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Catequese

10/10/2017

A fé cristã têm algo a receber

Por Solange Maria

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O diálogo é uma troca; é um intercâmbio não de informações ou de notícias, mas de experiências de vida. No diálogo a gente não oferece palavras, notícias, dados ou conhecimentos; a gente se oferece como dom e acolhe o outro como dom também. Seria muita pretensão nossa – aliás, pretensão nada evangélica – achar que nós cristãos estamos plenos e que a oferta do diferente não nos interessa. Um seguidor de Jesus deve saber que o Mestre de Nazaré estava sempre aprendendo. Não poucas vezes os evangelistas nos noticiam que Jesus “crescia em sabedoria e graça” (cf. Lc 2,52), que mudava de opinião quando encontrava alguém capaz de interpelá-lo (cf. Mc 7,24-30).

A fé cristã é uma preciosidade, já afirmamos várias vezes. Ela é uma oferta de sentido que tem respondido aos anseios de milhões de pessoas há dois mil anos. Mas o fato de ela ser uma oferta de sentido que nos plenifica não significa que ela se baste. Ao contrário, é exatamente por sua abertura, por sua maleabilidade, por sua capacidade de adaptação à história, que a fé cristã responde aos nossos anseios mais atuais. Ela não é um conjunto de normas ou um bloco fechado de prescrições que não se amolde ao tempo presente. Foi interagindo com as culturas que a fé cristã mostrou sua força. No começo, precisou dialogar com o judaísmo; depois precisou ir ao encontro dos gentios e da cultura grega. Ao longo dos anos, atravessou fronteiras, andou sobre águas oceânicas até chegar aos confins da terra, em continentes distantes, fazendo-se presença nas culturas mais diversas e aprendendo com elas. Não é de hoje que a fé cristã dialoga, aprende com o outro, acolhe o diferente. E, quando não o fez, os resultados foram funestos: inquisição e guerras santas (que, de santa, nunca tiveram nada a não ser o nome para camuflar interesses escusos).

 Entrar em diálogo com o outro é acolhê-lo como dom. A fé cristã é bela, mas tem muito a aprender. A oferta generosa do outro não deve ser descartada, desprezada ou diminuída. Ao longo da história, aprendemos a ser mais humanos com a humanidade; aprendemos a ser mais cristãos com os não-cristãos; reconhecemos nossos erros e limites na crítica fundamentada de muitos que não professam a fé cristã. Nós cristãos devemos estar sempre de mãos estendidas, em atitude de generosa acolhida, para receber o que a humanidade inteira compartilha como sabedoria. Não fomos nós quem inventamos o bem. Nós não somos os únicos capazes de amar. Não é interesse só dos cristãos que o mundo seja melhor e mais fraterno. Por exemplo, não foi a Igreja quem descobriu os direitos humanos ou falou de ecologia pela primeira vez. Não foi a fé cristã quem primeiro lutou no Brasil pela libertação dos escravos. Não fomos nós os cristãos quem empreendemos a causa dos operários em luta de direitos trabalhistas. Não! Nós reconhecemos esses valores na sociedade, no mundo, em outros grupos e agremiações, inclusive religiosas e, percebendo que eram valores compatíveis com o evangelho, nós os abraçamos como nossa causa também, pois tudo que é verdadeiramente humano é divino. A fé cristã não se cansa de aprender. Se hoje a Igreja tem belas encíclicas sobre os direitos humanos (Doutrina Social da Igreja), foi porque assumiu como sua a luta de outros grupos e pessoas que nem são católicos ou cristãos. Se hoje o papa Francisco escreve a Laudato Si foi porque muitos não cristãos empreenderam a causa da ecologia antes dele. É bom permanecer sempre com as mãos estendidas, não só para se ofertar como dom ao outro, mas para humildemente recebê-lo como dom de Deus.

4 comentários

18/10/2017

Angelo Marchi Neto

Achei este texto extraordinårio. Fåcil de ler. É uma aula de catequese para adultos como eu. Srmpre aprender. Sempre amar outro como Jesus ensinou.

2/11/2017

Carlos André Cavalcante e Silva

Um texto com argumentos nobres e angelical. A irmã foi muito feliz e bastante ungida na produção desses inefáveis argumentos.

4/11/2017

IRAZÊ APº. ARANTES

É por essas e outras [...reflexões.] que cada vez me aproximo mais cristianismo católico. Se reconhecer como um aprendiz, também é dom de Deus. Abraços.

10/2/2018

Tiago Amaral

A reflexão foi ótima. Dialogar é permitir ser um dom total entrega para o outro sem exigir nada em troca. Talvez esteja nisto aqui o melhor exemplo do ecumenismo. Muitos segmentos da própria Igreja possui repulsa pelo ecumenismo, mas acredito que estejam enxergando mal o sentido ecumênico. Ele não representa uma ruptura com a santa Tradição da Igreja, mas o ecumenismo nos dispõe, de maneira humilde, a reconhecer o próximo para, a partir daí, obter uma relação de amizade. Vemos, no contexto bíblico, o episódio do encontro de Jesus com a samaritana o melhor exemplo de ecumenismo. Ela, gentia, portanto pagã, recebe o acolhimento de Jesus. Mesmo ela estando nesta condição, Jesus é para ela, dando-lhe inteiramente de si, sem hesitação, de maneira livre e generosa. Assim Ele a acolhe, a escuta, a vê, para depois dar-lhe a vida. Eis a verdadeira experiência cristã que dialoga, sem medo, e permite o intercâmbio de experiências de vida.