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Igreja e Sociedade

02/11/2018

O Deus de todos

Por Valdecir Luiz Cordeiro

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Nada, nem mesmo Deus, está acima da pessoa. É, no fundo, o que se afirma num texto que circulou nas redes sociais, atribuído a Érico Hammes, o qual questiona “como assim ‘deus’ acima de todos?”. O teólogo gaúcho rejeita a frase que tem sido aceita ultimamente como verdade absoluta e argumenta, acertadamente, que Deus não está “acima”, indiferente à situação do ser humano, mas salvando, libertando, sobretudo os escravos (cf. Ex 3,7-8), perdoando os pecadores (cf. Mc 2,17; Jo 12,47), morando na existência de cada pessoa, sem ter nem sequer comida para comer e roupa para vestir (cf. Mt 25,31 e seguintes). Assim, o correto seria dizer “o Deus de todos”, no sentido de que vem ao encontro de todos, chama a todos.

Pode-se dizer que a frase “Deus acima de todos” não é somente ambígua, mas pura e simplesmente mentirosa. Apoia-se na ideia da transcendência de Deus para afirmar o contrário do que Deus é. Trata-se de lamentável peça de marketing político enganoso. Não por acaso, muitos dos que a pronunciam à exaustão defendem a tortura, a agressão aos povos indígenas, à dignidade da mulher e dos estrangeiros pobres, entre outras barbaridades. Em razão disso, devemos submeter a afirmação ao crivo do que o próprio Deus, através de acontecimentos e palavras, diz de Si.

É bem verdade que Deus é infinito, “habita em luz inacessível” (1Tm 6,16), mas a sua Palavra está perto de nós (cf. Dt 30,14; Rm 10,8), fez-se carne e veio morar entre nós (cf. Jo 1,14). Jesus Cristo, o Filho, a Palavra do Pai, é Deus conosco (cf. Mt 1,23), não acima de nós. Os primeiros cristãos fizeram questão de dizer que viram o infinito com os olhos, o tocaram com as mãos (1Jo 1,1). Vê-se que a Escritura nos fala de um Deus que não está acima. É a este Deus, e não a outro, que o primeiro mandamento nos convida a amar, pois ele é o único Deus vivo e verdadeiro (cf. Dt 6,4). Portanto, um “Deus acima de todos” é uma ideia vazia, um veneno fabricado pelo falatório dos interesses mundanos, uma ideia idolátrica, a serviço dos dominadores. Em sentido contrário, a Escritura afirma claramente que “o Deus vivo (e verdadeiro) está no meio de vocês” (Js 3,10), não acima de ninguém.

Deus é “o Pai das misericórdias” (2Cor 1,3), seu Espírito habita a Igreja, mora no corpo de cada pessoa humana, renova todas as coisas (cf. Ap 21,5). O nosso Deus não é uma solidão poderosa, acima de nós, mas a Trindade Santa, comunidade de amor, que caminha conosco na história. O Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, o Deus conosco, nascido da Santíssima Virgem Maria, nos mostra o rosto do Pai, e pede ao Pai que envie o Espírito Santo, para que não caminhemos sozinhos na história (cf. Jo 14,16).

Somente este Deus próximo de nós é o Deus vivo e verdadeiro. Na realidade, como sustenta o filósofo jesuíta Nilo Ribeiro Junior, o nosso Deus está abaixo de todos, como o último de todos, o servidor de todos. Um escândalo aos olhos do mundo, mas assim é o nosso Deus (cf. Mc 9,35; Jo 13,1-20; Fl 2,6-11). Ele assumiu a nossa carne, o nosso corpo, por isso nos liberta, dignifica e nos une ao seu plano de salvação. Quem Nele acredita não defende nenhuma forma de agressão à vida, não pratica a violência, não elogia a tortura e não louva os sistemas ditatoriais.

Em suma, nada, nem ninguém, está acima da pessoa, pois a pessoa é um valor em si mesma. A pessoa nunca é instrumento, coisa, nem mesmo nas mãos de Deus. O criador respeita a liberdade da criação: “eis que estou à porta e bato” (Ap 3,20). Ele não arromba a porta da nossa casa, pois não se coloca acima de nós, mas ao nosso lado, por respeito à nossa liberdade, mesmo que esta tenha sido comprometida pelo pecado. Este Deus servidor permanece escondido aos olhos dos que têm pretensões desmedidas de dominação. Contudo, mostra o seu rosto aos pequeninos (Mt 11,25).

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