{"id":35818,"date":"2017-06-09T14:27:03","date_gmt":"2017-06-09T17:27:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=35818"},"modified":"2017-06-09T15:03:42","modified_gmt":"2017-06-09T18:03:42","slug":"felicidade-reflexao-para-construir-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/felicidade-reflexao-para-construir-2\/","title":{"rendered":"Felicidade: reflex\u00e3o para construir"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Do Oriente ao Ocidente, a felicidade sempre foi objeto de estudo.\u00a0Na Gr\u00e9cia antiga, por volta de 2000 a.C., j\u00e1 com os pr\u00e9-socr\u00e1ticos, o conceito de felicidade foi estudado e discutido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde sempre, e ainda hoje, buscamos a felicidade \u201cverdadeira\u201d. Essa busca ganhou muita for\u00e7a com o advento do cristianismo, de modo que muitos de n\u00f3s achamos que existe apenas uma maneira de sermos felizes. Mas nem sempre, ao longo da hist\u00f3ria, foi assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 preciso levar em conta que o conceito de felicidade ganha sentidos diferentes de acordo com o tempo hist\u00f3rico. Houve momentos em que as pessoas felizes eram aquelas que nasciam com dons e talentos especiais e os colocavam em pr\u00e1tica. Portanto, a for\u00e7a, aptid\u00f5es f\u00edsicas e est\u00e9ticas eram motivo de gl\u00f3ria: os que as possu\u00edam repousavam na certeza de que eram dotados de atributos concedidos. Isso os diferenciava dos demais, e por isso eram cultivados e admirados. Vale lembrar que o estere\u00f3tipo grego de homens fortes, atletas de corpos torneados, \u00e9 uma amostra desse conceito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a tr\u00edade grega S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles, pontos centrais do desenvolvimento do pensamento ocidental, come\u00e7a-se a se discutir um novo conceito de felicidade. Embora ainda contaminada com a ideia dos talentos inatos, a felicidade come\u00e7a a ser constru\u00edda por outro tipo de atributos. As qualidades f\u00edsicas dividem espa\u00e7o com a liberdade, a democracia e o conhecimento. Perceba que as imagens que representam S\u00f3crates, Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles j\u00e1 n\u00e3o consistem aqui de homens musculosos, e sim com refer\u00eancia a posturas \u00e9ticas e morais. A felicidade, portanto, tem mais rela\u00e7\u00e3o com as virtudes do que com talentos. Um esbo\u00e7o de cristianismo j\u00e1 come\u00e7a a ser criado, com algumas diferen\u00e7as, claro.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O juda\u00edsmo trouxe consigo a ideia de uma felicidade atrelada a acontecimentos, n\u00e3o pura e simplesmente a um estado de esp\u00edrito.\u00a0A felicidade verdadeira estaria atrelada ao momento em que haveria a liberta\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, um lugar e tempo em que todos poderiam usufruir das benesses da promessa e, para isso, da esperan\u00e7a, do \u201cporvir\u201d. A felicidade seria \u201ctrazida\u201d e entregue para quem \u00e9 de direito, aos escolhidos, e sempre representada na figura do Libertador.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o muito distante, o cristianismo segue as mesmas ideias, mas com algumas diferen\u00e7as e ramifica\u00e7\u00f5es. Para o cristianismo primitivo, o que depois deu subs\u00eddio ao desenvolvimento da teologia cat\u00f3lica, a verdadeira felicidade n\u00e3o est\u00e1 apenas em amar a Deus e ao pr\u00f3ximo. Isso s\u00e3o meios, e n\u00e3o fim. A felicidade estaria em um ideal de mundo, n\u00e3o aqui, ao qual n\u00e3o pertencemos. A felicidade seria conquistada, e n\u00e3o dada; portanto, o sacrif\u00edcio e a ren\u00fancia s\u00e3o pontes de travessia \u00e0 verdadeira e \u00fanica felicidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mesmo cristianismo, na Idade M\u00e9dia, d\u00e1 ainda mais peso a essa estrutura de pensamento: afinal, s\u00f3 h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o na Igreja; fora dela, dor e sofrimento. O sacrif\u00edcio e a ren\u00fancia ganham ainda maior sentido na esperan\u00e7a de um mundo melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma cis\u00e3o no pensamento crist\u00e3o acontece ap\u00f3s a Reforma Protestante, centrada nas pessoas de Martinho Lutero e Jo\u00e3o Calvino, s\u00e9culo XVI. Agora o cristianismo passa a dar valor ao aqui e agora. \u00c9 bem verdade que o mundo melhor seria o ideal de conquista, mas a ideia de sacrif\u00edcio e ren\u00fancia perde for\u00e7a e d\u00e1 lugar ao gozar da liberdade que j\u00e1 foi conquistada por Cristo. Claro que isso ter\u00e1 influ\u00eancia na concilia\u00e7\u00e3o do capitalismo e na ideia da prosperidade como ben\u00e7\u00e3o e felicidade (Max Weber, 1905).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paralelamente a isso, outras correntes filos\u00f3ficas e religiosas contribuem com outros diferentes conceitos. As religi\u00f5es orientais, por exemplo, que em geral acreditam na ideia do esvaziamento de si e na busca do equil\u00edbrio entre os instintos e virtudes. A felicidade est\u00e1 na perfei\u00e7\u00e3o que s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada com o autoconhecimento e o controle dos impulsos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em meados do s\u00e9culo XVIII e XIX, pensadores como Immanuel Kant, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud retomam o conceito de felicidade sem concep\u00e7\u00e3o do divino. A felicidade teria o m\u00e9rito de dar sentido \u00e0 exist\u00eancia e estaria presente na luta constante de todas as puls\u00f5es que nos determinam. Para muitos, uma vis\u00e3o pessimista do ser humano.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o existencialismo, a felicidade se contrap\u00f5e \u00e0 ideia plat\u00f4nica e judaico-crist\u00e3. A felicidade consiste em autorresponsabilidade e no abandono do ideal (mundo melhor) em busca do real. A esperan\u00e7a, nesse sentido, seria a perpetua\u00e7\u00e3o do sofrimento, e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XXI, a felicidade tem rela\u00e7\u00e3o direta com o consumo, ou seja, n\u00e3o a ganhamos, n\u00e3o a conquistamos, e muito menos a constru\u00edmos: simplesmente a consumimos, por meio de barganha; a apar\u00eancia precede a ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, h\u00e1 algo de diferente na contemporaneidade, um elemento do qual se modula de forma drasticamente oposta, comparado \u00e0 incessante busca pela felicidade ao longo da hist\u00f3ria. A felicidade est\u00e1 no hedonismo irracional, sem filtro de reflex\u00e3o, e principalmente na\u00a0<em>Extrospec\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perguntas como \u201cComo posso ser feliz?\u201d, \u201cO que \u00e9 felicidade?\u201d, \u201cO que preciso ser para ser feliz?\u201d deram espa\u00e7o para: \u201cO que preciso ter para ser feliz?\u201d.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A d\u00favida, elemento b\u00e1sico de todo questionamento, foi substitu\u00edda pela resposta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o importa em que momento hist\u00f3rico estivemos: desde sempre, a reflex\u00e3o e o questionamento trouxeram ao homem possibilidade de olhar para si na busca de respostas e, mais do que isso, a reflex\u00e3o trouxe o autoconhecimento e a capacidade de se situar no mundo enquanto autores. Ao que vemos, pelo menos numa forma mais superficial e menos abrangente, a contemporaneidade n\u00e3o se interessa por tais movimentos, primeiramente porque isso demanda tempo, e n\u00e3o o temos: queremos e precisamos de velocidade; segundo, porque compramos o que nos deixa felizes na prateleira; por \u00faltimo, n\u00e3o menos importante, a virtualiza\u00e7\u00e3o do real, dando lugar, como consequ\u00eancia, \u00e0 apar\u00eancia, em substitui\u00e7\u00e3o covarde da ess\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso talvez explicaria por que nunca sofremos tanto em toda a hist\u00f3ria?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Onde estaria o \u201cerro\u201d? Na concep\u00e7\u00e3o errada de felicidade ou na falta de compromisso com a pergunta: \u201cO que \u00e9 felicidade?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensemos&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Do Oriente ao Ocidente, a felicidade sempre foi objeto de estudo.\u00a0Na Gr\u00e9cia antiga, por volta de 2000 a.C., j\u00e1 com os pr\u00e9-socr\u00e1ticos, o conceito de felicidade foi estudado e discutido. Desde sempre, e ainda hoje, buscamos a felicidade \u201cverdadeira\u201d. 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