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Fé e Educação

18/11/2016

Além dos muros da escola

Por Rogério Darabas

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Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas.

 Pessoas transformam o mundo (Paulo Freire).

Os quatro pilares da educação (aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser) estão de fato solidificados nos programas educacionais. E, claro, há sempre o empenho para que de fato sejam vivenciados na prática. A educação busca enfrentar os inúmeros desafios que surgem na sociedade moderna. Mudanças, não só tecnológicas, mas também o ser humano está em contínua transformação, e anseia por novas respostas. E a escola, através de documentos, normas, regimentos, planejamentos, atividades, procura assegurar a sua missão: educar de maneira integral o ser humano.

Tradicionalmente, escola lembra sala de aula, espaço e tempo dedicados ao conhecimento. Vivemos novos tempos. A escola é instigada e provocada a se adequar às novas tendências. Congressos, cursos, simpósios e novas ferramentas educacionais são apresentados. Mas há algo que a escola tem sempre presente: o seu olhar não está voltado para um produto de venda, priorizando o marketing, pois o ser humano é e deverá ser sempre seu grande objetivo.

É fato: a escola é o lugar do conhecimento. Mas como me aproprio do conhecimento? Para que serve esse conhecimento? Conhecimento, assim como os pães e os peixes do milagre da multiplicação narrado no Evangelho, também deve ser partilhado. Aprender a conhecer e aprender a fazer são os dois primeiros pilares da educação; aprender a conviver (estabelecer relações saudáveis de convivência) e aprender a ser (descobrir-se como ser humano, ter clareza da sua missão), também. A educação de valores não é de responsabilidade exclusiva da escola. Ela se tornou parceira da família nesse objetivo. Afinal, além de espaço de conhecimento, a escola é o lugar e o tempo propícios para estabelecer relações de convivência harmoniosa.

 Nesse sentido, muitas escolas têm apresentado e desenvolvido atividades e projetos que enfatizam a convivência e fortalecem a cultura da solidariedade. A solidariedade não pode ser uma ação isolada, um ato em si mesmo. Tem de ser chamada e incorporada como cultura, pois está impregnada de aspectos e elementos abrangentes, integrados com outros. Priorizando o respeito à diversidade no ambiente escolar, a valorização de cada ser em si, o incentivo a sair do meu mundo particular e olhar para o outro, a ter compaixão, assumir gestos fraternos, a escola pode e deve sim trabalhar a cultura da solidariedade. Num primeiro momento, no próprio espaço onde se encontra, nas relações do cotidiano.

Mas é necessário sonhar, ousar, ir um pouco além. O que há além dos muros? A escola não pode ficar fechada. Em torno dela pulsam realidades que interferem direta e indiretamente no seu cotidiano. Evitar a construção de pontes, não abrir os portões no muro da segurança e do conforto é optar pela estagnação. Atividades além dos muros são realizadas por todas as escolas: estudo de campo, saídas culturais são os nomes mais comuns. Algumas ousaram e iniciaram atividades de solidariedade e voluntariado.

O que há além dos muros? Um mundo carregado de diferentes significados e sentidos. Além do portão da escola, abre-se um vasto campo para novas leituras da realidade. Um jovem estudante que vive entre a casa e a escola pode alcançar excelência acadêmica, mas corre o risco de ter um conhecimento desconectado com alguns setores sociais. Escolas que oferecem atividades sociais e projetos de voluntariado estudantil estão de fato colocando na prática o aprender a conviver e o aprender a ser. Antes da ação em si, os estudantes preparados para mergulhar numa realidade diferente serão incentivados e desafiados a sair da zona de conforto e segurança. Abrir as portas da sua escola para visitar e conhecer instituições na periferia, que atendem crianças e jovens que vivem realidades muitas vezes inimagináveis, toca profundamente e provoca esses estudantes.

Muitas instituições sociais têm aberto as portas para as escolas desenvolverem suas atividades: creches, escolas públicas, lar de idosos, hospitais, instituições que atendem pessoas com as mais diversas necessidades. E o campo de atuação cresce de acordo com as necessidades e a criatividade dos envolvidos. Experiências de solidariedade e voluntariado contribuem de maneira muito especial na formação dos educandos. Além dos muros, há muito o que descobrir, muito a conhecer. Afinal, o conhecimento é dinâmico, envolvente. Realidades diferentes, pessoas diferentes, novas formas e maneiras de viver… Além dos muros, a vida pulsa.

Em sua obra O livro dos abraços, Eduardo Galeano escreveu:

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovakloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

– Pai, me ensina a olhar!

 Assim deve ser a escola. Eis a missão do educador: provocar espanto, despertar admiração, possibilitar um novo olhar, semear sonhos, incentivar a transformação, romper os muros e construir pontes.

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