{"id":18910,"date":"2014-10-22T15:52:53","date_gmt":"2014-10-22T17:52:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=18910"},"modified":"2014-10-23T14:41:09","modified_gmt":"2014-10-23T16:41:09","slug":"os-interesses-e-o-interessante-no-debate-politico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/os-interesses-e-o-interessante-no-debate-politico\/","title":{"rendered":"Os interesses e o interessante no debate pol\u00edtico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Como forma de reconhecer e expressar a verdade no debate pol\u00edtico o cidad\u00e3o deve aprender a fazer a distin\u00e7\u00e3o entre os projetos e os meios de realiza\u00e7\u00e3o, entre os interesses e o interessante. Sem isso n\u00e3o h\u00e1 debate aberto e sereno.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade n\u00e3o se expressa sob a forma de um conceito un\u00edvoco. Aquilo que chamamos de verdade refere-se a diferentes \u00e2mbitos da realidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por um lado, h\u00e1 o \u00e2mbito das coisas e dos processos sociais cujos contornos podem ser expressos como a dimens\u00e3o objetiva da verdade. Por outro lado, h\u00e1 tamb\u00e9m o \u00e2mbito projetual, que se configura sob a forma de interesses e projetos. Trata-se da <em>dimens\u00e3o projetual da verdade<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O observador social pode, p. ex., descrever o Brasil como um pa\u00eds no qual o 1% mais rico possui um montante de riqueza superior \u00e0 soma do montante da riqueza dos 50% mais pobres. Isso \u00e9 express\u00e3o da verdade, mas n\u00e3o de toda a verdade. A frieza dos dados mostra apenas a dimens\u00e3o objetiva da verdade, restando por apresentar as raz\u00f5es profundas que funcionam como o elemento de sustenta\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas objetivas da realidade social. No dado em quest\u00e3o, a explicita\u00e7\u00e3o dos interesses das elites, bem como o seu desprezo \u00e0 ideia de um pa\u00eds mais republicano e democr\u00e1tico, no qual os interesses do povo realmente importem, completar\u00e1 o quadro da verdade que se quer expressar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas uma an\u00e1lise mais profunda revelar\u00e1 que um tal quadro social emoldurado por ambiguidades t\u00e3o graves, surpreendentemente, s\u00f3 se sustenta porque o pr\u00f3prio povo pobre \u2013 e os setores m\u00e9dios da popula\u00e7\u00e3o \u2013 assimilou a l\u00f3gica da exclus\u00e3o, pondo-a em pr\u00e1tica, mediante aliena\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia. Isto explica o apoio que boa parte dos exclu\u00eddos d\u00e1 \u00e0s propostas conservadoras.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdade n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 na superf\u00edcie da realidade, mas tamb\u00e9m na profundidade, onde est\u00e3o os interesses. Vale lembrar a fala de Jesus aos seus primeiros disc\u00edpulos, que tinham pescado a noite inteira, sup\u00f5e-se que em \u00e1guas rasas, sem nada conseguirem. Jesus sugere que \u201cavancem para \u00e1guas mais profundas\u201d (Lc 5,4).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O olhar que capta apenas a superf\u00edcie da realidade tem como caracter\u00edstica t\u00edpica o uso estreito da raz\u00e3o, um olhar que n\u00e3o considera os projetos. A an\u00e1lise resultante desse tipo de vis\u00e3o superficial tem por objetivo diagnosticar a pureza e a efic\u00e1cia dos meios, especialmente nos momentos de crise. Reprova a impureza dos meios sem dar-se conta de que o que os tornam corruptos s\u00e3o os interesses mesquinhos que se escondem nos bastidores dos interesses dominantes. Quando isso acontece, a an\u00e1lise resume-se em choradeira contra a corrup\u00e7\u00e3o e contra a presumida inoper\u00e2ncia \u201cdo governo\u201d, sem maiores considera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O corrente debate eleitoral \u00e9 o retrato acabado de um pa\u00eds que n\u00e3o acessa a sua profundidade. H\u00e1 considera\u00e7\u00f5es sobre o que funciona e o que n\u00e3o funciona. Quase nada se diz sobre a dimens\u00e3o dos projetos que fazem o pa\u00eds funcionar ou emperrar. O cidad\u00e3o m\u00e9dio visualiza apenas a efic\u00e1cia e a pureza das institui\u00e7\u00f5es e processos administrativos. O debate \u00e9 de natureza cosm\u00e9tica, sobre corrup\u00e7\u00e3o, principalmente. N\u00e3o toca o n\u00edvel mais profundo dos projetos que se disputam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estudos demonstram que a tend\u00eancia conservadora de alguns setores da nova classe m\u00e9dia deve-se \u00e0 incapacidade de identificar os interesses que est\u00e3o na base do funcionamento do governo e da sociedade. Tal conservadorismo manifesta-se no desejo de aperfei\u00e7oar os meios, sem considerar o projeto de pa\u00eds. Cai-se no debate de arquibancada. Pululam as frases prontas contra a corrup\u00e7\u00e3o, contra \u201ctudo o que est\u00e1 a\u00ed\u201d. No fim, o novo sujeito social, ludibriado pelo marketing do debate sobre o que est\u00e1 na superf\u00edcie da realidade, acaba apoiando mudan\u00e7as n\u00e3o apenas no \u00e2mbito dos meios, mas tamb\u00e9m no do projeto do qual ele pr\u00f3prio \u00e9 o resultado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00e1 claro que, nesta campanha presidencial, o que est\u00e1 em discuss\u00e3o \u00e9 o gerenciamento do modelo vigente. A quest\u00e3o fundamental \u00e9 como situar o capitalismo brasileiro no contexto do capitalismo globalizado, no qual os povos s\u00e3o prejudicados em fun\u00e7\u00e3o da forte desregulamenta\u00e7\u00e3o, bem como no contexto das contradi\u00e7\u00f5es internas do pr\u00f3prio pa\u00eds, no qual os interesses das elites emperram as mudan\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na hist\u00f3ria recente o Brasil tem sido palco de duas experi\u00eancias, uma de vi\u00e9s neoliberal, na era FHC, outra de vi\u00e9s de democracia social, ap\u00f3s Lula. As caracter\u00edsticas e os resultados de ambas s\u00e3o amplamente conhecidos.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Papa Francisco chamou a aten\u00e7\u00e3o para o car\u00e1ter excludente dos mercados desregulamentados, como quer o neoliberalismo. A experi\u00eancia mostra que o mercado pode tornar-se desumano e selvagem quando \u00e9 gerenciado sob a forma de parceria com o mercado financeiro e com as oligarquias locais. Todavia, torna-se mais humanizador quando os parceiros priorit\u00e1rios s\u00e3o os setores mais populares, os pobres, os trabalhadores.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">A distin\u00e7\u00e3o entre a realidade como um dado e a realidade como projeto confere maior clareza ao debate pol\u00edtico. Possibilita distinguir entre a pureza e efic\u00e1cia das institui\u00e7\u00f5es e processos, por um lado, e o valor dos projetos que estruturam a realidade, por outro lado. Os sujeitos do debate podem sair da superf\u00edcie e alcan\u00e7ar a dimens\u00e3o mais profunda da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 outra dimens\u00e3o da verdade que chamamos de verdade performativa. Corresponde ao \u00e2mbito pol\u00edtico, no qual s\u00e3o sintetizadas a objetividade e o sentido da realidade, fazendo com que a verdade se realize na liberdade do ser humano. Trata-se da verdade realizada na hist\u00f3ria, assunto para o pr\u00f3ximo texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como forma de reconhecer e expressar a verdade no debate pol\u00edtico o cidad\u00e3o deve aprender a fazer a distin\u00e7\u00e3o entre os projetos e os meios de realiza\u00e7\u00e3o, entre os interesses e o interessante. Sem isso n\u00e3o h\u00e1 debate aberto e sereno. A verdade n\u00e3o se expressa sob a forma de um conceito un\u00edvoco. 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