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Teologia

04/12/2018

A Leitura e a Interpretação Eclesial da Sagrada Escritura de Bento XVI (parte III)

Por Rudy Assunção

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Somente com a aproximação da Escritura que foi explorada na parte II –que vai muito além de um interesse puramente histórico e quase arqueológico – é que se capta o verdadeiro sentido da “Palavra de Deus, que é Cristo em pessoa”[1]. Para compreender tal “cristologia da Palavra” se pode recorrer à riquíssima Exortação Apostólica Pós-Sinodal Verbum Domini[2].

O casamento entre método histórico-crítico e o método teológico

Recordando o Sínodo, do qual nasceu a Exortação, Bento XVI oferece uma “fórmula”, por assim dizer, referente ao modo correto de se apropriar da Palavra de Deus: “Um aspecto sobre o qual muito se refletiu foi a relação entre a Palavra e as palavras, ou seja, entre o Verbo divino e as escrituras que o exprimem. Como ensina o Concílio Vaticano II na Constituição Dei Verbum (n. 12), uma boa exegese bíblica exige quer o método histórico-crítico quer o teológico, porque a Sagrada Escritura é Palavra de Deus em palavras humanas. Isto exige que cada texto deva ser lido e interpretado tendo presentes a unidade de toda a Escritura, a tradição viva da Igreja e a luz da fé. Se é verdade que a Bíblia é também uma obra literária, aliás, o grande código da cultura universal, é também verdade que ela não deve ser despojada do elemento divino, mas deve ser lida com o mesmo espírito no qual foi composta. Exegese científica e lectio divina são portanto ambas necessárias e complementares para receber, através do significado literal, o espiritual, que Deus nos quer comunicar hoje”[3]. Em outras palavras, ler de forma realmente católica a Bíblia exige ciência e oração; método científico de um lado e lectio, a meditatio, a oratio e a contemplativo de outro[4]. O cientista não deve dispensar o genuflexório, do mesmo modo que o orante não deve rejeitar a escrivaninha.

Assim é que Bento XVI pede uma verdadeira exegese teológica:

“A nossa exegese fez grandes progressos; sabemos deveras mui­to sobre o desenvolvimento dos textos, sobre a subdivisão das fontes, etc., sabemos qual o significado que pode ter tido a palavra naquela época… Mas vemos também cada vez mais que a exegese histórico-crítica, se permanecer apenas histórico-crítica, remete a palavra para o passado, torna-a uma palavra daquele tempo, uma palavra que, no fundo, não nos diz nada; e vemos que a palavra se reduz a fragmentos porque, precisamente, se desfaz em tantas fontes diversas. O Concílio, a Dei Verbum, disse-nos que o método histórico­-crítico é uma dimensão essencial da exegese, porque pertence à natureza da fé a partir do momento que ela é factum historicum. Não cremos simplesmente numa ideia; o cristia­nismo não é uma filosofia, mas um acontecimento que Deus colocou neste mundo, é uma história que Ele formou de modo real e forma como história juntamente conosco. Por isso, na nossa leitura da Bíblia o aspecto histórico deve verdadeiramente estar presente na sua seriedade e exigência: devemos efetivamente reconhecer o acontecimento e, precisamente, ‘fazer história’ por Deus no seu agir. Mas a Dei Verbum acrescenta que a Escritura que, por conseguinte, deve ser lida segundo os métodos históricos, deve ser lida também como unidade e deve ser lida na comunidade vivente da Igreja. Faltam estas duas dimensões em grandes setores da exegese. A unidade da Escritura não é um fato meramente histórico­-crítico, mesmo se o conjunto, também sob o ponto de vista histórico, é um processo interior da Palavra que, lida e compreendida sempre de novo durante sucessivas releituras, continua a maturar. Mas esta unidade é, em definitiva, precisamente, um fato teológico: estes escritos são uma única Escritura, só compreensíveis profundamente se forem lidos na analogia fidei como unidade na qual há um progresso para Cristo e, inversamente, Cristo atrai para si toda a história; e se, por outro lado, isto tiver a sua vitalidade na fé da Igreja. Por outras palavras, é meu grande desejo que os teólogos aprendam a ler e a amar a Escri­tura do modo como, segundo a Dei Verbum, o Concílio quis: que vejam a unidade interior da Escritura uma coisa hoje ajudada pela ‘exegese canônica’ (que sem dúvida ainda se encontra num tímido estágio inicial) e que depois façamos dela uma leitura espiritual, que não é algo exterior, de carácter edificante, mas ao contrário, um imergir-se interiormente na presença da Palavra”[5]. É assim que nasce igualmente uma homilia digna, adequada.

         Se os pregadores tiverem noção dessa unidade dos Testamentos será mais fácil introduzir os fiéis nas ligações que existem as leituras de ambos os testamentos colocadas à nossa disposição na liturgia. Verão que os Profetas (Primeira Leitura) e o Apóstolo (Segunda Leitura) falam de Cristo (Evangelho) e conduzem a Ele, conforme a compreensão da Igreja antiga. E verão ainda que esta Palavra é verdadeiramente atual, pois fala não uma história passada, mas antes de uma história de salvação, na qual estamos inseridos.

[1] Id., Angelus, 25 de outubro de 2008.

[2] Cf. nn. 11-13.

[3] Id., Angelus, 25 de outubro de 2008.

[4] A Verbum Domini se refere muitas vezes à lectio divina, sobretudo nos nn. 86-87.

[5] Id., Discurso no encontro com os bispos da Suíça, 7 de novembro de 2006. Cf., na mesma linha o Discurso à Comunidade do Pontifício Instituto Bíblico no centenário da Fundação, 26 de outubro de 2009.

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