{"id":31840,"date":"2016-10-27T16:39:58","date_gmt":"2016-10-27T18:39:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=31840"},"modified":"2016-10-27T16:43:30","modified_gmt":"2016-10-27T18:43:30","slug":"consideracoes-sobre-religiao-e-a-cultura-do-hiperconsumo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/consideracoes-sobre-religiao-e-a-cultura-do-hiperconsumo\/","title":{"rendered":"Considera\u00e7\u00f5es sobre religi\u00e3o e a cultura do hiperconsumo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Percebe-se que o discurso religioso sofreu consider\u00e1veis transforma\u00e7\u00f5es no contexto da atual cultura do consumo. As muta\u00e7\u00f5es culturais advindas da \u201cp\u00f3s-modernidade\u201d n\u00e3o deixaram ilesas as manifesta\u00e7\u00f5es religiosas populares, bem como seu novo modelo teol\u00f3gico. O paradigma religioso contempor\u00e2neo acompanha as atuais caracter\u00edsticas sociais de rela\u00e7\u00e3o Eu\/outro, relacionadas ao imediatismo, superficialidade, obriga\u00e7\u00e3o do gozo e do prazer cont\u00ednuo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que o ser humano se destitui da condi\u00e7\u00e3o de sujeito, passando para a condi\u00e7\u00e3o de objeto. O que faz dele objeto \u00e9 justamente a impossibilidade de escapar deste ciclo produtivo, que tem como caracter\u00edstica o movimento de oferecer para receber. As rela\u00e7\u00f5es, tanto com Deus como com o outro, s\u00e3o marcadas pela barganha, de modo que eu espero receber na mesma medida que dou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A nova era do capitalismo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o preponderante para entendermos a condi\u00e7\u00e3o atual do psiquismo humano e da sociedade. Pouco a pouco, o esp\u00edrito de consumo conseguiu infiltrar-se at\u00e9 nas rela\u00e7\u00f5es com a fam\u00edlia e a religi\u00e3o, com a pol\u00edtica e o sindicalismo, e, sobretudo, com a cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo Lipovetsky, ultrapassamos a era do consumo para a era do hiperconsumo. Neste quadro, verifica-se um grande e terr\u00edvel paradoxo. O hiperconsumidor, de um lado, afirma ser um consumidor informado e \u201clivre\u201d, que v\u00ea seu leque de escolhas ampliar-se, que consulta portais e comparadores de pre\u00e7os, aproveita as grandes promo\u00e7\u00f5es, age sempre procurando otimizar a rela\u00e7\u00e3o qualidade\/pre\u00e7o. Do outro, os modos de vida, os prazeres e os gostos mostram-se cada vez mais sob depend\u00eancia do sistema mercantil; portanto, tenho que ter para ser.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hiperconsumidor n\u00e3o est\u00e1 mais apenas \u00e1vido de bem-estar material, preocupado com a funcionalidade e benef\u00edcios do produto; ele aparece como solicitante de conforto ps\u00edquico. O produto, para ser bom, \u00e9 obrigado a causar sensa\u00e7\u00f5es de bem-estar, felicidade e sabedoria.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A civiliza\u00e7\u00e3o consumista se caracteriza pelas aspira\u00e7\u00f5es de bem-estar e pela busca de uma vida melhor para cada indiv\u00edduo e os seus. Existe uma forte ideia de que se vive mais e melhor beneficiando-se de melhores condi\u00e7\u00f5es materiais. O ascetismo cedeu lugar ao hedonismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As publicidades tendem a associar todo e qualquer produto ao gozo no aqui e agora. S\u00e3o criadas necessidades que impulsionam o indiv\u00edduo \u00e0 dial\u00e9tica de ter para pertencer. O indiv\u00edduo \u00e9 cercado pela parafern\u00e1lia de produtos dispostos a facilitar sua vida, e, ao mesmo tempo, pela promessa de dar com extrema rapidez o que sem o produto nunca foi poss\u00edvel. Em suma, a felicidade \u00e9 agora o grande projeto de <em>marketing<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o indiv\u00edduo adquire um produto, ele est\u00e1 em iguais condi\u00e7\u00f5es com o outro que tamb\u00e9m adquiriu. A igualdade perpassa a condi\u00e7\u00e3o de ter; em outras palavras, n\u00e3o existe a possibilidade de escapar desta avalanche: se o indiv\u00edduo n\u00e3o tem, ele est\u00e1 fora das normas, est\u00e1 desatualizado e desassociado \u00e0 modernidade. A exclus\u00e3o e a inclus\u00e3o relacionam-se com a possibilidade de posse. Subjacente a isso, percebe-se a exist\u00eancia de um pedido latente de emancipa\u00e7\u00e3o, sublinhando a igualdade de todos perante a lei, mas a cultura do consumo acentua a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O bem-estar, o prazer e o gozo imediato da sociedade contempor\u00e2nea est\u00e3o associados ao exerc\u00edcio cont\u00ednuo de afastamento do desconforto e do sofrimento. O sofrimento \u00e9 encarado como estranho ao humano, algo que precisa ser destru\u00eddo imediatamente; n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o sofrimento onde reina a satisfa\u00e7\u00e3o imediata. A subjetividade d\u00e1 lugar \u00e0 objetividade. O bem-estar \u00e9 adquirido, e n\u00e3o mais constru\u00eddo respondendo \u00e0s elabora\u00e7\u00f5es dos conflitos, mesmo porque tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para conflitos. Segundo Roudinesco, esta sociedade passou da era do confronto para a era da evita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isto explica o motivo do aumento exponencial do uso das subst\u00e2ncias psicotr\u00f3picas. Receitados tanto por cl\u00ednicos gerais quanto pelos especialistas em psicopatologia, os psicotr\u00f3picos t\u00eam o efeito de normalizar o comportamento e eliminar os sintomas mais dolorosos do sofrimento ps\u00edquico, sem lhes buscar significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><em>Da\u00ed uma concep\u00e7\u00e3o da norma e da patologia que repousa num princ\u00edpio intang\u00edvel: todo indiv\u00edduo tem o direito e, portanto, o dever de n\u00e3o mais manifestar sofrimento, de n\u00e3o mais se entusiasmar com o menor ideal que n\u00e3o seja o pacifismo ou o da moral humanit\u00e1ria. Em consequ\u00eancia disso, o \u00f3dio ao outro tornou-se sub-rept\u00edcio, perverso, e ainda mais tem\u00edvel, por assumir a m\u00e1scara da dedica\u00e7\u00e3o da v\u00edtima. Se o \u00f3dio pelo outro \u00e9, inicialmente, o \u00f3dio a si mesmo, ele repousa, como todo masoquismo, na nega\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria da alteridade<\/em> (Roudinesco, 2000, 9).<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O hiperconsumo n\u00e3o permite prestar tempo para dar significado ao sofrimento. Quanto mais r\u00e1pido o indiv\u00edduo se livra do sofrimento, mais ele est\u00e1 disposto a alimentar o consumismo. O pr\u00f3prio sofrimento se torna causa do hiperconsumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o surpreende, portanto, que o sofrimento que fingimos exorcizar retorne de maneira fulminante no campo das rela\u00e7\u00f5es sociais e afetivas: recurso ao irracional, das pequenas diferen\u00e7as, valoriza\u00e7\u00e3o do vazio e da estupidez etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale ressaltar que a ang\u00fastia e os conflitos s\u00e3o inerentes ao ser humano: quanto mais se evitam e se recalcam tais sentimentos, mais eles se tornar\u00e3o ferozes e tender\u00e3o a se manifestar de maneira disfar\u00e7ada para limitar a liberdade e o direito de escolha do indiv\u00edduo. O sujeito passa a ser, portanto, presa f\u00e1cil deste ciclo: buscar solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e eficazes para n\u00e3o sofrer, e, como o sofrimento \u00e9 inevit\u00e1vel, a busca ganha ainda mais for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constru\u00e7\u00e3o dos relacionamentos tamb\u00e9m n\u00e3o escapa do imediatismo. Os indiv\u00edduos utilizam-se dos mesmos crit\u00e9rios de rapidez e superficialidade ao constituir rela\u00e7\u00f5es com o externo. Na mesma rapidez com que se constr\u00f3i tamb\u00e9m se dissolve, basta dar um clique para que o outro n\u00e3o fa\u00e7a mais parte da minha rede de rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Bauman\u00a0inclusive sugere a altera\u00e7\u00e3o do termo rela\u00e7\u00f5es sociais para rala\u00e7\u00f5es plugadas, ou seja, o contato \u00e9 cada vez mais virtualizado, a instantaneidade dos acontecimentos trasborda os fatos e invade as rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Sabemos que o sofrimento \u00e9 inerente ao ser humano, e que, portanto, n\u00e3o pode ser eliminado, mas podemos dar sentido a esee sofrimento. Somente dessa forma pode-se escapar do ciclo (cf. Roudinesco, 2000).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Percebe-se que o discurso religioso sofreu consider\u00e1veis transforma\u00e7\u00f5es no contexto da atual cultura do consumo. 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