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Bíblia

11/06/2018

Livros Sapienciais 3. Jó-2

Por Nilo Luza

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Como vimos no artigo anterior, o Livro de Jó pode ser divido em duas principais partes: a primeira, em prosa e bem mais breve, engloba a introdução (capítulos 1-2) e a conclusão (42,7-17); a segunda em verso é bem mais extensa e é a parte central do livro, ou seja, capítulos 3,1-42,6. No mês passado, trabalhamos a moldura do texto (a introdução e a conclusão). Neste artigo, vamos nos ater à parte central, isto é, capítulos 3,1-42,6.

Dizíamos que essa parte central é bem mais recente que a moldura, ou seja, o pequeno conto que provocou o debate entre Jó e as personagens centrais. Enquanto a introdução e a conclusão podem ser datadas bem antes da monarquia; a parte central foi sendo formada em diversas épocas, sua redação final se dá pelo ano 400 AC, após o exílio.

A parte central do livro (3,1-42,6) pode ser dividida nas seguintes partes: 1) Diálogos de Jó com os três “amigos” (3-27). 2) Elogio da sabedoria (28), provavelmente acréscimo tardio. 3) Grande discurso final de Jó (29-31). 4) Discursos de Eliú (32-37), que aparece de forma imprevista. 5) Diálogo entre Deus e Jó (38,1-42,6).

Quem seriam os autores do livro? Como vimos, a moldura ou o “conto folclórico” em prosa é muito antigo, provavelmente importado para Israel. Na parte central em versos, temos provavelmente os camponeses empobrecidos, que propõem nova visão de Deus e questionam as causas do sofrimento.

Se, na introdução e na conclusão, conhecemos um Jó conformado, paciente e resignado; na parte central do livro, encontramos um Jó inconformado e até revoltado contra a situação em que ele está vivendo. Questiona os “amigos”, dizendo que seu sofrimento não é por causa de seus pecados. Segundo eles, as dificuldades e os sofrimentos de Jó são fruto do seu pecado.

O livro de Jó questiona a “teologia da retribuição”. Segundo essa teologia, Deus dá a riqueza para alguns e a pobreza para outros. É uma “teologia comercial” com Deus: rezo e dou esmola e ele me retribui com graças e bênçãos.

Jó propõe uma “teologia da gratuidade”, elaborada não a partir de quem vive bem: ricos e saudáveis, mas a partir dos empobrecidos. Os pobres do tempo de Neemias e Esdras lutavam para se libertar da “teologia oficial” (teologia da retribuição), representada pelos “amigos” de Jó. Os pobres criam sua teologia a partir da experiência de Deus. Para eles, a relação com Deus é uma relação gratuita e amorosa, reconhecem o Deus criador e defensor da vida. Fazem a experiência de um Deus solidário e aliado dos sofredores. O mesmo Deus revelado por Jesus.

1 comentário

20/6/2018

Ademildo

Que interessante. Obrigado por nos proporcionar uma visão diferente sobre o livro de Jó. Ótimo artigo.