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Igreja e Sociedade

22/10/2014

Os interesses e o interessante no debate político

Por Valdecir Luiz Cordeiro

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Como forma de reconhecer e expressar a verdade no debate político o cidadão deve aprender a fazer a distinção entre os projetos e os meios de realização, entre os interesses e o interessante. Sem isso não há debate aberto e sereno.

A verdade não se expressa sob a forma de um conceito unívoco. Aquilo que chamamos de verdade refere-se a diferentes âmbitos da realidade.

Por um lado, há o âmbito das coisas e dos processos sociais cujos contornos podem ser expressos como a dimensão objetiva da verdade. Por outro lado, há também o âmbito projetual, que se configura sob a forma de interesses e projetos. Trata-se da dimensão projetual da verdade.

O observador social pode, p. ex., descrever o Brasil como um país no qual o 1% mais rico possui um montante de riqueza superior à soma do montante da riqueza dos 50% mais pobres. Isso é expressão da verdade, mas não de toda a verdade. A frieza dos dados mostra apenas a dimensão objetiva da verdade, restando por apresentar as razões profundas que funcionam como o elemento de sustentação das características objetivas da realidade social. No dado em questão, a explicitação dos interesses das elites, bem como o seu desprezo à ideia de um país mais republicano e democrático, no qual os interesses do povo realmente importem, completará o quadro da verdade que se quer expressar.

Mas uma análise mais profunda revelará que um tal quadro social emoldurado por ambiguidades tão graves, surpreendentemente, só se sustenta porque o próprio povo pobre – e os setores médios da população – assimilou a lógica da exclusão, pondo-a em prática, mediante alienação da consciência. Isto explica o apoio que boa parte dos excluídos dá às propostas conservadoras.

A verdade não está só na superfície da realidade, mas também na profundidade, onde estão os interesses. Vale lembrar a fala de Jesus aos seus primeiros discípulos, que tinham pescado a noite inteira, supõe-se que em águas rasas, sem nada conseguirem. Jesus sugere que “avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4).

O olhar que capta apenas a superfície da realidade tem como característica típica o uso estreito da razão, um olhar que não considera os projetos. A análise resultante desse tipo de visão superficial tem por objetivo diagnosticar a pureza e a eficácia dos meios, especialmente nos momentos de crise. Reprova a impureza dos meios sem dar-se conta de que o que os tornam corruptos são os interesses mesquinhos que se escondem nos bastidores dos interesses dominantes. Quando isso acontece, a análise resume-se em choradeira contra a corrupção e contra a presumida inoperância “do governo”, sem maiores considerações.

O corrente debate eleitoral é o retrato acabado de um país que não acessa a sua profundidade. Há considerações sobre o que funciona e o que não funciona. Quase nada se diz sobre a dimensão dos projetos que fazem o país funcionar ou emperrar. O cidadão médio visualiza apenas a eficácia e a pureza das instituições e processos administrativos. O debate é de natureza cosmética, sobre corrupção, principalmente. Não toca o nível mais profundo dos projetos que se disputam.

Estudos demonstram que a tendência conservadora de alguns setores da nova classe média deve-se à incapacidade de identificar os interesses que estão na base do funcionamento do governo e da sociedade. Tal conservadorismo manifesta-se no desejo de aperfeiçoar os meios, sem considerar o projeto de país. Cai-se no debate de arquibancada. Pululam as frases prontas contra a corrupção, contra “tudo o que está aí”. No fim, o novo sujeito social, ludibriado pelo marketing do debate sobre o que está na superfície da realidade, acaba apoiando mudanças não apenas no âmbito dos meios, mas também no do projeto do qual ele próprio é o resultado.

Está claro que, nesta campanha presidencial, o que está em discussão é o gerenciamento do modelo vigente. A questão fundamental é como situar o capitalismo brasileiro no contexto do capitalismo globalizado, no qual os povos são prejudicados em função da forte desregulamentação, bem como no contexto das contradições internas do próprio país, no qual os interesses das elites emperram as mudanças.

Na história recente o Brasil tem sido palco de duas experiências, uma de viés neoliberal, na era FHC, outra de viés de democracia social, após Lula. As características e os resultados de ambas são amplamente conhecidos.

O Papa Francisco chamou a atenção para o caráter excludente dos mercados desregulamentados, como quer o neoliberalismo. A experiência mostra que o mercado pode tornar-se desumano e selvagem quando é gerenciado sob a forma de parceria com o mercado financeiro e com as oligarquias locais. Todavia, torna-se mais humanizador quando os parceiros prioritários são os setores mais populares, os pobres, os trabalhadores.

A distinção entre a realidade como um dado e a realidade como projeto confere maior clareza ao debate político. Possibilita distinguir entre a pureza e eficácia das instituições e processos, por um lado, e o valor dos projetos que estruturam a realidade, por outro lado. Os sujeitos do debate podem sair da superfície e alcançar a dimensão mais profunda da sociedade.

Há outra dimensão da verdade que chamamos de verdade performativa. Corresponde ao âmbito político, no qual são sintetizadas a objetividade e o sentido da realidade, fazendo com que a verdade se realize na liberdade do ser humano. Trata-se da verdade realizada na história, assunto para o próximo texto.

Até!

2 comentários

9/12/2014

Sergio

Devido a tantos escândalos, talvez seja mais seguro mudar o aparente viés de democracia social, para outro viés.

9/12/2014

Sergio

Uma notícia mais recente e preocupante: Pela primeira vez desde 1990, a balança comercial do ABC paulista fechará o ano no vermelho, diz o economista Sandro Maskio, coordenador de Estudos do Observatório Econômico da Universidade Metodista. Nos três primeiros trimestres do ano, as importações superaram as exportações do ABC em US$ 427 milhões. Os salários por ali diminuíram. A quantidade de empregos, também. “Neste ano, a indústria do ABC perdeu 10 mil vagas. Mesmo com as contratações, o número de empregos caiu em 4 mil postos. Isso impactou diretamente a cadeia automotiva”, diz Maskio. “O trabalhador sente isso. Ele se torna mais cauteloso e insatisfeito.” Democracia social? Onde?