{"id":18038,"date":"2014-08-29T16:04:18","date_gmt":"2014-08-29T19:04:18","guid":{"rendered":"http:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/?p=18038"},"modified":"2014-08-29T16:04:18","modified_gmt":"2014-08-29T19:04:18","slug":"fatos-jornalisticos-entre-verossimilhancas-e-ficcoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.paulus.com.br\/portal\/fatos-jornalisticos-entre-verossimilhancas-e-ficcoes\/","title":{"rendered":"Fatos jornal\u00edsticos: entre verossimilhan\u00e7as e fic\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Na concep\u00e7\u00e3o do positivismo da idade moderna, que marca a humanidade e suas ideias de conhecimento at\u00e9 hoje, fato \u00e9 uma experi\u00eancia sens\u00edvel da realidade; a cada fato deve corresponder um dado poss\u00edvel, uma sensa\u00e7\u00e3o, de modo que se poderia conhecer os fatos e a realidade exata e objetivamente como eles s\u00e3o. O empiricamente observ\u00e1vel e verificado pela experi\u00eancia seria indubit\u00e1vel.<\/p>\n<blockquote><p>O mundo dos fatos \u00e9 ligado ao \u201cestado de coisas\u201d e os enunciados devem ter correspond\u00eancia transparente com esse estado de coisas empiricamente comprov\u00e1veis, com id\u00eantica validade para todos os sujeitos.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No senso comum, o significado de fato inclui ocorr\u00eancias e a\u00e7\u00f5es em geral, logo, incluindo o que se sabe sobre o caso por observa\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia, mais que por infer\u00eancia. Os dados reais da experi\u00eancia s\u00e3o considerados as coisas existentes em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalismo incorpora esse esp\u00edrito do positivismo e o senso comum sobre os fatos, cultivando o \u201cmito da neutralidade\u201d e da \u201cobjetividade\u201d. A ideia segundo a qual o jornalismo em sua \u201cobjetividade\u201d funciona como uma esp\u00e9cie de espelho do real \u00e9 hist\u00f3rica e muito arraigada na sociedade.<\/p>\n<blockquote><p>H\u00e1 uma ideia impl\u00edcita ou expl\u00edcita de que, ao se ler um jornal, ali est\u00e1 a \u201cverdade\u201d dos fatos, seu retrato e espelho, e de que os textos descrevem-nos da forma mais fiel poss\u00edvel ao real, de forma empiricamente comprov\u00e1vel.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">No mundo cient\u00edfico, ap\u00f3s a cr\u00edtica ao positivismo, sabemos que hoje, mesmo com todo o rigor, a objetividade total \u00e9 imposs\u00edvel. A cr\u00edtica feita pela filosofia e pelas teorias da ci\u00eancia conclu\u00edram pela impossibilidade dos fatos de garantir o necess\u00e1rio rigor ao conhecimento. Com base nisso, h\u00e1 um dito espirituoso corrente, segundo o qual \u201cos jornalistas seriam os \u00faltimos positivistas do mundo\u201d. Essa estrita colagem dos fatos, sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es com a sua sobredetermina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, enviesamentos, ideologias, subjetividades \u00e9 t\u00edpica da ideologia corporativa do jornalismo de extens\u00e3o norte-americana, que influencia muito a cultura jornal\u00edstica brasileira.<\/p>\n<blockquote><p>A imprensa traz consigo a ideia de liberdade de express\u00e3o e de defesa da cidadania e dos direitos, juntamente com a narrativa que constr\u00f3i sobre si mesma como entidade m\u00edtica que administra a verdade dos fatos sociais, e mais, a ret\u00f3rica encantant\u00f3ria na narra\u00e7\u00e3o fragment\u00e1ria sobre a atualidade.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabemos, no entanto, que a not\u00edcia \u00e9 elaborada em estrat\u00e9gias de constru\u00e7\u00e3o do acontecimento. Os fatos podem ser n\u00e3o s\u00f3 transformados pela subjetividade de quem os narra, mas muitas vezes podem conter elementos de fic\u00e7\u00e3o. Na concep\u00e7\u00e3o do estudioso de comunica\u00e7\u00e3o Muniz Sodr\u00e9, ainda que a fic\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria seja outra coisa, a constru\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica tem proximidade e produz efeitos (numa escala diferente) an\u00e1logos \u00e0queles produzidos literariamente. Ao escolher um assunto, redigir um texto e edit\u00e1-lo, os jornalistas e os ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o em que trabalham, tomam decis\u00f5es em larga medida subjetivas, influenciadas por suas posi\u00e7\u00f5es pessoais, h\u00e1bitos e emo\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m por seus posicionamentos de classe social, de pol\u00edtica, de economia; necessidade de chamar aten\u00e7\u00e3o, de envolver o p\u00fablico, direcionamentos para as interpreta\u00e7\u00f5es que esse p\u00fablico ir\u00e1 fazer, chegando at\u00e9 \u00e0 falta de \u00e9tica de distorcer os fatos e apresentar apenas as vers\u00f5es que interessam.<\/p>\n<blockquote><p>Portanto, ao se ler um jornal, ou assistir um notici\u00e1rio, \u00e9 fundamental estar atentos a essas formas de narrativas, aos direcionamentos subjetivos e ideol\u00f3gicos, fict\u00edcios presente nas narra\u00e7\u00f5es.<\/p><\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o acreditar que ali a realidade est\u00e1 transparente tal e qual ela \u00e9. Bem como \u00e9 fundamental exigirmos dos meios de comunica\u00e7\u00e3o que sejam o m\u00e1ximo poss\u00edvel objetivos, respeitando os diversos anglos nas narra\u00e7\u00f5es que fazem. E criar mecanismos legais para que os meios de comunica\u00e7\u00e3o desenvolvam sua atividade de maneira \u00e9tica, democr\u00e1tica e pluralista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na concep\u00e7\u00e3o do positivismo da idade moderna, que marca a humanidade e suas ideias de conhecimento at\u00e9 hoje, fato \u00e9 uma experi\u00eancia sens\u00edvel da realidade; a cada fato deve corresponder um dado poss\u00edvel, uma sensa\u00e7\u00e3o, de modo que se poderia conhecer os fatos e a realidade exata e objetivamente como eles s\u00e3o. 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