Colunistas

Teologia

22/05/2018

Duas Grandes Lições da Mariologia de Bento XVI

Por Rudy Assunção

Indicar a um amigo:





O teólogo Joseph Ratzinger sempre deixou muito claro que a sua espiritualidade foi, desde a mais tenra idade, marcada por um acentuado cristocentrismo, oriundo sobre do movimento litúrgico[1] que se manifestava com muita força na vida eclesial do início do século XX. Com isso, a sua piedade mariana, por assim dizer, foi crescendo e amadurecendo com o tempo.[2] Podemos, portanto, haurir de sua obra algumas intuições fundamentais para desenvolver uma autêntica relação com a Mãe de Deus.

Jesus e Maria: a maternidade dela defende a divindade d’Ele

 Lendo suas obras eu poderia dizer que o seu pensamento no campo da mariologia está dominado por duas notas, por duas afirmações. A primeira delas diz respeito a tão debatida e mais evidente relação entre Jesus e Maria. Muitos colocam a devoção mariana em oposição à centralidade e ao senhorio de Jesus, como se entre os “papéis” de Mãe e Filho pudesse se instalar uma instransponível controvérsia teológica. No entanto, o esclarecimento (e também a defesa, inclusive apologética) acerca da identidade de Jesus se deu também por ocasião da formulação e expressão dos dogmas marianos. Em termos históricos e teológicos, o Concílio de Éfeso (431) completa e esclarece Niceia (325).[3]

Por isso, em seus estudos sobre Maria Santíssima, o teólogo Ratzinger defendia que a melhor forma de defender a divindade de Jesus é aprofundando a maternidade divina de Maria. Em seu opúsculo A filha de Sião – carregado de densidade e de beleza – ele dizia que “o axioma cristológico da encarnação de Deus em Cristo se torna necessariamente mariológico, o que, na verdade, já era desde o início. Mas o contrário também é verdade: somente quando a cristologia é entendida de um modo tão radical que também chega a Maria e se torna mariologia, esta mesma, a mariologia, adquire a radicalidade que deve ter, de acordo com a fé da Igreja. O surgimento de um sentido realmente mariológico é a medida para sabermos se o conteúdo cristológico está plenamente presente”.[4] E com toda a sua capacidade de síntese ele dizia: “A cristologia foi defendida, então, na mariologia…”.[5] Ou seja, toda a teologia sobre Maria nada mais é que uma tentativa permanente de aprofundar o mistério de Cristo, que não nos desvia de sua mediação redentora única e insubstituível.

Maria e a Igreja: a Filha de Sião é a primeira Igreja

             A conexão de Maria com a Igreja é outro tema dominante da mariologia ratzingeriana, que apareceu também em seu magistério. Ratzinger lembra que a decisão dos Padres conciliares do Vaticano II de dedicar um capítulo  da Constituição Lumen gentium – o VIII –   à Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja implicou uma fusão da mariologia na eclesiologia: no discurso sobre a Igreja está integrada a Ecclesia caelestis.[6] Como Papa, na Solenidade da Imaculada Conceição nos 40 anos de encerramento do Concílio, ele recordava precisamente o mesmo: “O Concílio queria dizer-nos isto: Maria está tão entrelaçada no grande mistério da Igreja, que ela e a Igreja são inseparáveis, da mesma forma que ela e Cristo são inseparáveis. Maria reflete a Igreja, antecipa-a na sua pessoa e, em todas as turbulências que afligem a Igreja sofredora e fatigante, permanece sempre a sua estrela da salvação. Ela é o seu verdadeiro centro em que confiamos, embora muitas vezes a sua periferia pesa na nossa alma”.[7]

            Voltando ao seu pensamento teológico – expresso na obra Maria, primeira Igreja –, no qual ele se dedicava ao lugar da mariologia na teologia, ele lembrava que já na Patrística “tudo o que mais tarde será mariologia foi primeiro pensado como eclesiologia”[8], advertindo ao mesmo tempo que “a mariologia não pode ser nunca meramente mariológica, pois se situa na totalidade da articulação fundamental entre Cristo e a Igreja, e é a expressão mais concreta dessa conexão”.[9]

            Assim, nossa devoção à Mãe de Deus e da Igreja pode encontrar nestes dois pontos expressos por Ratzinger-Bento XVI um fundamento sólido para o seu desenvolvimento, ficando assim radicada na Sagrada Escritura e na reflexão dos Padres da Igreja.

[1] O principal histórico do Movimento Litúrgico está disponível em língua portuguesa: BOTTE, Bernard. O movimento litúrgico: Testemunhos e recordações. São Paulo: Paulinas, 1978.

[2] Um estudo amplo e introdutório sobre a mariologia de Ratzinger está em: BLANCO, Pablo. María en los escritos de Joseph Ratzinger. Scripta de Maria: Revista del Instituto Mariológico de Torreciudad, serie II, número V, año 2008. O mesmo texto foi reproduzido com alterações em: Id., La Teología de Joseph Ratzinger: una introducción. Madrid: Palabra, 2011, p. 288-301.

[3] Sobre a história dos Concílios até o Vaticano I sugiro JEDIN, Hubert. Os concílios ecumênicos. São Paulo: Herder, 1961.

[4] RATZINGER, Joseph. A filha de Sião: a devoção mariana na Igreja. São Paulo: Paulus, 2013, p. 26-27.

[5] Ibid., p. 27.

[6] Cf, Id., Obras Completas VII/1: Sobre la enseñanza del Concilio Vaticano II. Madrid: BAC, 2013, p. 335.

[7] BENTO XVI, Homilia, 8 de dezembro de 2005.

[8] RATZINGER, Joseph; BALTHASAR, Hans Urs. Maria, primeira Igreja. Coimbra: Gráfica de Coimbra 2, 2004, p. 23.

[9] Ibid., p. 25.

nenhum comentário