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01/11/2019

Servir à beleza do mistério da liturgia

Por Jerônimo Lauricio

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Nossa reflexão de hoje partirá de um ensinamento do Papa Pio XII que em sua Encíclica Mediator Dei – sobre a Sagrada Liturgia – nos escreveu assim: “urge verdadeiramente que os fiéis participem das sagradas cerimônias não como espectadores mudos e estranhos, mas penetrados, intimamente, da beleza da liturgia” (177). É, pois, sobre essa Beleza Divina que hoje queremos refletir, pois através dela, Deus vem ao nosso encontro todos os dias, especialmente na celebração da Eucaristia, onde o Mistério se faz presente e ilumina com sentido e beleza toda a nossa existência, nosso serviço, nossa missão. A liturgia é de fato, o meio mais belo e extraordinário pelo qual Cristo Redentor dos homens, uma vez morto e ressuscitado, compartilha sua vida conosco, tornando-nos parte de Seu Corpo como membros vivos e nos fazendo participar de Sua beleza.

 

  1. A CELEBRAÇÃO DA DIVINA BELEZA ESCONDIDA E REVELADA NOS SACRAMENTOS.

 

O Catecismo da Igreja Católica nos ensina que “cada Celebração Sacramental – e isto é, a Liturgia – é um lugar privilegiado de ORAÇÃO, do nosso ENCONTRO pessoal com o Mistério da Trindade” (1153). Para compreendermos a profundidade dessa relação entre mistério e celebração sacramental, precisamos nos recordar que o “SACRAMENTO” – em seu sentido cristão mais amplo e antigo – se refere à revelação do “MISTÉRIO” eterno e oculto em Deus. Em grego “mysterion” está ligado originariamente ao culto; indica o fechamento dos olhos ou da boca diante da experiência que não se pode formular em palavras. MISTÉRIO é, portanto, a única palavra que podemos articular para falar da realidade divina e invisível. Juntas, estas duas palavras, “mistério e sacramento”, se referem à dupla dimensão de uma Beleza “escondida e revelada” do plano de Deus para a humanidade. Como isso é possível? “Os sacramentos revelam os mistérios espirituais por meio de sinais visíveis, com os quais os cristãos podem experimentar a presença de Deus” (YOUCAT pág 104). E é isso que torna a Beleza da Liturgia fascinante, atraente, redentora.

Mas o que, é no fundo, a Liturgia? O que acontece nela? Que espécie de realidade encontramos ai? Pois bem, na tentativa de encontrarmos as respostas para essas e outras perguntas, vamos explorar, em primeiro lugar, o próprio conceito de Liturgia a partir da sua etimologia. Se abrirmos o Catecismo da Igreja Católica, poderemos ler que “originariamente, a palavra «liturgia» formada por leiton (povo) e ergon (obra, ação), significa «obra pública», «serviço por parte dele em favor do povo». Na tradição cristã, quer dizer que o povo de Deus toma parte na «obra de Deus»” (CIC 1069). De outro modo podemos dizer que a partir da etimologia e da Teologia cristã que tomou este vocábulo do mundo grego, a Liturgia é obra de Deus, e consequentemente obra de Cristo (CIC 1072), da qual a Igreja participa celebrando o seu Mistério Pascal. Parece complicado? Veremos que não…

Quando a Igreja nos ensina que a Liturgia é obra de Deus, com isso ela está nos indicando que o primado de toda ação litúrgica é d’Ele, que é Ele quem toma a iniciativa, quem nos precede no amor (I Jo 4,10). Esta Bela Obra é de Deus porque é Ele quem age primeiro em favor da nossa redenção. É na Liturgia que vemos claramente que “quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada” (Evangelii Gaudium 3). Por isso, toda celebração litúrgica é na terra por excelência o lugar do belo encontro entre Deus e o homem.

Em uma de suas catequeses em outubro de 2012, o Papa Bento XVI de forma tão profunda nos ensinou que a liturgia “é o ato no qual cremos que Deus entra na nossa realidade e nós podemos encontrá-Lo e tocá–Lo. É o ato no qual entramos em contato com Deus: Ele vem a nós, e nós somos iluminados por Ele. Por isso, quando nas reflexões sobre a liturgia focalizamos apenas o modo como a tornar atraente, interessante e bonita, corremos o risco de esquecer o essencial: a liturgia celebra-se para Deus, e não para nós mesmos; é obra sua; Ele é o sujeito; e nós devemos abrir-nos a Ele e deixar-nos guiar por Ele e pelo seu Corpo, que é a Igreja.” Em outras palavras: somos chamados a participar ativamente dessa obra de Deus, deixando-nos iluminar pelos raios da sua beleza redentora, escondida e, ao mesmo tempo, revelada na Graça dos Sacramentos, especialmente da liturgia eucarística, em que o céu abraça misticamente a terra!

A respeito desse abraço sacramental, é oportuna a lembrança de um discurso histórico feito pelo o então Cardeal Ratzinger durante o 23º Congresso Eucarístico Nacional Italiano. Em sua introdução ele citou a antiga lenda sobre as origens da fé cristã na Rússia. Segundo essa lenda, o príncipe Vladimir de Kiev decidiu aderir à Igreja Ortodoxa de Constantinopla depois de ouvir seus embaixadores enviados a Constantinopla, onde estiveram presentes numa solene liturgia na Basílica de Santa Sofia. Eles disseram ao príncipe: “Não sabíamos se estávamos no céu ou na terra… Somos testemunhas: Deus fez Sua morada ali entre os homens”. E o teólogo cardeal tirou desta lenda uma conclusão: “Com efeito, a força e a beleza interna da liturgia desempenharam um papel essencial na difusão do cristianismo… O que convenceu os embaixadores do príncipe russo, que a fé celebrada na liturgia ortodoxa era verdade, não era um argumento de estilo missionário cujos elementos pareciam mais convincentes para aqueles dispostos a ouvir do que os de qualquer outra religião. Não, o que os atingiu foi o mistério em si mesmo, um mistério que, precisamente porque é mistério, vai além de toda discussão, impõe ao motivo a força e beleza da verdade.

 

  1. A DIGNIDADE DA LITURGIA APONTA PARA A BELEZA DO MISTÉRIO.

O Papa Francisco na Evangelii Gaudium nos diz que “no meio da exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar” (EG – 24). Sim, a beleza da Liturgia é evangelizadora, porque ora nos atrai para o mistério de Deus, ora nos convida a aprofundar o nosso encontro e relação pessoal com esse mistério, presente entre os homens através da obra intermediária do Filho, “o mais belo dos filhos dos homens, cujo os lábios se espalha a Graça” (Sl 45,3).

Todavia, como disse o Papa Bento XVI em 2008 na Catedral de Notre Dame de Paris, ao presidir Oração das Vésperas, “as liturgias da terra, ordenadas todas elas à celebração de um Ato único da história, não alcançarão jamais a expressar totalmente sua infinita densidade, pois a beleza dos ritos nunca será o suficientemente esmerada, o suficientemente cuidada, elaborada, porque nada é muito belo para Deus, que é a Formosura infinita. Nossas liturgias da terra não poderão ser mais que um pálido reflexo da liturgia, que se celebra na Jerusalém de cima, meta da nossa peregrinação na terra. Que nossas celebrações, entretanto, se lhe pareçam o mais possível e a façam pressentir”.

Por outro lado, isso não significa que a superficialidade, banalidade e negligência tenham algum lugar na liturgia. Ao contrário, essas atitudes não apenas não ajudam o fiel católico a progredir em seu caminho de fé, mas acima de tudo prejudicam aqueles que apenas participam da Celebração Eucarística dominical.  A Liturgia se torna bela e jubilosa quando glorifica a Deus e nos introduz na alegria do culto e do sacrifício divino. A esse respeito, é oportuno nos recordarmos do quinto capítulo sobre “A dignidade da celebração litúrgica”, na última encíclica de São João Paulo II, Ecclesia de Eucharistia: “Tal como a mulher da unção de Betânia, a Igreja não temeu « desperdiçar », investindo o melhor dos seus recursos para exprimir o seu enlevo e adoração diante do dom incomensurável da Eucaristia. À semelhança dos primeiros discípulos encarregados de preparar a «grande sala», ela sentiu-se impelida, ao longo dos séculos e no alternar-se das culturas, a celebrar a Eucaristia num ambiente digno de tão grande mistério. Foi sob o impulso das palavras e gestos de Jesus, desenvolvendo a herança ritual do judaísmo, que nasceu a liturgia cristã. Porventura haverá algo que seja capaz de exprimir de forma devida o acolhimento do dom que o Esposo divino continuamente faz de Si mesmo à Igreja-Esposa, colocando ao alcance das sucessivas gerações de crentes o sacrifício que ofereceu uma vez por todas na cruz e tornando-Se alimento para todos os fiéis? Se a ideia do «banquete» inspira familiaridade, a Igreja nunca cedeu à tentação de banalizar esta «intimidade» com o seu Esposo, recordando-se que Ele é também o seu Senhor e que, embora «banquete», permanece sempre um banquete sacrificial, assinalado com o sangue derramado no Gólgota. O Banquete eucarístico é verdadeiramente banquete «sagrado», onde, na simplicidade dos sinais, se esconde o abismo da santidade de Deus.”

 

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