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Teologia

29/04/2019

Fé, verdade e cultura em Bento XVI

Por Rudy Assunção

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Para Bento XVI, o que é cultura? O conceito de J. Ratzinger – para começar com a sua teologia – está bem expresso e sistematizado na obra Fé, verdade e tolerância[1]. Na referida obra, Ratzinger parte de uma clara defesa do universalismo cristão e, é claro, da missão cristã.

O universalismo cristão

A mensagem cristã é destinada a todos os povos e isso faz parte do mandato do próprio Jesus; não fazê-lo implicaria falsear ou não corresponder à vontade expressa de Cristo. Ele dizia: “O ponto de partida do universalismo cristão não foi a vontade de poder, mas a certeza de ter recebido o conhecimento salvador e o amor redentor, aos quais todas as pessoas têm direito e pelo qual esperavam no mais íntimo do ser. A missão não foi considerada como uma aquisição de pessoas para seu âmbito de poder, mas como transmissão obrigatória do que estava destinado a todos e de que todos careciam”[2]

O caráter missionário e universal da mensagem cristã obriga a pensar na correlação entre religião e cultura. Como a mensagem cristã pode se encarnar em culturas distintas? Isso só é possível com certo processo de enculturação ou interculturalidade. Ratzinger diz: “A enculturação pressupõe, então, a universalidade potencial de cada cultura”[3]. O teólogo bávaro mostra que o valor de uma cultura está precisamente em sua abertura a outras. O encontro entre a fé cristã e outra religião, com a cultura da qual ele vive, depende que elas – nas palavras de Ratzinger – “não se achem em uma relação de absoluta alteridade, mas que nelas exista uma abertura interna mútua”[4]. Assim, não é suficiente a universalidade do cristianismo, mas é requerida uma abertura da cultura a que ele se dirige.

Cultura: conhecimento e valores; relação com o divino; historicidade

Mas, afinal, qual o conceito de cultura de Ratzinger? Segundo ele, a “cultura é a forma de expressão comunitária, desenvolvida historicamente, que marca com seu cunho os conhecimentos e valores de uma vida em comunidade”[5]. Ele desenvolve alguns elementos desta definição. São três especificamente:

  1. a) a cultura está relacionada com o conhecimento e com os valores, pois é uma tentativa de entender o homem e o mundo. Ou seja, o modo como o homem se insere no mundo e como conhece também a forma correta da comunidade onde vive. O indivíduo depende da comunidade para ser feliz. E mais, a cultura é um conhecimento aberto à práxis ou seja, refere-se à dimensão ético-moral. Ratzinger aqui recorda que a reflexão sobre o homem e o mundo está contemplada a questão da divindade. Não há como entender o mundo sem dar uma resposta a ela. Assim, o núcleo das grandes culturas está determinado por sua relação com o divino[6].

Portanto, o segundo elemento explorado por Ratzinger é aquele pelo qual b) a cultura pressupõe ultrapassar o invisível; em seu núcleo está a abertura ao divino. Isso faz com que o indivíduo se sinta suportado por um “sujeito comunitário maior”, que o ampara com os seus conhecimentos. Ele deve aproveitar de conhecimentos que ultrapassam a própria capacidade; assim é que historicamente muitas culturas sempre se valeram da “sabedoria dos ‘antigos’”, expressas muitas vezes por revelações (ou seja, não são fruto da reflexão humana).

O terceiro elemento aprofundado por Ratzinger é do que c) a cultura está relacionada com a história pois a comunidade progride no tempo. Ela deve ter capacidade de progredir, de transformar-se por meio do encontro. Ele ressalva que há culturas cósmico-estáticas e históricas. Mas a cultura judaica e cristã se insere no segundo grupo, enquanto as culturas pré-escrita na primeira.

De qualquer modo, todas as religiões possuem uma “dinâmica de advento”[7] que aponta para Jesus Cristo, a Verdade encarnada.

Interculturalidade e verdade

 A defesa de Ratzinger é de que as culturas têm a sua individualidade, vinculada a determinado sujeito cultural e está aí a raiz da pluralidade cultural. Sua defesa reside na interculturalidade, não na a inculturação. Diz ele: “A inculturação pressupõe a substituição de uma fé por assim dizer culturalmente nua, por uma cultura indiferente religiosamente, onde dois sujeitos até agora estranhos se encontram e se fundem numa síntese”. No entanto, nem uma nem outra existem deste modo. Por isso asseverava: “não existe fé livre de cultura e também porque não há cultura livre de fé, fora a civilização técnica”[8]. A questão da técnica aparecerá mais adiante, de qualquer modo, Ratzinger defende que a própria fé cristã tem elementos culturais específicos. Posso citar o encontro cultural providencial entre a herança judaica e a herança grega, tão determinante para a configuração do cristianismo nascente em meio ao panteão religioso da antiguidade. Mas também as culturas, formadas na maior parte das vezes a partir de concepções religiosas, têm em si elementos que as tornam abertas a outras. Ou seja, para Ratzinger, “a referência ao metafísico não pode ser evitada. O encontro das culturas é possível porque, em todas as suas diferenças históricas e nas suas formações comunitárias, o homem é um só, uma única e mesma essência”[9].

Por isso é fundamental a busca comum pela verdade. Aí reside a sua complementaridade mútua. Por isso ele fala “da unidade da essência humana e da sua capacidade de ser ocultamente tocada pela verdade, por Deus”[10]. A interculturalidade só é possível se a fé cristã, portadora da mensagem da Verdade em pessoa, encontra-se com uma cultura aberta à verdade, que a busca, ainda que tateando. Nesse sentido Ratzinger mostra o grande desafio que é o diálogo do cristianismo com a cultura técnica vigente que renunciou à verdade, que a considera um objetivo demasiado alto e demasiado pretensioso para os esforços da razão humana, que se contenta na maior parte das vezes com o pragmatismo do factível e com a utilidade.

Ratzinger insiste: “O encontro das culturas é possível porque, em todas as suas diferenças históricas e nas suas formações comunitárias, o homem é um só, uma única e mesma essência. Essa essência única ‘homem’ é tocada no fundo da sua existência pela verdade mesma”[11].

A relação entre fé e cultura

 Só assim se entende corretamente a relação entre fé e cultura. A elevação de uma cultura está na sua abertura à verdade. Obscurecê-la leva à miséria do homem. Ratzinger dizia que “a fé mesma é cultura. Não existe uma fé nua, como mera religião”; “a fé cria cultura, é cultura”[12]. A Igreja é um “sujeito cultural” que engloba indivíduos de etnias e localidades distintos. E aquele que se une à ela manterá sua dupla pertença, viverá em dois sujeitos culturais: “no sujeito histórico e no novo sujeito da fé, que nele se encontram e se compenetram”[13]. Por isso a fé não está em busca de uma cultura de empréstimo. A fé não é o espírito e a cultura o corpo. Isso não corresponde à universalidade da fé cristã. “Se a cultura é mais do que mera forma ou mera estética, se ela é, antes, uma coordenação dos valores numa forma histórica de vida, e se não se pode prescindir da questão do divino, então não se pode passar por cima o fato de a Igreja ser para os crentes um sujeito cultural próprio”[14]. E acrescentava: “Quem ingressa na Igreja há de estar consciente de que ingressou num sujeito cultural próprio, nascido historicamente, com uma interculturalidade própria e com múltiplos níveis. Sem certo ‘êxodo’, sem uma mudança radical de vida em todas as suas relações, ninguém pode tornar-se cristão. Porquanto a fé não é um caminho particular para Deus; a fé conduz para dentro do povo de Deus e de sua história”[15].

A interpretação ratzingeriana é cristológica: o próprio Cristo vinculou-se à história; seu corpo glorioso na eternidade, por meio de sua “carne”, conserva as marcas de sua história e cultura. “Cristo permanece ele mesmo, também na carne”[16]. A Igreja não é uma “estrutura cultural própria, mas compõe-se de todos os povos”[17]. E isso Cristo inclui no seu próprio corpo. Sendo a Igreja corpo de Cristo, nele está a pluralidade dos povos abarcada pela unidade dela. É assim que “a encarnação de Cristo, o Logos, chegue a sua plenitude total”[18].

A relação entre fé e cultura técnica

 Um dos pontos mais importantes da reflexão de Ratzinger é que, agora, a fé deve dialogar com a cultura técnica. E uma das notas dominantes desta nova cultura é o relativismo, que vai em duas direções: o questionamento da verdade, repropondo insistentemente a pergunta de Pilatos – “O que é a verdade?” (Hans Kelsen). A pluralidade das culturas seria prova da relatividade de cada uma delas. “A cultura é contraposta à verdade”[19]. Todo o resto é entendido como eclesiocentrismo, cristocentrismo, teocentrismo. A segundo direção é aquela que ataca a missão. Esta última passa a ser entendida como “uma crua arrogância de uma cultura que se julga superior…”[20].

Neste caso Ratzinger defende que algumas pessoas não podem ser declaradas como “uma espécie de parque natural protegido em relação à história de sua cultura e de sua religião, para evitar que os tempos modernos penetrem em tais âmbitos”[21]. Ratzinger defende o encontro das culturas. É essencial. E uma das principais críticas ratzingerianas é precisamente que não se pode querer impor a moderna civilização técnica a uns e confinar outros num sonho romântico pré-tecnológico[22].

Segundo ele, a própria técnica não é religiosamente neutra. Também ela é, caracteristicamente, ocidental[23].  Não é conciliável o ressurgir de antigas religiões pré-técnicas e a afirmação de uma civilização técnica. Por isso Ratzinger tem alertado há tempos para uma crescente paganização ocidental.

Nesse sentido, o cristianismo está mais vinculado às antigas culturas do que com o mundo relativista e racionalista, pois este cortou seus laços dos conhecimentos das evidências morais originárias.

De qualquer modo só o cristianismo possibilita a verdadeira síntese entre racionalidade técnica e religião, pois ele conjuga uma visão racional sobre o mundo com a convicção de que a verdade existe. O cristianismo não renuncia à razão e, por isso, não renuncia à verdade que lhe une a todas as culturas realmente abertas.

[1] RATZINGER, J. Fé, verdade, tolerância. O cristianismo e as grandes religiões do mundo. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2007.

[2] Ibid., p. 55.

[3] Ibid., p. 59.

[4] Ibid.

[5] Ibid.

[6] Cf. Ibid., p. 60.

[7] Ibid., p. 61.

[8] Ibid., p. 62.

[9] Ibid., p. 63.

[10] Ibid., p. 64.

[11] Ibid., p. 63.

[12] Ibid., p. 65.

[13] Ibid., p. 66.

[14] Ibid., p. 67.

[15] Ibid., p. 68-69.

[16] Ibid., p. 69.

[17] Ibid.

[18] Ibid.

[19] Ibid., p. 70.

[20] Ibid., p. 71.

[21] Ibid., p. 73.

[22] Cf. Ibid., p. 73.

[23] Cf. Ibid., p. p. 74.

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