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Fé e Educação

26/04/2018

Diversidade E (In)tolerância

Por Rogério Darabas

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“E Deus disse: ‘Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança’. E Deus os abençoou. E viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom” (Cf. Gênesis 1,26-31). Criados à imagem de Deus, estamos revestidos e impregnados do seu Espírito. Hoje somos mais de 7,5 bilhões de habitantes. E quem acredita no poder e na presença de Deus deve viver segundo o Espírito que move toda a criação.

Viver segundo o Espirito divino. Eis o sonho de Deus, o seu projeto desde a criação. E hoje estamos vivendo o sonho de Deus? Temos muitos exemplos de homens e mulheres de boa vontade que se tornaram grandes defensores e testemunhas do Reino de Deus. No Evangelho de São João, Jesus indica o amor como mandamento e valor para a convivência: “Se vocês tiverem amor uns aos outros, todos vão reconhecer que vocês são meus discípulos” (Jo 13,35).

Somos muitos e somos tão diversos: etnia, cultura, religiões, costumes. A globalização nos aproxima e mostra o retrato da nossa identidade. Mas também pode nos afastar ao ponto de cada um viver numa “ilha”. A escola é um espaço muito oportuno para viver e experienciar nossa maior riqueza: a diversidade. Em meio às mais variadas transformações e mudanças dos diversos setores da sociedade, encontramos o ser humano um tanto perdido, vazio, sem perspectivas. Na maioria das vezes, os verdadeiros valores foram esquecidos ou há uma assustadora inversão do certo e do errado.

À escola compete a formação acadêmica, mas não podemos, como educadores, nos eximir da importante contribuição na formação humana das crianças e jovens. Diante da dificuldade de muitas famílias manterem-se estruturadas, a escola se torna um suporte importante e necessário na vida dos seus educandos. Cada escola, dependendo da sua localização, apresenta grupos de alunos os mais variados. Todo esse material humano é uma riqueza e oportunidade para trabalhar grandes valores: respeito, tolerância, justiça, integração, convivência, liberdade. Eu existo na relação com os demais, com todos os que, direta ou indiretamente me afetam.

A escola tem se esforçado para responder as questões de todas as ordens que a sociedade apresenta. Ela sofre influências do meio e, por outro lado, produz conhecimento, interferindo na sociedade. Estudos, reflexões e projetos são elaborados, criados e postos em prática, visando uma educação contextualizada e dinâmica. As reformas educacionais não podem estar apenas voltadas para os aspectos curriculares, mas devem estar atentas para a humanização de todos.

 Nesse sentido, esperamos que as inúmeras atividades e projetos educacionais sejam sempre oportunidade e incentivo à humanização. Que o aluno possa refletir e descobrir a diversidade que o envolve na escola. Mas que cada escola seja uma oportunidade de lançar seus alunos além dos muros. Romper a redoma de vidro e olhar mais além. Escolas que desenvolvem projetos sociais, culturais, visitas às instituições religiosas, voluntariado, terão alunos mais sensíveis e solidários. As atividades em aula são importantes, mas as saídas para outras instituições, para se estabelecer um contato com realidades diversas do contexto do aluno, são fundamentais. É uma forma prática para trabalhar a diversidade. Conhecer outras realidades culturais e religiosas é passo importante para acolher e aceitar o diferente. Ser tolerante é ser humano. Qualquer ato de intolerância é falta de conhecimento. O medo do diferente nos torna alheios e indiferentes. A soberba gera no ser humano a arrogância de sentir-se superior. E ouvimos: “aquela religião não está correta”, ou “apenas os seguidores desta irão para o céu”, ou “aquelas pessoas agem no pecado”… São tantos os exemplos e atitudes que confirmam a falta de respeito com aqueles que pensam e agem diferente de outros grupos. Não podemos afirmar que o grupo majoritário é o correto ou que tal religião é melhor que outra.

 O conhecimento é uma oportunidade para humanizar e transformar. Quanto mais conhecermos sobre o outro, mais poderemos conviver harmoniosamente com ele. “Ou vivemos juntos como irmãos ou morremos juntos como loucos” (Martin Luther King). Somos eternos aprendizes. A humildade nos coloca em condições de igualdade para dar e receber. Só quem consegue ver o outro, com toda a sua diversidade e inteireza, terá condições de chamá-lo de irmão e irmã. Sou o que sou mediante minha experiência de vida. Não posso negar meu passado, pois não seria eu.

Uma breve história: um jardineiro que ainda não conhecia nenhum tipo de roseira foi presenteado com uma bela muda. Ele preparou a terra e a plantou. Cuidava, regava, podava. Ansioso aguardava o dia em que sua flor desabrochasse. Queria descobrir sua formosura, cor, perfume. E eis que um dia percebeu um lindo botão. E contemplou tamanha beleza. Aproximou-se para tocá-la e foi ferido por seus espinhos. Ficou desapontado. Como pode uma flor tão bela ter espinhos que ferem e causam dor? Deixou de regar e cuidar, abandonando-a à própria sorte. Ela foi murchando até secar completamente.

Nós somos seres de luz e sombra. Não somos seres perfeitos. Cada um possui sombras, mas nossa “luz” pode, com seu poder, afugentar todas as trevas. Temos espinhos, mas somos belos e perfumados. Assim como a roseira, cujos espinhos fazem parte da composição, nossos “espinhos” também ferem, mas fazem parte do nosso ser, e temos que saber conviver com o que temos de melhor, e nos esforçarmos para ver a beleza além das atitudes que incomodam a nós e aos demais.

“Todos nós, judeus ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num só Espírito para sermos um só corpo. E todos bebemos de um só Espírito” (1Cor 12,13). A diversidade vem de Deus. Ele é um ser diverso, acolhe e abençoa a todos.

1 comentário

26/4/2018

Mirlene M. Melo Canestraro

Belíssimo texto Rogério! Suas palavras fomentam um misto de encantamento e utopia por um ser humano mais humanizado e feliz, sendo mais para os demais. Obrigada!