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Igreja e Sociedade

28/03/2016

Muito além do vale tudo: os setes princípios da doutrina social da Igreja

Por Valdecir Luiz Cordeiro

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A crise política criou um ambiente social marcado pelo acirramento dos ânimos. Chega-se ao extremo da criminalização da opinião. Não mais uma determinada orientação ideológica, como esquerda ou direita, é criminalizada, mas a própria opinião e ação políticas.

Ora, ao se negar a política como dimensão legítima do humano, corta-se pela raiz a possibilidade da criação de consensos e programas comuns na sociedade. Caminho equivocado, pois, no fim das contas, a sociedade pode cair nas mãos de oportunistas da pior qualidade.

É hora de resgatar as ideias norteadoras da ação política assumidas pela doutrina social da Igreja. Uma contribuição para que possamos ter maior clareza e eficácia na militância. Vejamos.

  1. Defesa da dignidade humana da qual emanam os direitos humanos. O direito à vida, à família, à liberdade, ao conhecimento da verdade, direito a trabalho de qualidade, moradia, terra para tirar o sustento, liberdade de expressão e religiosa. O direito dos povos e nações é também expressão dos direitos humanos (cf. João Paulo II, Centesimus annus, 47; Sollicitudo rei socialis, 33).

Há, no contexto atual, verdadeiro ataque aos direitos humanos sob a forma de preconceitos e manipulações, o que não pode ser aceito de forma alguma no âmbito de uma sociedade minimamente civilizada, nem muito menos pelos cristãos.

O Compêndio da Doutrina Social da Igreja Católica (cf. parágrafos 164-196) elenca outros princípios decorrentes do princípio da dignidade humana e da igualdade entre as pessoas. São fundamentais para a construção de um mundo mais justo e humano. São eles:

  1. Defesa do bem comum, ou seja, o conjunto de condições da vida social que permitem, tanto aos grupos, como a cada um dos seus membros, atingir mais plena e facilmente a própria perfeição.
  2. A destinação universal dos bens como uma das implicações do princípio do bem comum. O Concílio Vaticano II afirma: “Deus destinou a terra e tudo o que ela contém para o uso de todos os homens e de todos os povos, de sorte que os bens criados devem chegar equitativamente às mãos de todos, segundo a regra da justiça, inseparável da caridade” (Gaudium et spes, 69).

A origem primeira de tudo o que é bem é o próprio ato de Deus que criou a terra e o homem, e ao homem – a todos o homens, não somente a alguns privilegiados – deu a terra para que a cuide com o seu trabalho e goze dos seus frutos (Cf. Gn 1, 28-29).

Isso requer que se cuide com especial solicitude dos pobres, daqueles que se acham em posição de marginalidade e, em todo caso, das pessoas cujas condições de vida lhes impedem um crescimento adequado. Trata-se da opção preferencial pelos pobres como programa de ação política cristã e do combate às desigualdades sociais.

  1. Valorização da sociedade civil, entendida como o conjunto das relações entre indivíduos e entre sociedades intermédias. Ou seja, trata-se de assegurar a existência e o livre funcionamento das organizações e grupos, tais como famílias, sindicatos, associações, partidos políticos, movimentos populares, culturais, esportivos, no seio da sociedade (cf. João Paulo II, Sollicitudo rei socialis, 15).
  2. Valorização da participação do cidadão na vida social como indivíduo ou associado com outros, diretamente ou por meio de representantes. Tal participação contribui para a vida cultural, econômica, política e social da comunidade civil e para a realização do ideal do bem comum.

Veja que este princípio da participação não é, como muitos dizem, uma artimanha ideológica tramada para impor limites à democracia. Muito pelo contrário. Trata-se de um princípio de primeira ordem da doutrina social da Igreja. O cristão deve se comprometer com este ideal da participação.

  1. A solidariedade como expressão prática da interdependência entre as pessoas e povos. O individualismo e a busca solitária de soluções para os problemas sociais é ineficaz pelo simples fato de desconsiderar a interdependência entre as formas de vida no planeta.

A solidariedade, como princípio social e virtude moral, é o caminho para a superação das desigualdades muito fortes entre pessoas e grupos, e entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento.

  1. A participação na construção de uma sociedade democrática. Trata-se de uma das pilastras de todos os ordenamentos democráticos, além de ser uma das maiores garantias de permanência da democracia. Sem a participação dos cidadão não há democracia, há dominação de uns sobre os outros. Sem participação há sempre a tentação de confiar os destinos do povo a ditadores, como fazem os que pedem intervenção militar como forma de solução dos conflitos e crises.

Mas a participação, para ser construtiva, deve ser livre e consciente, sem as manipulações dos aparelhos ideológicos, tais como as trapaças dos monopólios midiáticos que servem à turma do dinheiro grosso e escondem a verdade da população.

Há manipulações grosseiras, como, p. ex., o combate seletivo à corrupção. O combate seletivo é antidemocrático. Ilude o povo em torno da nobre iniciativa do combate à corrupção, mas poupa políticos e grupos corruptos que defendem interesses contrários aos interesses econômicos da população.

A participação social não pode ser ingênua. O cristão deve agir com sabedoria. Os poderosos não lutam suas guerras, querem que o povo o faça por eles.

Os cristãos, conscientes destes princípios, e comprometidos com eles, podem agir no campo da política com mais lucidez e serenidade, com o único objetivo de buscar soluções mais humanas para os problemas sociais.

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