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Fé e Educação

07/06/2017

Uma Dose de Frustração, Grande Salto para o Crescimento

Por Rogério Darabas

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Ao nascer, o ser humano sofre e chora. O primeiro contato com o mundo causa desconforto: frio, ruídos, luzes. O medo do desconhecido. Precisa respirar, e isso também provoca desagradável sensação. A luta do novo ser pela vida esta apenas começando neste mundo carregado de grandes desafios. Da sua chegada até sua despedida, muitas aventuras o aguardam.

Somos eternos aprendizes. Cada dia, novas situações, novas descobertas, novos aprendizados. Enfrentar as diversas etapas do crescimento físico significa enfrentar inúmeros desafios. Desafios que podemos considerar como pequenas batalhas, degraus que iremos superando na medida em que vencemos “o jogo”. No jogo da vida, meu maior oponente sou eu mesmo. Isso mesmo, o desafio é superar-se. É preciso crescer emocionalmente

Somos desafiados a crescer também, no campo das emoções. “Nenhuma criança nasce sabendo controlar suas emoções e, dessa forma, salta da frustração para o encantamento, da alegria para a tristeza em segundos, mas sua convivência com os adultos vai pouco a pouco modelando esse descontrole emocional, levando-a a se compreender melhor e a saber usar suas emoções de acordo com as circunstâncias”. (Celso Antunes)

Surge um dilema: como aceitar e compreender a batalha que está por vir como oportunidade para amadurecer e crescer? Atualmente muitas pessoas, tanto adultos como crianças e adolescentes, apresentam uma característica forte: satisfação tem que ser agora, imediata. Hoje, percebe-se muitos pais, preocupados em atender os desejos dos filhos. Na correria diária, na luta pela manutenção do emprego, os pais dizem não ter mais tempo. Aliviar o sentimento de culpa pela ausência na convivência familiar, por meio de presentes e “mimos”, tornou-se regra em muitos lares. Assuntos que possam causar tristeza, medo, preocupação, na grande maioria dos lares são evitados. Doença e morte são assuntos que são tratados como se fossem “tabus”.

Tais posturas apenas fortalecem o desejo de que temos que ser feliz agora, satisfazer-se plenamente sem sofrimento. Precisamos resgatar o sentido e o valor de situações que, no primeiro momento e, na realidade, são duras e difíceis de serem trabalhadas, procurando entender o sentido. Ao nos depararmos com situações adversas, a pergunta não deveria ser: “Por que isso”, mas sim, “Para que isso”?

A realidade familiar se reflete no âmbito escolar.  A escola é o primeiro contato social. Além do espaço de conhecimento, é a oportunidade para estabelecer as relações com o outro, o diferente. Aqui também há sofrimento. A criança precisa se adaptar, aprender a conviver, socializar-se. Em qualquer fase da vida escolar, enfrenta-se os mais diversos desafios.

Às escolas não basta apresentar um currículo voltado para o conhecimento, enfatizar apenas a vida acadêmica. É necessário trabalhar continuamente os valores seja através de atividades e projetos. Mostrar aos alunos que além dos muros, há outras realidades distintas das que vivem, e às vezes, muito próximas. Que nem sempre teremos apenas situações agradáveis e prazerosas.

Claro que isso não é apenas função da escola. Fundamental que a família seja parceira da formação das crianças e jovens. Que nossas crianças e também os adultos, possamos perceber e sentir que a dor, a perda, o sofrimento nos tornam mais fortes. Partilho aqui a história da lição da borboleta, muito conhecida, e sempre oportuna.

Um dia uma pequena abertura apareceu em um casulo. Um homem sentou-se e observou a borboleta por várias horas e pensou: como ela se esforça para fazer com que seu corpo minúsculo passe através daquele pequeno buraco! De repente, o homem percebeu que a borboleta parou de fazer qualquer movimento. Não havia progresso na sua luta. Parecia que já tinha lutado demais e não conseguia vencer o obstáculo. Então, o homem resolveu ajudá-la. Pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta saiu facilmente, mas ele percebeu que seu corpo estava murcho e suas asas amassadas. O homem continuou a observar a borboleta porque esperava que a qualquer momento as asas se abrissem e, firmando-se, pudessem suportar o peso do corpo. Mas nada aconteceu! Ao contrário, a borboleta passou o resto de sua vida rastejando com o corpo murcho e as asas encolhidas. Nunca foi capaz de voar porque o homem, na sua gentileza e vontade de ajudá-la, não compreendeu que era o aperto do casulo que fazia com que a borboleta se esforçasse e assim se fortalecesse para passar por meio da pequenina abertura.

Para que isso? Essa pergunta deve estar sempre presente para entendermos as adversidades da vida. Com a experiência adquirida, que possamos, pais e educadores ajudar nossas crianças e jovens a perceberem o sentido do sofrimento que por vezes são apresentados, pois assim daremos real valor à vida. Que esse dom maior que Deus nos deu, desenvolve-se em etapas. Para cada momento, situações de frustração e conquista. Que para chegar ao topo da montanha é necessário enfrentar a dura subida. Passar por trilhas, escorregar muitas vezes e onde os ferimentos serão inevitáveis. Mas ao contemplar a vista lá do alto, desfrutar da sensação de que tudo valeu a pena.

Não basta apenas esperar, desejar, querer. Temos que desenvolver outro importante valor: a gratidão. Crianças que aprendem a serem gratas serão adultos com grau de satisfação maior.  Em tudo irão perceber um sentido e não apenas necessidade.

“Um elemento essencial na educação da gratidão – e não somente dela – é construir com a criança a sensação de  expectativa. Antes de leva-la à realização de um sonho, ensiná-la a esperar pelo sonho,  a contar os minutos que o antecedem.” (Celso  Antunes)

Eternos aprendizes. Sempre é tempo de resgatar os verdadeiros valores, aprender a enfrentar os desafios, dar sentido, cor e sabor à nossa vida. As dificuldades, a dor, o sofrimento não podem ser empecilho, mas oportunidades.

O sábio era amigo e conselheiro do rei. Mas chegou o dia de ir embora. O rei estava chateado. O sábio disse: `Vossa Majestade não ficará sem minhas orientações. Deixarei de presente um livro. Quando o reino estiver passando por dificuldades, doenças, perdas, dor ou sofrimento de qualquer ordem, leia a primeira página do livro. Quando o reino estiver vivendo suas maiores glórias, conquistas, realizações, leia a segunda página do livro`.   O sábio se despediu e partiu. Depois de certo tempo o reino enfrentou sua maior crise: povos inimigos invadiram, saquearam e destruíram grande parte do reino. O rei lembrou-se do livro e leu na primeira página: “Isso vai passar”.  Reuniu então, seus conselheiros e parte do povo. Decidiram reconstruir tudo o que havia. Em pouco tempo, o reino tornou-se mais forte do que era e suas conquistas eram expressivas. Tudo estava bem, em paz e prosperidade. O rei lembrou-se do livro  e leu na segunda página: “Isso também vai passar”.

3 comentários

11/6/2017

Mirlene Moreira Melo Canestraro

EMOCIONANTE! Adorei seu novo texto, muito obrigada! Você nos fala de maneira agradável e doce sobre a nossa importância na formação emocional de nossos filhos e educandos! Meu agradecimento, abraços.

12/6/2017

Simone Hernandes

Texto incrível e verdadeiro. Que ele seja instrumento de reflexão e novos olhares para esse incrível mundo da "educação". Gratidão Rogerio!!

12/6/2017

Rafael

Muito interessante esse novo artigo, nos leva a refletir e enxergar de uma outra maneira as frustações, angústias, desesperos, etc, nos leva a ver e a pensar de forma positiva e até mesmo de uma forma que possamos acrescentar em nossa vida como algo positivo e esperançoso. É muito bom ver textos assim por aqui, textos que nos mostrem a triste realidade da vida de uma outra maneira e nos levem a vela de modo positivo e ao mesmo tempo, fazem nos refletirmos. Incrível texto,parabéns Rogério.