{"id":34301,"date":"2017-04-05T08:45:03","date_gmt":"2017-04-05T11:45:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=34301"},"modified":"2017-04-05T08:57:47","modified_gmt":"2017-04-05T11:57:47","slug":"duas-vidas-maceradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/duas-vidas-maceradas\/","title":{"rendered":"Duas Vidas Maceradas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">A fome \u00e9 um tro\u00e7o que d\u00f3i. D\u00f3i tanto que a cabe\u00e7a n\u00e3o pensa. O c\u00e9rebro rodopia feito aquele brinquedo de antigamente chamado pi\u00e3o. \u00c9 qual redemoinho no sert\u00e3o, levanta a poeira e a gente se benze porque ali no meio pode ter o c\u00e3o. Quem est\u00e1 com fome n\u00e3o quer outra coisa a n\u00e3o ser comer. E aqui n\u00e3o se trata de regime ou jejum. \u00c9 fome mesmo. A fome imposta! Aquela imposta pelos gananciosos, que concentram tudo para si e deixam multid\u00f5es com as tripas roncando e os olhos cinzentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O menino<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Victor certamente sentira fome desde o ventre materno. Filho da periferia de S\u00e3o Paulo, cidade que esbanja lixo e luxo. Naquele dia de carnaval s\u00f3 queria as migalhas. Ele sabia que ali havia comida de sobra. Era o para\u00edso das esfirras. Entrar no para\u00edso n\u00e3o podia. Sem dinheiro, malvestido, olhar de menino de rua, um olharzinho carente e pid\u00e3o. Entra n\u00e3o! A rua era tamb\u00e9m sua. Achava que fosse. Tinha pai e m\u00e3e e irm\u00e3os. Tinha fome!<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pequeninho nos seus 13 anos curtos experimentara tanta maldade. Por\u00e9m jamais retrucara maldade com maldade. Seu cora\u00e7\u00e3o inocente s\u00f3 queria brincar. E aquele cheiro de esfirra, e aquele povo entrando e saindo do para\u00edso, e seu est\u00f4mago vazio. Suas m\u00e3ozinhas estendidas, seus dedinhos manchados, menino sem banho.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pequenino foi macerado pelas m\u00e3os da maldade. Seus anos encurtados nesta travessia. Apertaram seu corpinho fr\u00e1gil, deram tapas na cabe\u00e7a. Jo\u00e3ozinho deu o \u00faltimo suspiro. 26 de mar\u00e7o de 2017. Era domingo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A travesti<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Cleilson desde cedo sentia dentro de si que era diferente. Talvez soubesse, talvez n\u00e3o. Adotara o nome de uma guerreira: Dandara, esposa de Zumbi dos Palmares. Para superar o preconceito abra\u00e7ara a alegria como ant\u00eddoto. Fazia todos rirem \u00e0 sua volta. A m\u00e3e achava que um dia o filho seria um humorista famoso. Dom ele tinha. Dandara s\u00f3 queria viver, do seu jeito. A alegria incomoda muita gente.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sua travessia foi encurtada. Paradoxalmente a maldade o macerou num local chamado Bom Jardim, um bairro de muitas \u00e1rvores. Ali foi seu Gets\u00eamani, seu calv\u00e1rio. Todos se esconderam. Dandara enfrentou o sofrimento sozinha. A pol\u00edcia chegou muito tempo depois. Os malvados atiraram pedra nela, chutaram-na, bofetearam-na. As ma\u00e7\u00e3s de seu rosto branquinho se avermelharam. Seus olhos da cor do c\u00e9u do Cear\u00e1 se ensanguentaram, se apagaram.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dandara, 41 anos, da periferia de Fortaleza. Macerada em 5 de fevereiro de 2017. Era segunda-feira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fome \u00e9 um tro\u00e7o que d\u00f3i. D\u00f3i tanto que a cabe\u00e7a n\u00e3o pensa. 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