitir-a-fe-num-mundo-plural","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/transmitir-a-fe-num-mundo-plural\/","title":{"rendered":"Transmitir a f\u00e9 num mundo plural"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">No grande are\u00f3pago do mundo, a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o tem mais exclusividade. N\u00e3o \u00e9 mais a \u00fanica voz proferida dos p\u00falpitos, nem a grande reguladora do <em>ethos<\/em> da sociedade p\u00f3s-moderna. Vozes diversas ressoam ao mesmo tempo, cada qual anunciando seus or\u00e1culos, mostrando seus caminhos, fazendo seus apelos ao cora\u00e7\u00e3o humano. Diante de tanta diversidade, como transmitir a f\u00e9 crist\u00e3? Faz sentido ainda continuar anunciando o evangelho de Jesus Cristo se toda religi\u00e3o ou profiss\u00e3o de f\u00e9 deve ser reconhecida na sua legitimidade? O que fazer com o mandato do Nazareno, assimilado pelas comunidades crist\u00e3s, \u201cide e anunciai o Evangelho a toda criatura\u201d (Mc 16,15)? Para transmitir a f\u00e9 crist\u00e3, n\u00e3o seria necess\u00e1rio condenar as outras express\u00f5es de f\u00e9 que n\u00e3o reconhecem Jesus como Senhor e salvador do mundo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste mundo plural e diversificado, toda pretens\u00e3o de possuir a verdade \u2013 mesmo em nome da f\u00e9 \u2013 \u00e9 absurda. Conviver com a diversidade e aceit\u00e1-la como um dom (e n\u00e3o como uma amea\u00e7a) \u00e9 o primeiro caminho para que a f\u00e9 crist\u00e3 seja reconhecida como leg\u00edtima. Afinal, a verdade n\u00e3o \u00e9 algo que possu\u00edmos. Ela nos escapa, pois \u00e9 bem maior que n\u00f3s, maior que nossas elucubra\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, que nossa capacidade de dar sentido e de explicar os mist\u00e9rios da vida. Deus \u00e9 mist\u00e9rio e se nos revela na hist\u00f3ria, nas pequenas coisas, nas palavras humanas ditas desde dentro, nos pequenos gestos de amor, como nos ensinou Jesus de Nazar\u00e9. Toda tentativa de a\u00e7ambarcar a verdade \u00e9 reducionista e a tranforma em uma mentira. N\u00f3s n\u00e3o possu\u00edmos a verdade; apenas nos aproximamos dela. E, a cada passo dado em sua dire\u00e7\u00e3o, ela avan\u00e7a mais \u00e0 frente, conservando-se sempre como mist\u00e9rio. Deus, a verdade, n\u00e3o se deixa possuir por ningu\u00e9m, nem por uma religi\u00e3o, nem por um credo, nem por qualquer pr\u00e1tica piedosa. Est\u00e1 sempre mais al\u00e9m dos nossos olhos, nos ensinando que a f\u00e9 \u00e9 <em>devir<\/em>, \u00e9 <em>vir-a-ser<\/em>, \u00e9 uma <em>eterna iniciante<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se a f\u00e9 crist\u00e3 quer continuar cr\u00edvel hoje, se quer ter pertin\u00eancia para os homens e as mulheres de nosso tempo, vai precisar reaprender a humildade do Nazareno. Vai precisar reaprender a li\u00e7\u00e3o da toler\u00e2ncia e do di\u00e1logo. Vai precisar se tornar companheira das outras express\u00f5es de f\u00e9 em vez de sua inimiga ou concorrente. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o no mundo contempor\u00e2neo para uma profiss\u00e3o de f\u00e9 que arroga para si o dom\u00ednio da verdade, nem para quem n\u00e3o sabe reconhecer o belo e o bom no quintal do vizinho. A catequese crist\u00e3 cat\u00f3lica \u2013 se quer mesmo cumprir o mandato de Jesus \u201cide e anunciai\u201d \u2013 precisa se abrir para acolher o diferente e se revestir de humildade admitindo que a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o tem resposta para tudo. Vamos precisar de coragem audaciosa, como disse o papa Francisco, para fazer uma pastoral em sa\u00edda, acolhendo cada pessoa com suas necessidades e suas ofertas de sentido. Vamos precisar de leveza e desapego para repensar os dogmas e as formula\u00e7\u00f5es doutrin\u00e1rias a partir do nosso tempo. Vamos precisar de abertura e de bondade sem fim para redizer a \u00e9tica e a moral crist\u00e3s a partir de novos par\u00e2metros. Vamos precisar reconhecer a pluralidade n\u00e3o s\u00f3 da sociedade, mas a pluralidade interna do cristianismo \u2013 e por que n\u00e3o do catolicismo? A transmiss\u00e3o da f\u00e9 hoje n\u00e3o se d\u00e1 mais de forma autom\u00e1tica como outrora, quando a receb\u00edamos de nossos antepassados, como uma heran\u00e7a passada de pai para filho. A transmiss\u00e3o da f\u00e9 hoje se d\u00e1 no testemunho corajoso e aut\u00eantico de crist\u00e3os que \u2013 no meio de um mundo plural e com milh\u00f5es de ofertas de sentido \u2013 continuam a professar que o Nazareno vive e que seu evangelho \u00e9 palavra que faz viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No grande are\u00f3pago do mundo, a f\u00e9 crist\u00e3 n\u00e3o tem mais exclusividade. N\u00e3o \u00e9 mais a \u00fanica voz proferida dos p\u00falpitos, nem a grande reguladora do ethos da sociedade p\u00f3s-moderna. Vozes diversas ressoam ao mesmo tempo, cada qual anunciando seus or\u00e1culos, mostrando seus caminhos, fazendo seus apelos ao cora\u00e7\u00e3o humano. 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