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Igreja e Sociedade

17/10/2014

Política e verdade – por um debate aberto e sereno

Por Valdecir Luiz Cordeiro

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A escolha efetivamente política se dá na seara da valoração de projetos e da comparação das competências para realizá-los. Trás consigo o problema da verdade, uma questão que desafia a razão em todos os tempos.

Nessa campanha presidencial, o eleitor se vê em meio a um cipoal quase indecifrável constituído de discursos, projetos, acusações recíprocas entre candidatos, pesquisas, análises e tudo o mais, fato que motiva a nossa reflexão. Há pessoas que refletem com serenidade e lucidez. Predomina, porém, a agressividade, a truculência e o preconceito. Nem sempre transparecem o compromisso com a sociedade como um todo e a beleza da verdade.

A participação produtiva no debate público supõe um correto equilíbrio entre sentimento e razão. Pede espírito de abertura.

Pode ser bom perguntar, honestamente, o que é a verdade e onde está a verdade, quando se trata de analisar fenômenos complexos, como a vida política de um país do tamanho do Brasil.

Alertamos o leitor, por antecipação, que não temos uma resposta categórica a estas perguntas. Nem mesmo um filósofo como H. G. Gadamer, que escreveu a volumosa obra Verdade e método, atreveu-se a dar uma palavra conclusiva sobre o assunto.

Vale lembrar também que foi perguntado a Jesus de Nazaré o que é a verdade, quando Ele foi preso e era interrogado por Pilatos (Jo 18,38). O evangelista que narra o fato dá a entender que Jesus permaneceu em silêncio.

E com razão, se assim foi, pois a verdade não é um conceito que se diz de uma vez por todas, no calor de um debate ou numa situação conflitiva.

Talvez o mestre de Nazaré tenha silenciado por uma questão de humildade, ou por achar que estava mais que claro ao seu interlocutor o que, naquela situação, era a verdade mais óbvia, a injustiça de que era vítima, coisa de que nem era necessário falar, de tão evidente. Contudo, ao anunciar o evangelho do Reino, o nazareno assegurou que há um caminho para a verdade (Jo 14,6).

Nessa fase de debates acalorados, vale a pena recuperar também o pensamento de Santo Agostinho como contribuição para o diálogo respeitoso e aberto no debate público. Autor de numerosas obras, o bispo de Hipona afirma que as conquistas da razão na busca da verdade se dão não ao modo de um ponto de chegada à verdade completa, mas no sentido de ter encontrado o lugar, que ele sustenta ser a experiência do amor, onde se deve continuar procurando (A Trindade, VIII, 10).

Portanto, é desejável que se tenha muita humildade diante da realidade, pois a verdade aparece muito mais na experiência concreta que na clareza das formulações.

Isto torna-se tão mais urgente e importante quando o que se discute é o destino comum de um povo, como numa eleição presidencial, o que exige o compromisso com a dimensão ética do discurso.

A pureza dos projetos e do meios empregados em sua execução deve ser discutida com absoluta abertura e sinceridade.

Não se pode, p. ex., considerar honesta e sincera a atitude de quem combate a corrupção, contanto que não seja a de seu partido de preferência, ou de certo jornalismo que mostra só o que convém aos interesses dos donos dos jornais e de seus aliados.

Pois bem, a dinâmica do caminho, assumida por Jesus como forma de expressão, refere-se ao caráter dinâmico do ser humano – difícil de expressar – e sintetiza os diferentes elementos que compõem a verdade.

Publicaremos, neste espaço, uma série de artigos sobre o tema “política e verdade”. Refletiremos sobre as dimensões analítica e sintética da verdade e sobre o caráter intrinsecamente político de ambas. A dimensão analítica articula as faces objetiva e projetual da verdade. A dimensão sintética configura-se pelas funções performativa e personalizadora da verdade. Ver-se-á que o que dificulta a tarefa de expressar a verdade no campo da política é o fato de que não se trata de expor unicamente o contorno de realidades estáticas, mas também a experiência humana pessoal e social.

Espera-se que seja uma contribuição às pessoas que querem tomar parte no debate político, e que preocupam-se em fazê-lo com liberdade e discernimento, urbanidade e compromisso com o bem comum.

Até!

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