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Igreja e Sociedade

07/03/2014

Fraternidade e Tráfico de Seres Humanos: “Onde está o teu irmão?”

Por Valdecir Luiz Cordeiro

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O tráfico de seres humanos cerceia a liberdade e despreza a dignidade das pessoas. É inacreditável que isto ainda ocorra no mundo de hoje. O Papa Francisco definiu de forma contundente a natureza degradante dessa prática: “O tráfico de pessoas é uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas!”. A Campanha da Fraternidade deste ano, promovida pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), quer chamar a atenção da sociedade para a gravidade deste problema.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que esta prática criminosa movimenta 32 bilhões de dólares anuais, em escala mundial. Milhões de pessoas são traficadas para a exploração no trabalho, exploração sexual, extração de órgãos, e crianças e adolescentes são destinadas para adoções ilegais.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 20,9 milhões de pessoas são vítimas da exploração do trabalho escravo no mundo. Embora nem todo o trabalho forçado resulte do tráfico de pessoas, este dado nos ajuda a ter uma percepção da dimensão do problema. Os traficantes se aproveitam da vulnerabilidade econômica das pessoas para aliciá-las. No Brasil, entre os anos de 2003 e 2012, foram registrados 62.802 casos de pessoas em trabalho escravo ou análogo ao escravo, sendo que 95% são homens. Muitos são estrangeiros, principalmente peruanos e bolivianos.

Os dados da exploração sexual, seja no Brasil, seja no mundo, são difíceis de dimensionar. Mas se sabe que nesta modalidade de tráfico humano a maioria são mulheres (85%). A palavra “prostituição” faz pesar sobre as vítimas desta modalidade um duro juízo negativo e enorme carga de preconceito.

Na base desta problemática está a visão individualista da vida e a ideologia do lucro sem limites. Até mesmo o ser humano é visto como uma mercadoria. O tráfico humano se insere neste contexto mais amplo de exploração do homem sobre o homem. É importante denunciar esta prática criminosa, e libertar as pessoas exploradas. Mas também é necessário superar a cultura da exploração que está na base da organização econômica do mundo atual.

O capitalismo globalizado tem se mostrado violento. Os 300 maiores bilionários da atualidade fecharam o ano de 2013 com uma fortuna de 3,7 trilhões de dólares, o equivalente a mais que o dobro do PIB da África. Os 65 brasileiros bilionários acumulam juntos uma fortuna de 191,5 bilhões de dólares, mais que a metade das reservas do Brasil, que em janeiro somavam 375,4 bilhões. São alguns dados de uma lógica de dominação.

O cientista político Leonardo Sakamoto e o Frei dominicano Xavier Plassat escreveram sobre a nossa responsabilidade no tráfico de pessoas. Concordamos com eles quando afirmam que não podemos permanecer indiferentes diante desta prática criminosa. A pergunta de Deus a Caim – “onde está o teu irmão?” – ainda soa com atualidade. Os autores recordam que José, filho do patriarca Jacó, vendido aos egípcios pelos seus irmãos, é a primeira vítima bíblica do tráfico de pessoas. Hoje em dia, José ainda é traficado pelo mercadores de gente, que se empenham em fazer funcionar as engrenagens do sistema econômico injusto. “E, você, que veste as roupas produzidas por tantos Josés, come o fruto de seu trabalho e mora em residências erguidas por suas mãos, saberia responder onde, neste momento, está teu irmão e tua irmã?”

Neste contexto, a Igreja deve ser sinal de esperança para as pessoas. “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1), diz o apóstolo Paulo. Na perspectiva do evangelho, é livre quem luta pela liberdade dos outros (Lc 9,22-25). Espera-se que a Campanha da Fraternidade contribua no sentido de dar uma forma concreta ao ideal da solidariedade, de modo que a experiência da liberdade cristã alcance a comunidade humana, e tenha como resultado a libertação de todos os que são explorados.

7/3/2014

Ir. Cristina

Boa reflexão. Nos unamos então nessa luta que é de todos.