Colunistas

Igreja e Sociedade

20/06/2014

A Copa do Mundo é pecado?

Por Valdecir Luiz Cordeiro

Indicar a um amigo:





Uma pessoa me advertiu, em nome de sua fé cristã, que “a Copa é do mundo”, ressaltando, com a expressão “é do” mundo, o caráter mundano e supostamente pecaminoso do campeonato mundial de futebol. Mas será que a Copa é pecado? Dá para torcer sem culpa?

A verdade é que, descontadas as vicissitudes eventualmente presentes na organização e no decorrer do evento, no centro da Copa está a dimensão lúdica do ser humano, que deve ser valorizada. Até o Papa é torcedor.

O jogo, entendido como brincadeira, é coisa de Deus. O livro dos Provérbios afirma que a Sabedoria de Deus brinca, joga (8,22-33). Enquanto Deus criava o mundo, a sua Sabedoria “brincava sobre a superfície da terra” (8,31). Por conseguinte, não faz sentido dizer que o jogo é pecado, pois a dimensão lúdica explicita o caráter relacional da humanidade, a gratuidade e a novidade, que são dons de Deus.

O jogo é relacional. Ninguém joga sozinho, nem mesmo Deus. Isto fica claro na relação entre Deus e o mundo criado. Ao decidir criar, Deus se dispõe livremente a jogar com a sua criação.

Esvazia-se de sua onipotência e onipresença para permitir a existência das criaturas.

Para jogar com as criaturas, Deus respeita as leis da natureza. Do ponto da vista da ética, o jogo de Deus se dá no reconhecimento do outro. O desejo de ilimitação é o anti-jogo, pois elimina o outro ao negar o caráter relacional da existência humana.

O jogo é esvaziamento de si e abertura para o outro. O individualismo, que se materializa na falta de entrosamento, e a brutalidade, que se manifesta nas faltas graves, são atitudes a serem refreadas em prol do bom jogo.

Neste sentido, a Copa pode ser vista como uma grande expressão do reconhecimento da diversidade dos povos, sintetizada em cada jogo.

No jogo, a vitória não anula o rival, o vencido não absolutiza o vencedor. O jogo é como um rio. Os rivais são as margens que ladeiam o fluxo caudaloso do jogo. A limitação do tempo, materializada no apito final, cria a noção de vitória da qualidade sobre a mediocridade. Uma metáfora do fim último da existência, quando todo o amor vivido se manifestará em plenitude.

O jogo é gratuidade. É significativo, mas não necessário. O jogo – a brincadeira – é graça. A liberdade de Deus diante da criação nos ajuda a compreender o assunto. A criação não é simplesmente uma obra situada num passado primordial, levada a cabo por um Ser onipotente. Fosse assim, tudo estaria pronto e acabado. Mas não.

O jogo da criação se prolonga na história mediante a colaboração entre Deus e os seres humanos. É um jogo, uma brincadeira, pois nenhum dos parceiros está obrigado a jogar.

Assim são também as brincadeiras das crianças nos intervalos das aulas, na escola, bem como qualquer jogo. Ninguém é obrigado a entrar na pelada de futebol. E se for, o jogo perde a graça.

O jogo é novidade. Não é possível planejar e prever tudo. Jamais um jogo se repetirá. Há enorme espaço para a criatividade. O planejamento, o esquema tático, é uma poderosa força sobre o talento, como as leis naturais que mantém a posição dos astros nas galáxias. Mas, quando o jogo é jogado, brilha a estrela dos craques. Até mesmo jogadores medianos podem brilhar. É o triunfo da criatividade sobre a enorme força dos esquemas e protocolos que aprisionam o espírito.

A conjugação dessas três dimensões – reconhecimento da alteridade, afirmação da gratuidade e abertura à novidade – torna o jogo uma atividade altamente humanizadora.

O reconhecimento do outro, inerente ao jogo, pode ser visto como um elemento de resistência a certo tipo de globalização econômica que massifica e domina os povos. Paradoxalmente, o jogo é a rebeldia do espirito humano contra o “padrão Fifa”.

Há enorme peso da padronização na Copa. O idioma oficial, os protocolos, o mesmo tempo reservado ao hino nacional de cada seleção, ignorando que cada hino tem seu tempo, porque cada nação tem sua história etc. Mas, no jogo, cada time é um time, cada torcida, uma torcida. O jogo é a síntese das diferenças.

A gratuidade do jogo, a não obrigação de jogar, o fazer por brincadeira, é um elemento essencial para que o jogo não seja mera euforia social. A atividade lúdica é resistência à tendência do sistema a reduzir o ser humano à rotina do chão de fábrica. O jogo transcende esse mundo altamente organizado e estruturado por rígidas leis administrativas. O jogo é flexível, nele o homem cria o inesperado, o espetáculo, o gol.

1 comentário

Copa pecado

30/6/2014

lúcio

1. Sim. Padre mas o jogo leva a brigas e violências que muitas vezes levam a morte... o que o senhor nos diz disso. 2. E o Dia Santo do Senhor que eh mandamento de Deus, o S'abado ? ser'a que o dia de adorarmos a Deus assistir o jogo não eh pecado? temos que meditar na Bíblia pois ela nos direcional informando, importa agradar a Deus que os homens.