{"id":32973,"date":"2017-01-10T09:22:39","date_gmt":"2017-01-10T11:22:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=32973"},"modified":"2017-01-10T09:22:39","modified_gmt":"2017-01-10T11:22:39","slug":"ser-ou-nao-ser-eis-a-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/ser-ou-nao-ser-eis-a-questao\/","title":{"rendered":"Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o!"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 uma das mais famosas frases da literatura universal criada por William Shakespeare (1564-1616) na pe\u00e7a Hamlet. \u00c9 a hist\u00f3ria dram\u00e1tica de um pr\u00edncipe que encontra o fantasma de seu pai que grita por vingan\u00e7a contra seu pr\u00f3prio assassinato, pelas m\u00e3os de seu irm\u00e3o. O jovem, mergulhado em profunda tristeza planeja o revide. Skakespeare com maestria nos coloca diante das reflex\u00f5es do pr\u00edncipe, seu drama de consci\u00eancia, sua ang\u00fastia por ser respons\u00e1vel por seus atos livres: vingar ou n\u00e3o seu pai!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 interessante notar como a arte antecipou o movimento filos\u00f3fico existencialista em mais de 2 s\u00e9culos com fil\u00f3sofos como Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty. N\u00e3o podemos deixar de falar de Kierkegaard\u00a0 que em 1844, escreveu um livro intitulado: \u2018O conceito de ang\u00fastia\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesta mesma linha de racioc\u00ednio, podemos considerar aqui, de uma maneira breve, a contribui\u00e7\u00e3o de tr\u00eas fil\u00f3sofos: Martin Heidegger, Emmanuel Levinas e Enrique Dussel. Um alem\u00e3o, um franc\u00eas e um argentino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, foi com Heidegger que a quest\u00e3o levantou-se de forma diferente. Em 1927 publica sua obra-prima Ser e Tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">1) Para Heidegger o homem \u00e9 o Dasein, termo alem\u00e3o que significa literalmente : \u2018o estar a\u00ed\u2019 do ser (o <strong>ser-a\u00ed<\/strong> no <strong>tempo<\/strong>). \u00c9 aquele ente capaz de perceber o ser em tudo que o circunda, inclusive nele pr\u00f3prio, e por isso, aquele que prop\u00f5e a pergunta fundamental: qual \u00e9 seu sentido: &#8211; porque isso existe? Al\u00e9m disso, o homem como ser-a\u00ed, jamais \u00e9 uma pura e simples presen\u00e7a do ser, como um objeto qualquer do mundo, porque ele \u00e9 aquele ente para o qual as coisas est\u00e3o presentes. Caracteriza-se pela exist\u00eancia: existir (<em>ek-sistere<\/em>) \u00e9 estar fora de si, (de fato, <em>ek<\/em>, \u00e9 uma preposi\u00e7\u00e3o da l\u00edngua grega que indica um movimento para fora, como de um lan\u00e7amento) \u00e9 n\u00e3o ser simplesmente aquilo que se \u00e9 mas, <u>aquilo que se pode ser<\/u>. Neste sentido o Dasein \u00e9 sempre um <strong>projeto de ser<\/strong> e os objetos que fazem parte de seu mundo, s\u00e3o utens\u00edlios a favor deste projetar humano.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra caracter\u00edstica fundamental do Dasein (ser-a\u00ed) \u00e9 de <strong>ser-no-mundo<\/strong>. O homem est\u00e1-no-mundo envolvido pelas coisas de seu interesse, sejam elas necess\u00e1rias ou n\u00e3o ao seu projeto de vida e de mundo. O ser das coisas s\u00f3 faz sentido ao serem utilizadas, transformadas ou destru\u00eddas pelo homem em virtude de seu projeto. Nesta tarefa \u00e1rdua por ser, por assumir sua exist\u00eancia, descobre-se finito, contingente e principalmente um ser que inspira cuidado, seja para com as coisas ou pessoas. O ser-no-mundo tamb\u00e9m \u00e9 o <strong>ser-com-os-outros<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">2) A partir deste ponto, uma nova reflex\u00e3o primordial floresce. Emmanuel Levinas \u00e9 um pensador franc\u00eas, de fam\u00edlia judaica praticante que feito prisioneiro por cinco anos pelos nazistas, inspirado na B\u00edblia e no Talmud, renova a compreens\u00e3o da \u00e9tica e da alteridade. De fato, Levinas, influenciado por Heidegger e Husserl (outro filosofo, por\u00e9m da corrente filos\u00f3fica conhecida como fenomenologia), percebe que a Alteridade (o outro) n\u00e3o \u00e9 apenas uma categoria filos\u00f3fica. Antes de tudo, \u00e9 uma <u>presen\u00e7a irredut\u00edvel <\/u>que evidencia, atrav\u00e9s de seu rosto, um apelo: &#8211;<strong>\u2018N\u00e3o matar\u00e1s\u2019!<\/strong>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A filosofia que se empenhou por reduzir a experi\u00eancia concreta a um pensamento sist\u00eamico fechado que explica todas as coisas, acredita que n\u00e3o tem nada a aprender do outro, do diferente de si mesmo. Esse tipo de pensamento situa todos os homens e cultura como entes interpret\u00e1veis, como ideias conhecidas, como media\u00e7\u00f5es da compreens\u00e3o do ser. O <strong><em>ser \u00e9, o n\u00e3o ser n\u00e3o \u00e9<\/em><\/strong>, segundo Parm\u00eanides. Assim o <strong>ser grego \u00e9<\/strong>, o n\u00e3o ser grego (o b\u00e1rbaro, o estrangeiro, a mulher e a crian\u00e7a) <strong>n\u00e3o \u00e9<\/strong>; o ser europeu \u00e9, e o n\u00e3o europeu (\u00edndio, negro, subdesenvolvido, analfabeto, etc.) n\u00e3o \u00e9. Existe uma armadilha no pensamento cl\u00e1ssico que atrav\u00e9s da pergunta sobre o ser, encoberta a exist\u00eancia de outrem, aquele que est\u00e1 fora do horizonte de interpreta\u00e7\u00e3o vigente, do sistema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">3) Enrique Dussel estende a reflex\u00e3o para a realidade geo-pol\u00edtica, por onde interpreta a hist\u00f3ria mundial que vem se desenvolvendo justificando a opress\u00e3o do b\u00e1rbaro das outras culturas que n\u00e3o a dos imp\u00e9rios e civiliza\u00e7\u00f5es, que por anteced\u00eancia, desenvolveram esta l\u00f3gica: <strong>o ser \u00e9, \u00e9 o que se v\u00ea e se controla: \u2018o mesmo \u00e9 ser e pensar\u2019. \u00b4<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sustenta nas oito Confer\u00eancias de Frankfurt por ocasi\u00e3o dos 500 anos da Am\u00e9rica Latina, que a primeira experi\u00eancia moderna foi a da superioridade do EU europeu sobre o Outro primitivo. Este <em>Ego Conquiro<\/em> (eu conquisto) violento-militar que cobi\u00e7a, deseja riqueza, poder e gl\u00f3ria, ser\u00e1 por anteced\u00eancia pratica o <em>Ego Cogito <\/em>cartesiano. Fernando Cort\u00eas, em 1521 quando conquista a principal cidade do imp\u00e9rio asteca (Tenochtitl\u00e1n), antecede o Discurso do M\u00e9todo de Ren\u00ea Descartes (1636) em mais de um s\u00e9culo. <strong>Conquiro, ergo sum<\/strong> \u00e9 o mesmo que <strong><em>cogito, ergo sum<\/em><\/strong> (conquisto ou penso, logo sou&#8230; europeu).<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser ou n\u00e3o ser, eis uma quest\u00e3o que n\u00e3o deve restringir-se a um mero conjunto de ideias pretensamente s\u00e1bias e sublimes, para entendidos e fora da realidade. \u00c9 uma quest\u00e3o que toca a exist\u00eancia concreta de todo ser humano.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo a intui\u00e7\u00e3o de Shakespeare, percebemos como \u00e9 uma quest\u00e3o angustiante, que provoca uma crise de consci\u00eancia, um ato de julgamento sobre as consequ\u00eancias de nossas atitudes. Com Heidegger, descobrimos uma quest\u00e3o de cuidado, haja vista a preocupa\u00e7\u00e3o do homem em ocupar-se das coisas a sua volta em raz\u00e3o de seu projeto de ser.\u00a0 Em Levinas, uma quest\u00e3o de vida e de morte. O outro \u00e9 aquele rosto que apela: n\u00e3o me mate! A \u00e9tica, precede toda filosofia ou pretensa sabedoria. J\u00e1 com Dussel, uma quest\u00e3o que pode ser usada para justificar a domina\u00e7\u00e3o sobre os mais vulner\u00e1veis que se encontram na periferia do mundo (pa\u00edses subdesenvolvidos), da civiliza\u00e7\u00e3o europ\u00e9ia (ind\u00edgenas), da economia liberal (pobres sem poder de consumo), etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Essa \u00e9 uma das mais famosas frases da literatura universal criada por William Shakespeare (1564-1616) na pe\u00e7a Hamlet. \u00c9 a hist\u00f3ria dram\u00e1tica de um pr\u00edncipe que encontra o fantasma de seu pai que grita por vingan\u00e7a contra seu pr\u00f3prio assassinato, pelas m\u00e3os de seu irm\u00e3o. O jovem, mergulhado em profunda tristeza planeja o revide. 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