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22/08/2017

O querigma: o primeiro anúncio da Boa-Nova de Cristo

Por Jerônimo Lauricio

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O Papa Bento XVI, em sua Encíclica Deus Caritas Est, nos recorda que “a natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria-didaché), celebração dos Sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). Esses são deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (DCE, 25). A partir deste primeiro artigo, queremos convidar você a explorar conosco o terreno dessa tríplice ação da Igreja através de uma série de formações. Os tesouros que vamos encontrar nessa aventura tornarão nosso discipulado e nossa missão mais atraentes, mais cheios de vida, de dinamismo. Em uma palavra: mais fecundos.

Nesse primeiro momento, o nosso ponto de partida será o “anúncio da Boa-Nova de Cristo”, o querigma. O conceito de querigma (mensagem, em grego) no horizonte do cristianismo se identifica com o de Evangelho, Boa Notícia, anúncio, mensagem de salvação. Nesse sentido é que sempre dizemos que Cristo não veio configurar um sistema de pensamento, uma norma ética de vida ou uma grande ideia. Mas veio anunciar uma mensagem de salvação, proclamar o Reino de Deus. Isso fica claro quando lemos na Escritura que “Jesus começou a pregar e a dizer: ‘Convertei-vos e crede no Evangelho, porque está próximo o Reino dos Céus’” (Mt 4,17), ou quando Ele dizia:

É necessário que se proclame a Boa-Nova a todas as nações” (Mc 13,10). O querigma tornou-se também o fim essencial da missão evangelizadora confiada por Jesus a seus discípulos, quando lhes disse: “‘Ide e proclamai a Boa-Nova a toda criatura’ […] E eles saíram a pregar por toda a parte, agindo com eles o Senhor estava, e confirmando a Palavra por meio dos sinais que a acompanhavam” (Mc 16,15).

 Sobre o querigma, vale a pena a gente garimpar a origem do uso desse termo, que vem exatamente do verbo grego “KERYSSO”, que por sua vez significa proclamar por um mensageiro (kéryx) um decreto autorizado pelo soberano.  A palavra grega “KÉRYX” significa justamente “pregador, mensageiro”. Interessante é notarmos que, na Antiguidade grega, o “kéryx” era aquela pessoa que o soberano enviava para proclamar, anunciar a sua mensagem (KERYGMA). O mensageiro jamais se atrevia a mudar a mensagem, porque ela não era sua. Ele era apenas o portador, e seu dever era transmiti-la integralmente, para que ela fosse ouvida e acolhida por todos naquela região. Algo semelhante aconteceu na Idade Média com o ofício do “arauto”, que consistia em tornar conhecida a vontade do seu Senhor, em anunciar suas palavras, em proclamar suas sentenças. O arauto era o oficial que fazia as publicações solenes, anunciava a guerra e proclamava a paz, ou seja, era o mensageiro (singular) do rei. A partir de toda essa riqueza de significados é que podemos dizer que é isto que um pregador, um formador, um catequista é: “um mensageiro da Boa-nova do Reino de Deus”, aquele que “anuncia Cristo aos homens, os adverte e os instrui em toda sabedoria, a fim de apresentá-los todos, perfeitos em Cristo” (Cl 1,24-29). Em síntese: o verdadeiro anúncio nada mais é do que a bonita e sublime tarefa de proclamar a vontade de Deus aos homens.

Quando falamos de querigma, logo nos lembramos também de algo muito interessante que o Apóstolo Paulo escreve aos Romanos, ao falar da fé em Cristo: “Como poderão crer sem ter ouvido? Como poderão ouvir sem quem anuncie?”  (Rm 10,14). Literalmente: “sem alguém que proclame o querigma?”. E conclui: “A fé vem da [escuta da] pregação e a pregação é pela Palavra de Cristo” (Rm 10,17). E por “pregação” se entende a mesma coisa, isto é, o “evangelho” ou o querigma. Por isso, a fé é uma semente da graça que floresce somente na presença do terreno do querigma, no canteiro do anúncio.

Nesse sentido, o Beato Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, nos deixou uma belíssima lição, a de que “não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados. […] Dar a conhecer Jesus Cristo e o seu Evangelho àqueles que não os conhecem é precisamente, a partir da manhã do Pentecostes, o programa fundamental que a Igreja assumiu como algo recebido do seu Fundador” (EN, 22 e 51).

Muitos de nós, mesmo marcados pelos longos anos de seguimento a Jesus, poderíamos a essa altura ainda nos perguntar sobre qual deve ser de fato o conteúdo específico do nosso anúncio, da nossa pregação. A essa questão poderíamos seguramente dizer apenas que é o próprio Cristo, a Boa Notícia do Pai. Mas o Papa Francisco, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, nos faz dar um salto muito interessante e belíssimo, quando nos ensina que “o querigma é trinitário. É o fogo do Espírito que se dá sob a forma de línguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurreição, nos revela e comunica a misericórdia infinita do Pai. Ao designar-se como ‘primeiro’ este anúncio, não significa que o mesmo se situa no início e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conteúdos que o superam; é o primeiro em sentido qualitativo, porque é o anúncio principal, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar de uma forma ou de outra. É o anúncio que dá resposta ao anseio de infinito que existe em todo coração humano” (EG 164).

Por isso é que, em nossos movimentos, pastorais, grupos de estudo, comunidades, associações, paróquias, dioceses, mais do que nunca, “se faz urgente e necessário que surja uma nova geração de apóstolos que estejam enraizados na Palavra de Cristo, em condições de dar uma resposta aos desafios do nosso tempo e preparados para anunciar o Evangelho em toda parte” (Papa Bento XVI). Uma geração de discípulos missionários, que pela força do batismo se sintam atraídos a florescer o Evangelho naquele “campo da fé”, onde o Senhor os plantou. Uma geração que não tenha medo de deixar que “Jesus Cristo venha a romper também os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprisioná-lo, e surpreender-nos com a sua constante criatividade divina” (EG, 12). Pois, como completa o Papa Francisco na Evangelii Gaudium:

O Senhor quer servir-Se de nós como seres vivos, livres e criativos, que se deixam penetrar pela sua Palavra antes de a transmitir; a sua mensagem deve passar realmente através do pregador, e não só pela sua razão, mas tomando posse de todo o seu ser. O Espírito Santo, que inspirou a Palavra, é quem hoje ainda, como nos inícios da Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele, e põe na sua boca as palavras que ele sozinho não poderia encontrar” (EG 152).

Por fim, não poderíamos deixar de mencionar que, embora o querigma seja o eixo no qual os campos da missão, da evangelização, da catequese, da pregação giram em torno para fazer conhecido o nome e o Rosto de Jesus de Nazaré, em muitos lugares ainda tudo segue girando, desde o princípio até o final, em torno à primeira conversão, ao chamado novo nascimento, o primeiro amor. Isso é bom. É o ponto de partida. Mas para nós, católicos, o querigma é só o início da vida cristã. Depois disso deve vir a catequese, o ensinamento (didaché) e o progresso espiritual, a fim de que possamos eleger conscientemente Cristo como próprio Senhor e Salvador pessoal, e comprometer-nos ativamente na vida de nossa Igreja.  E sobre esse aspecto nos dedicaremos a partilhar na próxima formação! Até lá!

1 comentário

17/5/2018

Lúcia SARAIVA

Que pregação perfeita e abençoads. O centro do Cristianismo é Cristo. O Querigma é o anúncio da salvação chegada a nós quando Cristo chegou ao mundo, sofreu, foi crucificado, morto, sepultado tendo ressuscitado só terceiro dia. Nós oferece o perdão de nossos pecados, r todos somos pecadores, e a oportunidade de ter vida eterna. Basta acreditar nele. É isso vem pela fé. É tão maravilhoso que mal podemos crer. Louvado o Deus Pai. Glórias a Ele, o Criador.